A resiliência do “keynesianismo” (por Antônio Carlos de Medeiros)

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A ortodoxia econômica estimula o capitalismo financeiro e o rentismo, aumenta as desigualdades e provoca o colapso dos serviços públicos

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keynesianismo INFLAÇAO NB

A inflação voltou a assombrar o Brasil, passando de 10%. O Banco Central aplicou o remédio amargo dos juros de 10,75%, que podem chegar a 12,25%. Inflação também nos Estados Unidos e na Europa. É a inflação estrutural, do choque de oferta da pandemia e do desemprego estrutural. Pode ser que o remédio não resolva e agrave a doença do paciente: mais desemprego e desigualdade.

Isso chama a atenção do Ocidente para as limitações dos remédios monetaristas. Os economistas e os políticos voltam a olhar para o keynesianismo. E ver que os paradigmas teóricos das políticas econômicas precisam mudar, pois o capitalismo mudou para a era dos monopólios digitais, que vêm junto ao desemprego estrutural e as desigualdades. O debate está em curso, para além da dimensão da teoria econômica stricto sensu. Inclui, também, as dimensões política, social e filosófica.

Enquanto isso, Zachary D. Carter publicou em 2020 uma biografia seminal de Keynes: The Price of Peace – Money, Democracy and The Life of John Maynard Keynes. Carter destrincha a vida e a obra de Keynes, desde o início do século 19, em Cambridge, Inglaterra. Mostra que a obra, culminando com a sua teoria geral, é muito mais do que só economia. “É uma obra-prima do pensamento social e político, na tradição dos legados de Aristóteles, Thomas Hobbes, Edmund Burke e Karl Marx. É uma teoria da democracia e do poder, da psicologia e das mudanças históricas”. A teoria geral mostra que o problema central da economia moderna é a desigualdade. E que a prosperidade precisa ser orquestrada e sustentada por liderança política (do Estado).

O obituário de Keynes, feito pelo Times na época, o retratava como o maior economista “desde Adam Smith”, e como um pensador que mudou paradigmas, com uma obra econômica que fundiu psicologia, história e teoria política, “observando experiências financeiras e monetárias reais, como nenhum economista tinha feito antes”. Ou seja, Keynes também analisou as relações entre a expansão da base monetária e a inflação.

O pensamento econômico de Keynes vai muito além da “fórmula” defendida por ele: gastos públicos voltados para investimentos em geração de renda e emprego e em saúde, como no “New Deal” de Roosevelt. É mais do que uma “fórmula”. É uma constatação da imanência de incertezas sociais e políticas – e do (consequente) equilíbrio econômico instável nas sociedades, com propensão às desigualdades. Essas características estruturais requerem liderança política para orquestrar a prosperidade, a democracia e a paz.

Mais de cem anos depois do Acordo de Paris do pós-Primeira Guerra Mundial, para o qual Keynes contribuiu muito, o keynesianismo está mais uma vez de volta, como no New Deal e na crise de 2008. Outra vez, ele aponta as limitações do pensamento econômico convencional.

A teoria monetária hegemônica defende a contenção do poder financeiro do Estado e alerta para um risco de crise fiscal e colapso econômico. Essa ortodoxia era refutada por Keynes, para quem o investimento, crucial para o desenvolvimento e o combate às desigualdades, requer o otimismo e o estímulo ao “espírito animal” dos empresários – que, por sua vez, requerem liderança política para ancorar expectativas.

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