Assis Chateaubriand: como um paraibano de Umbuzeiro formalizou o interesse nacional pela artes plásticas
Retrato de Assis Chateaubriand, 1971, por Flávio de Carvalho — Foto: Acervo/MASP
Por Lara Brito
Quando saiu da Paraíba, Assis Chateaubriand tinha em torno de 10 anos e não imaginaria que seu futuro seria o de um dos homens mais influentes do país. Jornalista de profissão, ele trouxe a televisão para o Brasil e fundou o Diários Associados, que incluía diversos jornais, emissoras de rádio, estações de televisão e revistas – o maior conglomerado de imprensa que a comunicação brasileira já viu.
Foi também em uma sala na sede dos Diários Associados que em 7 de abril de 1947 começou a funcionar o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP).
Neste 4 de abril são 55 anos sem o magnata e ainda não é possível falar de arte moderna brasileira sem a presença de um certo paraibano de Umbuzeiro.

Modernização da cultura brasileira
Como empresário da comunicação, Chateaubriand foi responsável por criar e expandir veículos de comunicação de grande alcance, como a revista O Cruzeiro e a TV Tupi (primeira emissora da América Latina), que divulgavam a arte e a cultura brasileira para todo o país. No Diário de São Paulo, fez o periódico matutino Suplemento, um caderno direcionado para o universo das artes.
Segundo a cientista social, historiadora e curadora de artes plásticas, Vanda Klabin, Chatô foi decisivo pela modernização dos diversos setores da cultura.
Ela explica que coleções privadas e a dinâmica da política de aquisições de arte para formar um acervo é algo muito novo no Brasil. A atividade do colecionador brasileiro sempre foi assistemática e desenvolvida em um período onde praticamente inexistiam as galerias de arte.
Vanda afirma que a Semana da Arte Moderna, em 1922, apesar de restrita, tornou-se uma referência histórica de renovação da arte brasileira e Chatô foi um de seus principais incentivadores. Ficou tão inspirado que, por volta de 1927, o magnata começa a falar em um lugar “para formar o interesse de nossa gente pelas artes plásticas”.
“A questão da modernidade representou o primeiro esforço de afirmação de uma tomada de consciência da realidade nacional, de uma brasilidade e de novas efervescências culturais”, explica Vanda.
Apesar do ímpeto, Chatô só passaria a compor sua coleção – que mais tarde foi doada para o que seria um dos maiores museus da América Latina – na década de 40 quando conheceu o marchand Pietro Maria Bardi e a arquiteta Lina Bo Bardi.

Os anos 40 foram marcados por diversas instabilidades e novidades. A Europa se reconstruiu após a Segunda Guerra Mundial e no Brasil, o término do governo Getúlio Vargas trazia impulsos para garantir a existência de um mercado interno.
E, conforme Vanda, é aí que a arte passa a ser encarada como uma parte integrante da consciência nacional: “abrindo-se espaço para a construção de um novo cosmopolitismo e de uma ampla renovação estética”, conforme a curadora.
Nessa época, a arte era comercializada de uma forma bem diferente. Os ricos se reuniam em jantares chiques, em grandes leilões e Chatô se juntava com Frederico Barata, Rodolpho Bernadelli e Eliseu Visconti – que possuía um ateliê no Rio de Janeiro, para garantir algumas obras.

Quando o casal Bardi, recém-chegado da Itália, organizou três exposições no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, com as obras de arte antiga e arte moderna que trouxeram em um navio, Chatô se encantou.
A Europa estava estraçalhada pela guerra, ocasionado uma derrubada dos preços de compra e venda de obras de arte. Pietro Bardi passa a então não só ser amigo do magnata da comunicação, mas também orientar as novas aquisições que seriam expostas no que viria a ser o Museu de Arte de São Paulo.

E a cidade precisava de um museu. Segundo a curadora coordenadora do MASP, Regina Teixeira de Barros, uma série de fatores aconteceram concomitantemente promovendo uma verdadeira “caça ao tesouro” em São Paulo.
O fato de todo o conglomerado de Chateaubriand ter tido um crescimento pomposo na segunda metade dos anos 40 significava que ele tinha muito capital para investir. Por outro lado, existia a necessidade explicita de modernização de São Paulo. E isso se expressava na arte.
Nesta época, a grande maioria dos museus do Brasil eram voltados para a arte do século 19, como a Pinacoteca de São Paulo.
“O Brasil enriquecido. Essa vontade de fazer de São Paulo uma metrópole moderna. O Chateaubriand com muito dinheiro na mão, muitas possibilidades financeiras e com os jornais para ajudar muito. A chegada dos Bardi. E tudo que ele fazia tinha grande repercussão, então também conseguiu muitos doadores… foi uma aliança bem sucedida”, explica Regina.
Pietro Bardi, além de amigo, tornou-se a mão direita de Chateubriand no mundo da arte. Dirigiu o museu por 45 anos, na sede projetada por Lina Bardi.

Depois da fundação, o museu passa a ser um verdadeiro marco no Brasil. Paralelamente à exposição de pinturas e esculturas, Bardi preparava “exposições didáticas”, com uma linha do tempo da história da arte que contribuiu para a formação de diversos artistas brasileiros.
Além disso, apostavam em coisas totalmente novas como aulas e exposições de moda, design industrial, design gráfico – coisas que estavam bem desenvolvidas lá fora, mas ainda não exploradas no Brasil.
“E eles tinham um interesse por história da arte de forma geral, mas também pela cultura popular. Isso diminuía a hierarquia entre as coisas. O Masp foi o primeiro a expor artistas ditos populares; sem formação. Tiveram também exposições de artefatos populares, tentando mostrar que a arte faz parte do nosso cotidiano. E isso me parece que foi a construção de um trio, do Chateaubriand e do casal Bardi”, explica Regina.
Com uma postura de valorização da produção artística brasileira, o legado da empreitada é de extrema importância para a arte brasileira, ajudando a consolidar o reconhecimento da arte moderna e contemporânea e contribuindo para a formação de uma identidade artística nacional.

Interiorização da arte
Apesar de ser homem cosmopolita e internacionalizado, nunca deixou de demonstrar seu amor pela Paraíba, sua cidade natal, e pelas raízes nordestinas.
Além de ser eleito senador por seu estado, depois do Masp Chatô aprofundou ainda mais seu interesse pela arte popular e promoveu a campanha de interiorização dos museus, doando várias obras para a Fundação de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (Furne).
Esse acervo Museu Pedro Américo, que posteriormente virou o atual Museu de Arte Assis Chateaubriand (MAAC), era composto de obras de renomados artistas nacionais e internacionais, incluindo Portinari, Pedro Américo, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e outros grandes nomes – algo que a população nordestina nunca tinha visto no interior da região.

O MAAC foi fundado em 1967 através da Campanha Nacional dos Museus Regionais, idealizada por Chatô, que também inaugurou e financiou na mesma década o Museu de Dona Beja em Araxá (MG), o Museu de Arte Contemporânea de Olinda (PE), o Museu de Arte de Feira de Santana (BA), a Pinacoteca Rubem Berta em Porto Alegre (RS) e a Galeria Brasiliana em Belo Horizonte (MG).
“A importância do museu para a cidade, estado e região é inquestionável por permitir a esta sociedade ter acesso a obras de renomados artistas que antes só estavam disponível nos grandes centros como Rio e São Paulo”, disse o diretor da Furne, Carlos Alan Peres.
Um legado moderno e arrojado
A relação de Assis Chateaubriand com sua família, principalmente com seus três filhos, Gilberto, Fernando e Thereza, era peculiar.
Autoritário e machista, ele não admitia ser contrariado. “Com meu avô era assim; você tinha de fazer o que ele pedisse, o que ele quisesse que fosse feito. Se você obedecesse, tinha tudo, o céu e a terra”, disse o neto, Jorge Alkmim, filho de Thereza.

Apesar disso, o neto remonta a história do avô como um homem muito inteligente e sensível. Um tremendo corajoso e um constante animado diante a vida, que não parava um dia só. Além disso, exaltava a cultura nordestina muito antes desse movimento ser nacionalmente exaltado, conhecido e vendido.
“Meu avô era, acima de tudo, um paraibano com muito orgulho de sua terra natal. Impressionante e tocante o seu amor tanto pelo estado e sua cidade natal. Apesar de ter se tornado um homem tão cosmopolita, tão internacionalizado, ele nunca deixou de exteriorizar suas raízes e o seu apreço à cultura da região de onde ele era oriundo. E era impressionante o seu apego, seu notório interesse pelas artes plásticas em geral”, destaca o neto.
O grande interesse pelas artes plásticas influenciou bastante a família Chateaubriand, que continuou o legado.
Sua coleção particular foi presenteada em vida para sua filha Thereza e seu genro Leonardo Alkmin, pai de Jorge Alkmin, e conta com obras de artistas como Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Guignard, Edgard Maxence, John Piper e desenhos de Pablo Picasso.
Vanda Klabin – que foi grande amiga de outro filho de Chatô, um dos maiores colecionadores de arte do país, Gilberto Chateaubriand – afirma que a coleção do amigo é uma referência cultural na esfera da produção artística brasileira pois documentam a vida artística da arte contemporânea e traz legitimação para as vanguardas.

Dessa forma, mesmo com conflitos e divergências, Gilberto reconstitui a história da coleção e a cronologia de suas aquisições do pai:
“Estão presentes, no seu universo de descobertas, os momentos de fermentação e de renovação das linguagens artísticas. Suas rotas estéticas, que demonstram múltiplos acordos afetivos e com irradiações para numerosos movimentos artísticos, nortearam muitas outras coleções, através de seu olhar abrangente, plural e diversificado”, afirma Vanda.

O artista Paulo Pasta conhece bem a importância da pluralidade e popularização das artes visuais. Para ele, conviver com uma coleção de arte que representasse e trouxesse a dimensão da arte europeia e internacional para a América do Sul foi a inspiração pare ele mesmo começar a se entender como artista.
Ter um acervo deste tamanho e maestria é para ele, como dizia o Mário de Andrade, “berrar nos desertos da América!“.
Nascido e criado no interior do estado, quando visitou a capital de São Paulo pela primeira vez, se deparou de fato com a existência da pintura:
“Aquele é seminal e fundador para a minha vocação. Porque uma coisa é ver, olhar reproduções, outra coisa é ver a pintura ao vivo, original. As informações são diferentes, a realidade é diferente, o sentido é diferente. Quando eu olhei pela primeira vez um Van Gogh; um Cezanne, olhei bem e disse ‘nossa como é mal feito’ (risos). Em seguida, eu me dei conta que a reprodução é um pouco esterilizada, deixa a imagem mais pacífica e ao vivo ela é muito diferente. Você fica em contato com a construção do tecido… e isso foi fundamental para mim, essa foi a prova da existência da pintura!“, disse Paulo Pasta.
Velado ao lado das pinturas
Assis Chateaubriand foi acometido por um derrame cerebral em fevereiro de 1960, mas mesmo assim sempre recebeu seus familiares em casa, tanto na Villa Normanda, em Copacabana, como na Casa Amarela, em São Paulo.
Resistiu por longos anos, mas morreu em 4 de abril de 1968, em São Paulo, paraplégico. Foi velado ao lado de duas pinturas – um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir – que simbolizavam, segundo Bardi, as três coisas que ele mais valorizou ao longo de sua vida: o poder, a arte e a mulher pelada.

Seu papel fundamental na difusão e valorização da arte brasileira, contribuindo para o seu reconhecimento nacional e internacional, foi um vetor construtivo que direcionou os rumos da cultura brasileira, de acordo com Vanda Klabin: “Foi um território germinal que marcou o campo das artes no século XX ao facilitar aos artistas e ao público brasileiro o contato direto com o que se fazia de mais novo e mais audacioso no mundo”.
“As suas conquistas foram decisivas para ampliar os horizontes e para o estabelecimento de um novo sistema de arte no Brasil, trazendo um novo DNA para o pensamento do campo cultural, através de criação de novos museus e instituições dedicados à arte e seus acervos”, ressalta Vanda.

Homem corajoso e animado, trouxe riqueza cultural para o Brasil e tornou realidade seu sonho de ser parte fundamental da história da arte brasileira.
“Dele me lembro de uma frase emblemática: ‘Para dormir, teremos a eternidade!’”, finaliza seu neto, Jorge Alkmim.
