Ato inter-religioso do MPF marca etapa de acordo em caso de intolerância religiosa na PB; padre denunciado se recusou a falar
Gilberto Gil participou do ato inter-religioso de forma online, no MPF — Foto: Diogo Pinheiro/TV Cabo Branco
A realização de um ato inter-religioso no Ministério Público Federal (MPF) em João Pessoa, na sexta-feira passada (6), representou o cumprimento de parte do acordo firmado entre o órgão e o padre Danilo César de Sousa Bezerra, denunciado por falas de intolerância religiosa contra Preta Gil. Vários representantes religiosos, além de familiares da artista, como o pai dela, Gilberto Gil, participaram do evento.
Líderes católicos, protestantes, do candomblé e de outras religiões, além da madrasta de Preta Gil, Flora Gil, do próprio Gilberto Gil e do padre Danilo César, estavam no evento, que foi encerrado com uma música da umbanda e um momento de fraternidade entre todos os representantes das mais variadas religiões presentes.
Para o MPF, a simbologia do ato marcou um novo momento de paz na Paraíba. Segundo o órgão, foi a primeira vez que um líder católico se desculpou por intolerância religiosa na Paraíba, cumprindo, assim, parte do acordo estabelecido.
Durante o ato, a procuradora do MPF, Janaína Andrade, afirmou que é preciso dissociar a falsa ideia de que as religiões de matriz africana estão associadas ao mal. Gilberto Gil, pai de Preta Gil, agradeceu pelo “ato de reparação”. O artista disse esperar mais compreensão e menos tolerância da sociedade.
“Que sigamos daqui pra frente com mais compreensão, menos intolerância e melhor futuro nas nossas relações múltiplas, amplas de todos nós como indivíduos e sociedade”, disse Gilberto Gil.
O advogado da família Gil, Vinícius Assumpção, reiterou que a reparação do padre representa uma luta coletiva da sociedade contra o racismo religioso. O padre Danilo César também estava no ato inter-religioso, mas não falou nem concedeu entrevista.
“Uma reparação que vai para muito além da família e do individual e que representa também anseios coletivos de que o racismo religioso não seja praticado de forma impune”, disse o advogado.
Dom Dulcenio Fontes de Matos, bispo da Diocese de Campina Grande, responsável pela paróquia onde o padre proferiu as falas sobre Preta Gil, disse em carta que há “interesse institucional da Diocese em contribuir e colaborar com o diálogo inter-religioso” e que a diocese tem “compromisso com a promoção do respeito mútuo, do diálogo inter-religioso e da convivência pacífica entre as diversas tradições religiosas”.
Além da participação do evento no MPF, o padre ainda precisa seguir várias outras medidas para cumprir o acordo, como o cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa, com certificados válidos, fazer resenhas sobre livros que tratam do combate à intolerância religiosa e pagar uma prestação pecuniária (espécie de multa), estabelecida em R$ 4.863,00, para uma associação de apoio a comunidades afrodescendentes.

Padre se recusou a falar em evento com Gilberto Gil
O padre Danilo César, denunciado por intolerância religiosa por uma fala sobre Preta Gil durante uma homilia em uma missa na cidade de Areial, no Agreste da Paraíba, se recusou a falar durante a participação dele em um ato religioso na sexta-feira (6), na sede do Ministério Público Federal (MPF). Gilberto Gil também esteve presente no ato de forma remota.
No vídeo, retirado diretamente da transmissão oficial do MPF do evento (assista clicando aqui), é possível notar quando uma pessoa da organização se aproxima e entrega o microfone ao padre, que em um primeiro momento pega o objeto na mão mas logo na sequência o entrega de volta, fazendo um sinal em negativa com a cabeça.
É possível notar também pelas imagens que o momento em que o microfone foi entregue na mão dele, ele estava na frente do palco junto de um líder religioso convidado para participar do evento. O padre também não quis conceder entrevista para a imprensa após o ato.
A participação do padre no ato faz parte de um acordo que ele fechou com o MPF para não responder criminalmente pelas falas sobre religiões e Preta Gil durante a missa.
Além dos líderes religiosos, estiveram presentes também no ato Gilberto Gil e Flora Gil, madrasta de Preta. A madrasta, inclusive, falou positivamente da realização do evento.
“A gente está aqui para ouvir o perdão do padre, o padre ter reconhecido a injustiça, acho que é assim que se segue”, disse Flora Gil, madrasta de Preta, durante a reunião.
Já Gilberto Gil qualificou as falas do padre como uma “agressão”, mas ressaltou que a participação dele no ato representa uma “reparação”.
“Nosso agradecimento pelo ato de reparação a essa agressão que foi feita a esse ato de injustiça que foi perpetrada contra nós, toda nossa família, nossos amigos, parentes. Minha satisfação pelo fato de que a reparação está sendo feita, de que o reconhecimento da agressão, da injustiça, está sendo feita”, disse Gil.
Além do próprio padre, de forma presencial, e da família Gil de forma online, houve também a participação no evento de diversas autoridades religiosas, como líderes católicos, protestantes, do candomblé e outras religiões.
Entenda o caso
O fato ocorreu no dia 27 de julho de 2025. Durante a homilia, o padre citou a morte da cantora Preta Gil, nos Estados Unidos, vítima de um câncer colorretal, associando a fé dela em religiões de matriz afro-indígenas a morte e sofrimento.
A missa foi transmitida ao vivo pelo Youtube da paróquia de São José, em Areial. O vídeo foi retirado do ar após a grande repercussão nas redes sociais.
“Eu peço saúde, mas não alcanço saúde, é porque Deus sabe o que faz, ele sabe o que é melhor para você, que a morte é melhor para você. Como é o nome do pai de Preta Gil? Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?”, disse.
As declarações com cunho de intolerância religiosa também aconteceram em relação aos fiéis para os quais o padre estava presidindo a missa. Ele chegou a se referir a religiões de matriz afro-indígenas como “coisas ocultas” e que desejava “que o diabo levasse” quem procurar essa prática.
“E tem católico que pede essas coisas ocultas, eu só queria que o diabo viesse e levasse. No dia seguinte quando acordar lá, acordar com calor no inferno, você não sabe o que vai fazer. Tem gente que não vai aqui (Areial), mas vai em Puxinanã, em Pocinhos, mas eu fico sabendo. Não deixe essa vida não pra você ver o que acontece. A conta que a besta fera cobra é bem baratinha”, disse
A fala foi considerada como preconceituosa pela Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, da região de Areial. O presidente da instituição, Rafael Generiano, fez um boletim de ocorrência contra as falas do padre por intolerância religiosa à época.
O padre Danilo César entrou em acordo com o Ministério Público Federal (MPF) para não responder na criminalmente pela conduta. O acordo foi homologado pela juíza federal Cristiane Mendonça Lage.
Conforme o documento do acordo, o padre assinou um termo de confissão sobre a conduta de intolerância religiosa e que, caso descumpra os termos da não persecução penal, essa confissão vai valer como “valor de prova” em uma eventual reabertura da ação penal contra ele.
Segundo o documento, o padre vai ter que cumprir diversas medidas como requisito da não persecução penal.
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