A idade das trevas da informação da China pode ser o futuro da Rússia
Funcionários da TV Rain em Moscou, quando a estação se preparava para encerrar as operações em 3 de março de 2022. (Nanna Heitmann/The New York Times)
Quando a Rússia bloqueou o Facebook e limitou o Twitter este mês, muitos internautas chineses ficaram surpresos. Espera aí, disseram eles, os russos podiam usar o Facebook e o Twitter? Ambas as plataformas de mídia social estão banidas na China desde 2009.
Ao bloquear as plataformas on-line, fechar o último vestígio da mídia independente da Rússia e criminalizar a referência aos combates na Ucrânia como uma guerra, o Kremlin tornou quase impossível para o povo russo obter notícias independentes ou internacionais depois da invasão. A maioria está vivendo em uma realidade alternativa.
É exatamente isso que a China tem feito com seus 1,4 bilhão de habitantes há anos. Quase todos os principais sites ocidentais estão bloqueados no país. Uma geração de chineses cresceu em um ambiente de informação muito diferente do resto do mundo. Na maioria das vezes, acredita no que Pequim lhe diz.
Yaqiu Wang, pesquisador da Human Rights Watch em Nova York, escreveu no Twitter sobre a internet censurada da China: “Quando as pessoas me perguntam como é o ambiente de informação dentro do Grande Firewall, digo: ‘Imagine que o país inteiro é um QAnon gigante.'”
Depois de anos de testes e hesitação, a Rússia está caminhando para uma censura mais dura na internet, semelhante ao Grande Firewall da China, para controlar melhor sua população. A idade das trevas da informação da China pode ser o futuro da Rússia. “O que são as trevas? Você não pode falar a verdade e não está autorizado a vê-la”, definiu um usuário na plataforma de mídia social chinesa Weibo.
Os dois países tendem a aprender o pior um com o outro. Tanto os russos quanto os chineses foram profundamente marcados por épocas desastrosas sob o comunismo, que produziu tiranos como Iósif Stálin e Mao Tsé-Tung, gulags, campos de trabalho e ondas de fome criadas pelo homem que mataram milhões de pessoas. Agora, a Rússia está aprendendo com a China como exercer controle sobre seu povo na era das mídias sociais.
A crise da Ucrânia só acelerou um processo que começou anos antes. No fim de 2015, a China e a Rússia assinaram um acordo estratégico de cooperação sobre governança da internet. Alguns meses depois, dois dos maiores defensores da censura da China viajaram a Moscou para pregar suas ideias sobre a internet a seus homólogos russos. “A liberdade ilimitada pode levar ao terrorismo”, disse o czar da internet chinesa na época, Lu Wei, à sua audiência russa em um fórum. “Se existem fronteiras, elas também existem no ciberespaço”, afirmou Fang Binxing, conhecido como o “pai do Grande Firewall”.
A China nem sempre foi tão rigorosamente controlada como se tornou sob seu principal líder, Xi Jinping. Nas décadas de 1990 e 2000, jornalistas investigativos publicaram muitas matérias que levaram à queda de integrantes do governo e a reformas do Judiciário. A internet e as mídias sociais permitiram que o público trocasse ideias, debatesse temas importantes e pressionasse o governo a responder às suas preocupações.
Havia censura – às vezes muito rigorosa – e algumas pessoas foram para a cadeia por expressar suas opiniões políticas. Mas existia um pouco de espaço para a liberdade de expressão, como na Rússia durante grande parte do governo do presidente Vladimir Putin.
Então, sob Xi, uma nova era de controle foi iniciada, e não se restringiu à mídia e às redes sociais. Chegou a tudo que toca a mente humana: livros e desenhos animados, filmes e televisão, música e salas de aula.
O país regula os livros didáticos que as crianças usam, os romances e escritores que se podem publicar e os jogos para celular que podem ser baixados. E tudo isso é exequível porque a grande maioria dos chineses vive na enorme bolha de informação dentro do Grande Firewall.
Os efeitos são claramente demonstrados no sentimento on-line esmagadoramente pró-Rússia, pró-guerra e pró-Putin na China depois da invasão da Ucrânia em fevereiro. Um grande número de internautas chineses comprou a desinformação que as máquinas de propaganda dos dois países produzem.
O Weibo, plataforma chinesa semelhante ao Twitter, costumava ser o lugar para debater democracia e liberdade. Agora, os maiores influenciadores do Weibo são os meios de comunicação estatais como o “People’s Daily”, o “Global Times” e a China Central Television. O Bilibili, site de vídeos feitos por usuários que costumava ser popular entre jovens gamers e fãs de quadrinhos e animes, agora está cheio de jovens nacionalistas conhecidos como “pequenos rosados”.
É preciso muita perseverança para que alguém com pensamentos independentes se mantenha no Weibo. Um estudioso de direito que conheço tinha criado 343 contas na plataforma de 2009 a 2014, e viu a exclusão de cada uma delas. Alguns sobreviveram apenas alguns minutos. Muitas pessoas abandonaram as redes sociais porque não suportavam os abusos cometidos por trolls do governo e pequenos rosados. Também não querem correr o risco de prisão por causa de uma postagem.
A mídia sofreu um recuo ainda maior. Depois que um enorme terremoto atingiu a província de Sichuan em maio de 2008, muitos meios de comunicação chineses enviaram jornalistas para lá, apesar da proibição do Departamento Central de Propaganda. Sua cobertura poderosa e emocional informou a nação da tragédia e levantou questões sobre a qualidade de muitos prédios escolares. Esse tipo de reportagem deixou de existir há muito tempo. Quando as coisas acontecem, o público chinês não tem escolha a não ser aceitar a versão da verdade do governo.
Em janeiro, quando a administração da cidade de Xi’an, no noroeste do país, impôs um bloqueio rigoroso que criou caos e crises não vistas desde Wuhan há dois anos, poucos meios de comunicação enviaram jornalistas para a cobertura. A única reportagem significativa que o público chinês recebeu foi um post em primeira pessoa escrito por uma ex-jornalista investigativa conhecida por seu pseudônimo, Jiang Xue.
Algumas semanas depois, quando o público ficou indignado com um vídeo que mostrava uma mulher acorrentada em um casebre sem porta, muitas perguntas surgiram, incluindo se ela era vítima de tráfico humano. Nenhum jornalista foi capaz de conduzir uma investigação independente. Embora o governo tenha emitido cinco declarações sobre o caso, muitas pessoas continuam céticas e estão preocupadas com a possibilidade de nunca saberem a verdadeira identidade dela.
Os censores do Estado examinam livros, vídeos, filmes, séries de TV e qualquer conteúdo criativo antes que chegue ao público. O objetivo é garantir que todos, especialmente a geração jovem, compartilhem os mesmos valores. Um conhecido intelectual chinês escreveu três livros que talvez nunca sejam publicados. Outro famoso estudioso escreveu cinco livros sem esperança de passar pelos censores. Na TV chinesa, cantores de hip-hop e jogadores de futebol usam mangas compridas ou maquiagem para cobrir suas tatuagens, e brincos masculinos são ocultados para que não se tornem uma “má influência” para os jovens.
A China ainda quer oferecer algum conteúdo de entretenimento ocidental, mas apenas em formato higienizado. Na sitcom “Friends”, Ross nunca explicou aos pais que havia se separado da esposa porque ela era lésbica e vivia com outra mulher. “Bohemian Rhapsody”, sobre a banda Queen, não mostrou cenas envolvendo homossexualidade. Os censores chineses colocaram um vestido preto no corpo nu da heroína em “A Forma da Água”.
Mas talvez o aspecto mais deprimente da idade das trevas da informação seja a amnésia coletiva. Os jovens censores são tão ignorantes sobre a história proibida da China que precisam ter aulas antes de começar a trabalhar. Caso contrário, nem sequer saberão procurar referências à repressão aos protestos pró-democracia na Praça da Paz Celestial em 1989, ou ao dissidente e ganhador do Prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo.
Para muitos usuários on-line chineses, o Grande Firewall é visto como necessário para afastar as informações e a imposição ideológica do Ocidente. E, depois que o Kremlin fez o mesmo este mês, banindo vários sites estrangeiros, muitos na China aplaudiram a decisão. “É muito importante construir o Grande Firewall. A ideologia também é uma frente de batalha”, escreveu o usuário do Weibo @icebear_Like.
c. 2022 The New York Times Company