Como legalização da maconha na África do Sul está excluindo produtores tradicionais

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cannabis maconha

© lovelyday12/istock

Justiça da África do Sul legaliza uso recreativo da maconha (veja vídeo clicando aqui)

Por gerações, moradores de uma província da África do Sul ganharam a vida cultivando cannabis. Agora, à medida que o país avança na direção da legalização da maconha, esses pequenos produtores poderiam ter vantagens no horizonte. Mas não é bem assim que as coisas vêm acontecendo.

A viagem de Umthatha até a vila de Dikidikini, na província do Cabo Oriental, na África do Sul, é uma jornada pitoresca repleta de vistas infinitas, propriedades isoladas e estradas sinuosas que cortam colinas verdes ondulantes que podem ser facilmente confundidas com campos de milho – mas não são.

“Isso é maconha”, diz meu guia local e ativista da cannabis Greek Zueni. “Todo mundo aqui cultiva. É assim que eles ganham a vida.”

A cannabis, coloquialmente conhecida como “umthunzi wez’nkukhu”, ou “sombra de galinha”, é uma parte intrínseca de muitas comunidades rurais em Pondoland do Cabo Oriental e uma fonte vital de renda.

Pequenos cultivadores de cannabis dizem ter sido prejudicados com nova legislação da África do Sul — Foto: BBC
Pequenos cultivadores de cannabis dizem ter sido prejudicados com nova legislação da África do Sul — Foto: BBC

Em um conjunto de casas perto da margem do rio, encontramos alguns homens, mulheres e crianças cuidando de uma nova colheita. As mãos deles estão manchadas de verde por arrancarem as flores de maconha o dia todo.

O cheiro pungente de cannabis paira pesado no ar. Eles fazem piadas enquanto trabalham — a colheita é um esforço em grupo. Uma pilha enorme de plantas verdes está ao lado deles, secando ao sol do meio-dia.

Para a integrante da comunidade Nontobeko, que pediu para omitir seu nome verdadeiro, cultivar cannabis é tudo o que ela sabe fazer. “Aprendi a cultivá-la aos 8 anos de idade”, diz ela com orgulho.

“A cannabis é muito importante para nós porque é nosso meio de vida e fonte de renda. Tudo o que conseguimos é por meio da venda de cannabis. Não há empregos, nossos filhos estão sentados aqui conosco.”

Ativistas comemoram decisão do Tribunal Constitucional de Johanesburgo de legalizar o uso pessoal da maconha na África do Sul — Foto: WIKUS DE WET / AFP
Ativistas comemoram decisão do Tribunal Constitucional de Johanesburgo de legalizar o uso pessoal da maconha na África do Sul — Foto: WIKUS DE WET / AFP

Embora a cannabis possa ser um modo de vida para essa comunidade, cultivá-la nessa escala é ilegal.

Existem mais de 900 mil pequenos agricultores nas províncias de Cabo Oriental e KwaZulu-Natal que cultivam cannabis há gerações.

Esses plantadores estavam muitas vezes contra a lei, mas a postura dura do governo em relação à cannabis parece prestes a mudar.

Tudo começou com uma decisão judicial histórica em 2018 que descriminalizou o uso privado, posse e cultivo de cannabis.

Grego Zueni diz que o governo precisa fazer mais para apoiar pequenos agricultores de cannabis — Foto: BBC
Grego Zueni diz que o governo precisa fazer mais para apoiar pequenos agricultores de cannabis — Foto: BBC

No início deste ano, durante seu discurso sobre o Estado da Nação, o presidente Cyril Ramaphosa disse que a África do Sul deveria explorar a indústria multibilionária global de cânhamo e cannabis, que ele disse ter potencial para criar 130 mil empregos muito necessários.

Homem fuma maconha durante protesto na Cidade do Cabo, África do Sul — Foto: RODGER BOSCH/AFP
Homem fuma maconha durante protesto na Cidade do Cabo, África do Sul — Foto: RODGER BOSCH/AFP

Embora isso possa ser uma boa notícia para as empresas comerciais, os produtores tradicionais de Cabo Oriental se sentem deixados para trás. O custo de obter uma licença para cultivar cannabis é muito caro para muitos.

“O governo precisa mudar sua abordagem e criar leis que sejam favoráveis ​​aos produtores e aos cidadãos. Neste momento, as pessoas que têm licenças (para cultivar cannabis) são ricas”, diz Zueni.

“Deveriam estar ajudando as comunidades a crescer para que possam competir com o mercado mundial. Aqui temos uma commodity crescendo tão fácil e organicamente. Não temos inveja, os ricos também devem entrar, mas, por favor, acomode os mais pobres”, diz Zueni.

Fazendo vista grossa

No ano passado, o governo divulgou um plano central para a industrialização e comercialização da planta de cannabis. Ela valoriza a indústria local, que tem operado em grande parte nas sombras, em quase US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões).

O governo está buscando tornar a indústria de cannabis da África do Sul globalmente competitiva e produzir produtos de cannabis para o mercado internacional e doméstico.

A instalação da Sweetwater Aquaponics tem uma grande capacidade para a produção de cannabis — Foto: BBC
A instalação da Sweetwater Aquaponics tem uma grande capacidade para a produção de cannabis — Foto: BBC

A chave para o lançamento é a Lei de Cannabis para Fins Privados, que deve ser assinada durante o ano fiscal de 2022-23, que fornece diretrizes e regras para consumidores e para aqueles que desejam cultivar cannabis em suas próprias casas.

A lei prevê a legalização do cultivo de cânhamo e cannabis para fins medicinais, abrindo assim a indústria para investimentos e crescimento sérios. Espera-se também que esclareça as áreas legais ainda obscuras e, assim, forneça aos potenciais investidores clareza sobre o futuro do mercado sul-africano de cannabis.

Embora muito ainda não esteja claro, parece que o governo está comprometido em abrir o setor, porque as oportunidades econômicas são atraentes demais para serem ignoradas. Os planos têm amplo apoio público, com poucas vozes discordantes.

Embora a estrutura legal ainda esteja tentando acompanhar um mercado em rápida evolução, muitas empresas estão avançando na expectativa de que a lei termine por abrir o setor.

Tal como está, embora o uso privado tenha sido descriminalizado, ainda é ilegal comprar e vender cannabis e vários produtos derivados da planta.

No entanto, a julgar pela proliferação de lojas que vendem produtos de cannabis em todo o país, as autoridades já estão fazendo “vista grossa” para esse tipo de comércio.

Além desse mercado interno, empresas privadas podem cultivar cannabis medicinal com destino à exportação.

‘Oportunidades de distribuição na Europa são grandes’

Uma empresa que está buscando capitalizar a cannabis medicinal é a Labat Africa Group. A empresa listada na Bolsa de Valores de Joanesburgo recentemente adquiriu o produtor de cannabis Eastern Cape Sweetwater Aquaponics.

O diretor da Labat, Herschel Maasdorp, diz que a empresa está passando por um crescimento significativo tanto na Europa quanto na África.

A empresa também foi listada na bolsa em Frankfurt, porque “a Alemanha é o maior mercado da Europa para distribuição de cannabis medicinal”, diz ele.

“As oportunidades de distribuição na Europa são muito grandes. Além disso, é preciso levar em conta outros mercados. Há uma proposta que consolidamos em vários países diferentes, desde Quênia, Zâmbia, Uganda, Ruanda, Tanzânia, assim como no Zimbábue.”

O comércio legal de cannabis no continente deve aumentar para US$ 7 bilhões (R$ 35,7 bilhões), à medida que a regulamentação e as condições do mercado melhorarem, diz o analista da Prohibition Partners, com sede em Londres.

Ele diz que os principais produtores da África até 2023 serão a Nigéria com US$ 3,7 bilhões (R$ 18,9 bilhões), a África do Sul com US$ 1,7 bilhão (R$ 8,7 bilhões), Marrocos com US$ 900 milhões (R$ 4,6 bilhões), Lesoto com US$ 90 milhões (R$ 460 milhões) e Zimbábue com US$ 80 milhões (R$ 409 milhões).

Em seu Relatório Global de Cannabis, a Prohibition Partners prevê um crescimento exponencial da indústria em todo o mundo. “As vendas globais combinadas de CBD, cannabis medicinal e de uso adulto atingiram US$ 37,4 bilhões (R$ 190 bilhões) em 2021 e podem chegar a US$ 105 bilhões (R$ 536 bilhões) até 2026.”

Considerando a economia estagnada da África do Sul e o desemprego recorde, explorar a indústria da cannabis pode trazer grandes recompensas.

Para Wayne Gallow, da Sweetwater Aquaponics, incorporar produtores tradicionais na indústria é crucial para o desenvolvimento econômico no Cabo Oriental.

“O que queríamos alcançar com nossa licença não é apenas cultivar cannabis medicinal, mas usar essa licença para beneficiar todos no Cabo Oriental”, disse ele à BBC.

Ele admite que os produtores mais tradicionais foram deixados para trás, à medida em que a legislação sobre cannabis progredia.

“A área de Pondoland era sinônimo de fornecimento de cannabis em toda a África do Sul”, diz ele.

No entanto, as mudanças na lei tiveram um efeito “prejudicial” sobre os agricultores de Pondoland, porque significa que qualquer pessoa agora pode cultivar e consumir sua própria cannabis, de modo que eles não têm mais mercado para uma cultura anteriormente muito lucrativa.

Mesmo o cultivo de cannabis para exportação para medicamentos não é viável para pequenos agricultores, por causa dos custos exorbitantes. Requer uma licença da Autoridade Reguladora de Produtos de Saúde da África do Sul (SAHPRA), que custa US$ 1.465 (R$ 7.480).

Além da taxa de licença, para montar uma instalação de cannabis medicinal, você precisa de cerca de US$ 182 mil (R$ 930 mil) a US$ 304 mil (R$ 1,5 milhão), o que está além do alcance de muitos produtores tradicionais.

No entanto, há algumas notícias promissoras para os agricultores do Cabo Oriental. A variedade Pondoland ou Landrace da planta, que cresce tão abundantemente na região, mostrou alguns resultados preliminares encorajadores no apoio ao tratamento do câncer de mama.

A Sweetwater Aquaponics e o Conselho de Pesquisa Científica e Industrial (CSIR) estão atualmente realizando um estudo, e os cientistas estão otimistas de que a cepa produzirá bons resultados.

Ainda é cedo, mas se a variedade Pondoland for eficaz, isso pode ser o divisor de águas que os produtores tradicionais estão buscando desesperadamente.

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