Amor de carnaval: casal de professores faz festa online para comemorar 40 anos de folia
Casal se conheceu durante o carnaval e comemora 40 anos de relacionamento em festa online — Foto: Helder Oliveira
“O amor entre pessoas negras é um ato político contra o racismo”, é a essa citação do jornalista André Santana que Antônio Baruty recorre para definir a parte determinante de sua ligação com Solange Banto Rocha. O casal comemorou, no último dia 23 de fevereiro, o marco de 40 carnavais juntos, com uma relação que, ao sobreviver à quarta-feira de cinzas, se enfeitou de folia por décadas a fio.
Em 2022, tomados pelo receio de uma pandemia que já interrompeu milhares de sonhos apaixonados, o carnaval foi mediado por telas de uma vídeo-chamada. A festa para comemorar a paixão que segue firme contou com cerca de 150 convidados, espalhados em 8 países de diferentes continentes. Com o tema “Celebrando a vida, o amor e a amizade”, o evento aconteceu na quarta-feira de fogo foi feito para lembrar da terça-feira de carnaval que se encontraram para nunca mais largar.
Vivendo na capital paraibana há mais de 30 anos, foi em Londrina, norte do Paraná, que o casal se conheceu. Era um dia atípico para Solange, ela acabara de sair de um velório e foi convencida por uma tia a não desistir do desfile da escola de samba que tinha participado dos ensaios durante os últimos meses. Participou do evento e foi contagiada pela força da avenida. Ao subir no ônibus que trazia os instrumentos de volta à quadra, conheceu seu futuro marido.
Era estranho, pois ele era da família fundadora da escola e eles nunca tinham, sequer, esbarrado um no outro nos preparativos do desfile. O diálogo começou ali, sobreviveu à quarta-feira de cinzas e, em pouco tempo, começaram a namorar.
“É curioso, se não fosse a escola de samba nunca teríamos nos conhecido. Morávamos em bairros extremos da cidade, eu estava saindo da adolescência e ele começando a vida adulta. Momentos diferentes, amizades diferentes. O carnaval nos uniu”, conta Solange com ar de riso.

A avenida uniu o casal, que nunca perdeu a oportunidade de sair às ruas em busca de folia. No desfile em que se conheceram, Solange era cabrocha e Antonio ritmista. Ao longo dos 40 anos de relacionamento, se orgulham de não conseguir puxar pela memória um ano em que tenham vivido a data longe um do outro.
Do carnaval ao casamento
Apesar das diferenças, o namoro revelou muitos interesses em comum, como o apreço por arte, literatura, música popular brasileira e o compromisso com o movimento negro que ia sendo forjado na juventude dos dois.
“Como o Eduardo e a Mônica, da música da Legião Urbana, conversamos ‘muito mesmo pra tentar se conhecer’. Fui descobrindo uma leitora voraz, alegre, comunicativa, desde os primeiros contatos, foi o sorriso marcante de Solange, profundamente expressivo, transmitindo segurança, carinho, esperança na construção de um futuro”, revela Antônio.
Foram seis longos anos de namoro até o casamento. Nesse meio tempo circularam em algumas cidades do país realizando trabalhos e construindo a carreira acadêmica. Solange atribui morar em diversas cidades à relação com a diáspora africana (saída em massa do continente devido ao tráfico atlântico de escravizados). Ela acredita que esse movimento conecta o casal a diferentes integrantes da comunidade negra, e fortalece os conhecimentos.
“Um casamento de negros”, como chamam o evento que aconteceu na cidade de São Paulo, em 17 de abril de 1988. Primeiro veio a cerimônia no cartório, seguida da ida do casal ao único salão de beleza da capital paulista que fazia o tradicional corte ‘black power’. A beleza ali contava uma história de resistência dos apaixonados.

No mesmo ano em que casaram puderam realizar um sonho em comum, ter um filho. O primogênito é Felipe Adunbi, em sequência veio a mais nova, Ana Dindara. Para Antonio, a alegria se revestia de receio ao colocar dois filhos negros num mundo que costuma maltratar pessoas de cor:
“Nos vimos diante de um desafio que ia muito além de questões econômicas, criar o filho e a filha numa sociedade racista e patriarcal de forma que ele e ela não repetissem estes modelos. Tínhamos em mente que para cumprirmos este nosso papel lançaríamos mão de carinho, afeição, reconhecimento, respeito, compromisso, confiança, assim como honestidade e comunicação aberta”, refletiu o pai.
Em 1989, um ano após o casamento, saíram do Sudeste e vieram morar em João Pessoa, cidade onde vivem a maior parte do tempo em que estão juntos. Solange conta que a escolha tem a ver com a surpresa de viver numa capital litorânea, e com a oportunidade de mapear um estado que lhe fez muito sentido enquanto uma historiadora disposta a entender a fundo o período colonial e escravocrata.
Os filhos cresceram saudáveis, seguiram caminhos distintos, mas estavam cada um a seu modo presentes na celebração de 40 anos do relacionamento que os trouxe ao mundo. Para Adunbi, que só conseguiu participar por ser um encontro online (já que mora em outro país), o momento foi de forte emoção:
“Foi uma experiência única, na celebração online vi muitas pessoas que não via há muito tempo e fizeram parte da minha vida. Cada frase passava um filme, ver o amor deles dois é muito bonito, eu tenho 33 anos e nunca namorei por muito tempo, é muito bom ver que eles estão juntos e são tão queridos por tanta gente. Só não foi melhor porque não foi pessoalmente”, contou o filho do casal.

O amor conjunto pelo carnaval
Ao chegar em João Pessoa e viver o primeiro carnaval de rua no Nordeste, em 1990, Solange sentiu algo diferente do que estava acostumada a ver nas avenidas do samba. De acordo com ela, nas ruas há a democracia e o protagonismo para todos que vivem a folia. Ela destacou que a mágica da festa dos blocos pessoenses tinha a ver com abraçar todos os públicos e permitir que todos vivessem a alegria carnavalesca enquanto participam ativamente do festejo.
O casal tem muitos carnavais diferentes compartilhando a paixão pela data. Na bagagem já contam blocos e desfiles de escolas de samba em Londrina, João Pessoa, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Recife, Olinda, Salvador e até em Portugal.
“Em fevereiro de 2020 estávamos em Coimbra, onde fizemos o pós-doutorado, e fomos assistir ao carnaval numa cidade próxima. Era inverno, começou a chover e muitas escolas de samba desfilaram, algo muito parecido com o Brasil. Eu vi brasileiros participando e embalados pelo samba. A gente exporta nosso carnaval pro mundo inteiro”, comemora Solange.
Entre os diversos carnavais em família, mãe e filho escolheram, sem combinar respostas, o mesmo para destacar. Um carnaval recente, tomado pela emoção da vitória da escola de samba do coração após décadas tendo as torcidas frustradas. Em 2017, a Portela levou a melhor no sambódromo, e foi no Rio de Janeiro que a família de Solange e Antonio curtiu uma data inesquecível. Filhos crescidos, avenida lotada e um sonho de família realizado.

Com estudos aprofundados sobre a festa que tomou seu coração, Solange ressalta que a folia não é apenas uma brincadeira. “Historicamente nós sabemos que o carnaval, para população negra, é uma forma de resistência contra o sistema de opressão. A dança e a música foram formas de manter a nossa sanidade e sobreviver ao sistema”.
Amor negro, ancestralidade e resistência
“É sempre reconfortante saber de onde nós viemos, porque a partir daí podemos dizer pra onde queremos ir”, é assim que Solange Rocha explica o elo ancestral que a liga ao marido. O casal ingressou no movimento de luta pelos direitos da comunidade negra ainda jovem, antes mesmo de ingressar na universidade. Mas foi a vida acadêmica que estreitou os laços de ativismo.
Ela é historiadora e guiou suas pesquisas pelos caminhos traçados pelo povo negro escravizado no Brasil. Estuda a história dos homens e mulheres que foram, violentamente, arrancados do continente africano e trazidos para construir o país. Antônio é biólogo de formação e, por sua vez, decidiu pesquisar sobre a saúde da população negra, entre outros aspectos.
Sempre unidos em projetos dentro da temática racial, os professores universitários sempre acreditaram na educação como ferramenta de luta por justiça social. Foi por isso que fundaram, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi). Desde a primeira década do século 21, o projeto é berço de pesquisas cujo principal objetivo é combater as discriminações raciais dentro e fora da universidade. Solange apoiou Antônio, ainda, na luta pela implementação das cotas raciais na UFPB.
Essa ligação permitiu que os dois fossem companheiros nos objetivos de tornar a sociedade um lugar possível para que famílias pudessem se estruturar, algo atípico num país onde as mulheres negras costumam ser mães solo e aos homens negros resta o esteriótipo da criminalidade.

Eles acreditam que é essa sabedoria ancestral que os fortalece. O casal fez, recentemente, o DNA geográfico, que lhes permitiu a descoberta de que possuem mais de 60% de herança genética vinda do continente africano. “Sempre fazemos alusão à nossa ancestralidade que resistiu e faz com que estejamos aqui hoje, juntos”, destaca a historiadora.
Ainda partindo das origens, Solange ressalta a importância da coletividade para manutenção da relação ao longo dos últimos quarenta anos.
“Dentro da filosofia dos povos Banto, de onde eu vim, a palavra ‘Ubuntu’, que significa ‘eu sou porque nós somos’, diz muito de nós. Esse é o nosso movimento social em conjunto. Mesmo sabendo de todas as adversidades, vivemos num Estado racista, mas estamos sempre com esperança e o carnaval nos fortalece pra essa luta que tem a ver com nossa ancestralidade”, conclui.
Sobrevivendo aos acasos, como manter uma relação duradoura?
“Nenhuma trajetória é linear, como sabemos, há percalços, recuos, ambiguidades, incertezas e frustrações”. Solange Rocha é dona da citação usada por Antônio Baruty em seu artigo intitulado “Um encontro na vida não escrito por Fanon”. No texto, ele usa o academicismo e normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para registrar em seu currículo lattes uma história que transpassa a pesquisa e deságua no amor e na família por eles construída.
É possível perceber nas falas e nas linhas do casal que é difícil, para eles, separar a vida social do encontro pessoal que tiveram. “O sentimento que nos une desde 1982 enfrentou e resistiu à fúria dos elementos e por vezes vivenciamos e mostramos o que não era nada bonito ou mesmo agradável”, conta Antonio, reconhecendo junto a esposa os conflitos inevitáveis num casamento de tanto tempo.
Apesar dos desafios, é ao diálogo insistente para manter a relação saudável e aquecida que Solange atribui às quatro décadas de vida compartilhada.
“É importante a capacidade de se reinventar na relação, a paixão e o amor. Ficamos apaixonados de tempos em tempos um pelo outro. Nossa vida social e profissional também está interligada, nós temos um projeto de vida em comum, lutamos e trabalhamos por uma sociedade com equidade sociorracial, e isso foi mantido nesses 40 anos”, afirma.
Diante das convenções sociais de gênero, que relega às mulheres os afazeres domésticos e cuidado materno, a desconstrução desse formato que se torna, por vezes, exaustivo para uma das partes sempre foi combatido pelo casal, com o intuito de tornar a relação equilibrada.
“Se hoje se fala da participação do homem na paternidade, Antônio sempre fez isso. Ele sempre esteve presente, sempre exercitou a paternidade de forma concreta. Ele não só ajudava, detesto isso de que homem ‘ajuda’ a mulher. Meu marido não me ajuda, ele cuida dos nossos filhos e da casa porque é obrigação dos dois, dividimos as tarefas, fazemos acordos e assim seguimos unidos”, finaliza a historiadora.

A festa, este ano celebrada na quarta-feira de fogo, contou com a participação de amigos e familiares que deram vida a todos os sonhos e prazeres descritos pelo casal. Houve apresentação de coco de roda por integrantes de quilombo, poeta entoando trechos de poemas sobre amor negro e seu poder de resistência, filhos homenageando os pais e múltiplas línguas sendo faladas.
A multiplicidade de Solange e Antônio foi reverenciada e o desejo era um só, que haja outros quarenta carnavais.
“Ao longo de todas estas voltas vivemos, lado a lado, praticamente de tudo, e para você Solange afirmo, usando um verso cantado por Alcione, que “eu te amo até o nosso deus envelhecer”, declara Antônio à sua amada.