Bill Gates diz que as mudanças climáticas ‘não levarão ao fim da humanidade’
Bill Gates. Foto: Reprodução
Bill Gates, o cofundador da Microsoft que gastou bilhões de seu próprio dinheiro para alertar sobre os perigos das mudanças climáticas, agora está reagindo ao que ele chama de “perspectiva apocalíptica” e parece ter mudado sua postura sobre os riscos representados por um planeta em aquecimento.
Em um longo memorando divulgado na terça-feira (28), Gates buscou conter o alarmismo que, segundo ele, muitas pessoas usam para descrever os efeitos do aumento das temperaturas. Em vez disso, ele pediu o redirecionamento dos esforços para melhorar a vida nos países em desenvolvimento.
“Embora as mudanças climáticas tenham consequências graves —especialmente para as pessoas nos países mais pobres— elas não levarão à extinção da humanidade”, escreveu ele. “As pessoas poderão viver e prosperar na maioria dos lugares da Terra no futuro próximo.”
Apenas quatro anos após a publicação do livro “Como evitar um desastre climático”, o memorando desta terça parece representar uma grande reformulação da maneira como Gates, cuja fortuna é estimada em US$ 122 bilhões (cerca de R$ 653 bilhões), pensa sobre os desafios impostos por um mundo em rápido aquecimento.
Michael Oppenheimer, professor de geociências e relações internacionais na Universidade de Princeton, disse que Gates estava estabelecendo uma falsa dicotomia “geralmente propagada por céticos do clima” que opõe os esforços para combater as mudanças climáticas à ajuda externa aos pobres.
“Apesar de seus esforços para deixar claro que leva as mudanças climáticas a sério, suas palavras certamente serão mal utilizadas por aqueles que não desejam nada mais do que destruir os esforços para lidar com as mudanças climáticas”, disse Oppenheimer em um e-mail.
O memorando de Gates chega uma semana antes de líderes mundiais se reunirem em Belém, no Brasil, para a cúpula anual do clima das Nações Unidas, conhecida como COP30. Gates, que completou 70 anos os últimos dias e já participou do evento em anos anteriores, não participará desta vez. Ele se recusou a comentar sobre seu memorando.
Na última década, Gates investiu grandes somas de sua fortuna pessoal promovendo políticas que reduzissem os gases de efeito estufa que estão aquecendo perigosamente o planeta.
Ele investiu em empresas que trabalham com energia limpa e em iniciativas para ajudar comunidades pobres a se adaptarem à elevação do nível do mar, ao calor mais extremo, aos incêndios e à seca, além da intensificação de tempestades e inundações.
Em 2015, Gates fundou a Breakthrough Energy, um fundo de capital de risco para apoiar startups promissoras de energia limpa. O fundo cresceu e passou a incluir um grupo de política climática em Washington para promover maneiras de reduzir as emissões.
“As mudanças climáticas já estão afetando a vida da maioria das pessoas e, quando pensamos no impacto sobre nossas famílias e as gerações futuras, podemos sentir um peso enorme”, escreveu ele em um ensaio publicado em 2023 no site da Breakthrough Energy e retirado do ar desde então.
“A escala e a velocidade da transformação necessária para construir um futuro de energia limpa são sem precedentes.”
Em março, a Breakthrough Energy anunciou cortes profundos que incluíram o desmantelamento de seu grupo de política climática.
E em maio, Gates anunciou planos para encerrar a Fundação Gates, que gastou bilhões em questões relacionadas ao clima, incluindo um compromisso de US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 7,4 bilhões) para ajudar agricultores em países pobres a se adaptarem a um planeta mais quente.
Enquanto o governo Trump cortava os orçamentos de ajuda externa e fechava a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, Gates redirecionou grande parte de suas doações de caridade para preencher o vazio deixado pelo governo dos EUA e se concentrar na saúde e na pobreza no mundo em desenvolvimento.
“Ele via a situação da Usaid (Agência dos Estados Unidos que atua com assistência humanitária) como mais urgente e algo em que poderia ser mais eficaz”, disse Johannes Ackva, que lidera o trabalho climático na Founders Pledge, uma organização que aconselha filantropos.
Gates continua investindo em startups de energia limpa por meio de grupos como o programa Breakthrough Energy Catalyst, a Breakthrough Energy Ventures e a Breakthrough Energy Fellows. No memorando, Gates não anunciou nenhuma mudança na estratégia de financiamento de empreendimentos climáticos.
Ele também continua investindo em energia nuclear. Na semana passada, a TerraPower, empresa nuclear que ele apoia, obteve aprovação federal crucial para lançar um novo tipo de reator no mercado.
No memorando, Gates argumentou que o mundo deveria investir em esforços para reduzir o custo da energia limpa e encontrar maneiras de tornar a manufatura, a agricultura e o transporte menos poluentes.
Mas o memorando também buscou redirecionar os esforços da campanha para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e, em vez disso, focar em outras maneiras de melhorar a vida humana e reduzir o sofrimento.
Embora tenha chamado a mudança climática de “um problema muito importante” que precisa ser resolvido, ele disse que “a perspectiva apocalíptica está fazendo com que grande parte da comunidade climática se concentre demais em metas de emissões de curto prazo”. E isso estava “desviando recursos das coisas mais eficazes que deveríamos estar fazendo para melhorar a vida em um mundo em aquecimento”, escreveu ele.
O mundo está aquecendo mais rápido do que em qualquer outro momento da história registrada. O ano passado foi o mais quente já registrado. Cientistas alertam que, a menos que os países abandonem rapidamente a queima de combustíveis fósseis, o planeta provavelmente experimentará condições climáticas extremas e outras mudanças mais rapidamente do que a capacidade de adaptação humana.
Nações insulares de baixa altitude já estão vendo suas terras desaparecerem devido à elevação do nível do mar causada pelo derretimento de geleiras e calotas polares. Estima-se que 62.775 pessoas morreram de calor na Europa no ano passado.
Gates tentou desviar a atenção do foco nas temperaturas, escrevendo no memorando que “a temperatura não é a melhor maneira de medir nosso progresso no clima”.
David Callahan, editor do Inside Philanthropy, disse que Gates pode estar tentando reposicionar o debate sobre as mudanças climáticas durante um momento altamente político, quando os republicanos estão abertamente hostis aos esforços para abordar a questão.
“Pode-se imaginar que isso seja uma continuação do desejo de se mudar para o centro e não querer ser alvo do governo Trump”, disse Callahan.
Deixando a política de lado, Callahan disse que a mudança de mensagem de Gates estava em linha com estudos que mostram que a retórica alarmista sobre as mudanças climáticas não é a maneira mais eficaz de motivar as pessoas a agir. “O resultado de muitas pesquisas é que é muito melhor se inclinar para o otimismo do que para o pessimismo”, disse Callahan.
Muitos cientistas acreditam que o rápido aquecimento do planeta pode provocar uma série de pontos de inflexão irreversíveis, com impactos em cascata. Esses cenários incluem mudanças nas correntes oceânicas, o desaparecimento de camadas de gelo e a morte em massa de recifes de corais.
Gates não abordou nenhum desses cenários no novo memorando, embora já os tenha discutido antes.
“Há pontos em que, quando os corais morrem, eles nunca mais voltam”, disse Gates em 2021.
“Isso está acidificando o oceano, e todos os ecossistemas aquáticos morrem à medida que o nível de acidez aumenta. À medida que as florestas secam, elas ficam sujeitas a incêndios e infestações que matam todas as árvores, resultando em muito menos árvores. À medida que o nível do mar sobe, as praias desaparecem.”