CHURRASCO BOLSONARO

Presidente Jair Bolsonaro comeu churrasco com farofa em uma barraca de rua, em Brasília. Foto: Reprodução/Print de vídeo publicado nas redes sociais

Extrapola em muito a hipótese de ‘ato falho’ a recente encenação do presidente brasileiro comendo farofa pelos cotovelos, com assessoria luxuosa dos seus digital influencers familiares.

A peça de vídeo bufona reforçaria empatia e laços de identificação entre o Chefe do Executivo e a simplicidade do povo farofeiro. Como sempre, na política e na sociedade, por ‘povo’ entenda-se os pobres, que os ‘bem-nascidos’ imaginam serem estúpidos.

No início dos anos 1980, Dom Helder Câmara fez uma palestra, no auditório de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco. Naquela época, o noticiário anunciava uma sub-raça humana, surgindo da fome do Sertão.

Dom Helder, com a clareza e lucidez habituais, reagiu ao boato: “Perante Deus, todas as pessoas são iguais”. Não foi proselitismo religioso, mas sim um manifesto político que permanece atual no Brasil. Dizia ali que não cabe classificação de sub-raças aos que são submetidos a subcondições de vida por subgovernantes.

A nomenclatura depreciativa, tão vasta quanto antiga, é repleta de expressões. Uma delas é o “voto de cabresto” insinuando que o povo vota sob rédeas, como os burros. Outra expressão conhecida é o “curral eleitoral”, naturalizando a ideia de que o povo é gado dos políticos.

A distração acadêmica também permite definições ofensivas (como miseráveis) e eufemismos (como invisíveis) para classificar as vítimas da desigualdade social intencional.

Cabe esclarecer que miseráveis, em melhor sentido, são aqueles que promovem a miséria, assim como os excluídos só são invisíveis aos cegos que os ignoram.

Vale relembrar aqui os clichês eleitorais, como alguns candidatos montados em jegues e outros usando chapéus de vaqueiro, que são os clássicos das campanhas políticas nordestinas.

Mais ao sul, são famosos os cafezinhos e pastéis nos botecos e, o campeão da simplicidade popular, que é o abraço na Dona Maria (sem esquecer o tradicional beijo nas criancinhas).

Contudo, ao contrário da imagem de inferioridade que se pretende cristalizar como identidade coletiva da parcela mais pobre da população, o povo toma suas decisões racionalmente, com base nas suas necessidades objetivas e concretas do dia a dia.

A experiência marqueteira tem demonstrado que, de qualquer maneira, a pessoa acaba votando na alternativa que melhor lhe pareça ser capaz de resolver seus problemas reais e imediatos.

No cenário confuso, muitas vezes é difícil reconhecer as promessas sinceras e as propostas sérias. Porém, parodiando a economia, o eleitor (principalmente ‘o povo’), tende a maximizar utilidades. Ou seja, vota buscando racionalmente o melhor resultado para si com o menor custo possível.

Para as pessoas pobres, parece pesar mais a saúde, o emprego e a segurança, nem sempre nessa ordem. Em um dia a dia marcado pela violência (como nas comunidades urbanas) e pela exclusão econômica (como no semiárido), ou ainda pelo isolamento (como na Amazônia), mais vale votar no político que lhe garanta um ganho material real.

Na ausência do Estado e omissão da elite, o eleitor vota com pragmatismo no candidato que lhe dá dinheiro vivo na boca de urna, que lhe oferece proteção física, ou lhe permite garimpar ouro.

São decisões racionais e inteligentes, considerando suas circunstâncias, os níveis de educação, inclusão econômica e organização social disponíveis. A qualidade das decisões aumenta sempre que as condições do ambiente melhoram, causando surpresas nos caudilhos e avanços sociais.

Seja como for, na Suécia, no Cariri, na Somália ou no Alto Rio Negro, as pessoas (mesmo na pobreza) não se contentam nem amansam com cabresto, curral ou farofa.

Felipe Sampaio é cofundador e colaborador do Centro Soberania e Clima (CSC) e ex-secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife (2019-2020);

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