Aprovado em 1º lugar para medicina em federal escolhe estudar música

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Paulo Arnaldo durante 12º Curso de Masterclasses para Jovens Pianistas no Instituto Chopin, em Varsóvia - Arquivo pessoal - 17.ago.25

“Não dá para ser só um hobby?” foi uma das perguntas que Paulo Arnaldo, 18, ouviu ao falar sobre o futuro. Primeiro colocado no curso de medicina da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), no interior de São Paulo, ele não pretende se matricular. Desde o início da preparação para o vestibular, diz que tinha em mente apenas um destino: o bacharelado em música, com habilitação em instrumento de teclado (piano), na USP.

Medicina não era nem o plano B. A aprovação ocorreu de forma circunstancial, conta. O resultado da Fuvest foi divulgado no último dia do Sisu e, já aprovado em música, Paulo decidiu usar a nota do Enem para testar até onde conseguiria chegar na seleção para medicina. Acabou surpreendido com o primeiro lugar na UFSCar. “Fiquei muito feliz. É uma recompensa pelo esforço. Embora não seja um curso que eu tenha interesse em fazer, é muito concorrido e o resultado é importante”, afirmou.

Para Paulo, a decisão passa por vocação. Ele afirma que seguir uma carreira sem interesse real compromete tanto o desempenho profissional quanto a realização pessoal. “Se a pessoa não tem vontade de ser médica, dificilmente vai se realizar ou ser um bom profissional”, diz.

Filho de músicos amadores, Paulo nasceu em São José do Rio Preto (SP) e teve contato com a música desde cedo. A mãe cantava, sem atuação profissional, e o pai tocava teclado em bandas antes de se tornar procurador. Ele foi alfabetizado quase simultaneamente na escrita e na linguagem musical. Começou no violino aos três anos, passou pelo saxofone e encontrou no piano uma vocação mais recente.

O interesse pelo instrumento cresceu em 2020, durante a pandemia. Segundo ele, o piano oferecia algo que outros instrumentos não proporcionavam. “É mais independente”, afirma. Enquanto o violino depende de grupos ou orquestras, o piano permite um repertório solo mais amplo.

Desde que decidiu seguir a música, Paulo passou a conciliar a rotina escolar com quatro a sete horas diárias de estudo do instrumento. Não frequentou cursinho. Para garantir tempo para a prática, concentrava as tarefas escolares no período em que estava no colégio e reservava as noites ao piano e à teoria musical.

Aluno do Colégio Agostiniano São José, desde a infância é descrito pela escola como centrado, quieto e atento. Sempre obteve notas altas e conquistou medalhas de ouro, prata e bronze em olimpíadas acadêmicas.

Segundo ele, esse percurso de estudo contínuo contribuiu para o desempenho no vestibular. “É um trabalho de longo prazo. Sempre busquei desafios, como as olimpíadas”, afirmou. A prática musical também teve papel no controle emocional. “A performance ensina a lidar com pressão e ansiedade. Ter enfrentado o palco ajuda na hora da prova.”

Ao perceberem a dedicação do filho, os pais passaram a apoiá-lo integralmente, levando-o a aulas em São Paulo e a concursos. Antes mesmo de ingressar na universidade, o estudante já se apresentava em público. Com apoio cultural do colégio, fez recitais no Teatro Municipal de São José do Rio Preto e participou de competições em cidades como Cabo Frio (RJ), Curitiba, Guarulhos e municípios de Minas Gerais.

Ele também participou do 12º Curso de Masterclasses para Jovens Pianistas, em Varsóvia, na Polônia, organizado pelo Instituto Chopin, onde teve aulas com professores internacionais. A experiência teve significado especial. Frédéric Chopin é seu compositor favorito, e foi a “Barcarola”, uma das últimas grandes obras do músico polonês, a peça escolhida por Paulo para a prova de habilidades específicas da USP.

Durante a viagem, visitou a casa onde Chopin nasceu e o museu dedicado ao compositor. Segundo ele, a escolha da obra se deu pela afinidade com o repertório e pelo estudo prévio, aprofundado ao longo dos últimos anos.

Além da USP, o estudante também foi aprovado no curso de música da Unesp, na habilitação em instrumento (teclados: piano e órgão tubular), mas optou pelo curso na capital paulista após conhecer professores do curso e se identificar com a abordagem acadêmica e pedagógica.

Paulo reconhece que a preocupação externa sobre “viver de música” é recorrente, mas diz se apoiar em exemplos concretos. “Tenho referências de pessoas que conseguiram e vivem bem disso. Hoje vejo que trilharam um caminho possível”, afirma.

Para o futuro, ele não se vê apenas nos palcos. Pretende conciliar a atuação como pianista com a docência e planeja uma especialização no exterior. “Quero equilibrar a vida profissional como músico com a de professor”, disse.

por Folha de S.Paulo

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