“Esses ataques ao Banco Central, do ponto de vista objetivo do que gostaria o presidente, que é baixar a taxa de juros, têm o efeito contrário. Na medida em que ele ataca o Banco Central, cria ruídos e incertezas no mercado. E o que acontece? As expectativas de inflação sobem, o que força o Banco Central a ser um pouco mais duro na sua política monetária do que seria caso o presidente sinalizasse o contrário”, afirmou Meirelles.
Questionado sobre qual seria seu conselho a Lula neste momento, o ex-presidente do BC respondeu: “Deixe o Banco Central trabalhar. É a melhor forma de conseguir que os juros baixem o máximo possível”.
“Quanto mais o Banco Central for visto como capaz de tomar as suas próprias decisões e controlar a inflação, mais caem as expectativas e mais o BC pode cortar a taxa de juros, que é o desejo de todos, inclusive do próprio Banco Central, desde que não cause inflação e seja possível dentro das projeções inflacionárias dos modelos”, prosseguiu Meirelles.
Para o ex-ministro da Fazenda, os recentes episódios da vida pessoal e política de Lula, como o impeachment que afastou Dilma Rousseff (PT) do poder (em 2016) e a prisão do próprio Lula (em 2018), vêm interferindo na postura do presidente da República, que não repete, até aqui, o comportamento que teve em seu primeiro mandato (2003-2006).
“O Lula acha que está num período de fazer aquilo que ele acreditava no passado. É importante mencionar que ele foi candidato em 1989, 1994 e 1998, defendendo linhas desse tipo. O Lula fez uma mudança em 2002, quando lançou a Carta aos Brasileiros, no primeiro mandato. Mas está um pouco numa volta ao passado, às campanhas que ele fez na década de 1990 e, portanto, é algo que é surpreendente, considerando que ele fez um governo que deu certo, mas, por outro lado, dá para entender, pela história toda, o que o está influenciando a essa altura”, diz Meirelles.