“Bolsonaro era pequeno para o cargo”, diz ideólogo do MAGA de Trump. Veja vídeo
Ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Reuters
Na opinião do engenheiro de software e blogueiro norte-americano Curtis Yarvin, O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), era um homem “pequeno demais para o papel que a história o concedeu”. Engenheiro de formação, Yarvin é ouvido hoje por magnatas do Vale do Silício como Peter Thiel, fundador da Palantir; e pelo vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, dos quais é amigo.
Para Yarvin, a prisão de Bolsonaro após tentar romper a tornozeleira eletrônica com ferro de solda, no fim do mês passado, “tem um elemento de comédia”. “É também uma tragédia, num certo sentido, porque Bolsonaro me parece ser uma pessoa bem-intencionada. Ele era apenas pequeno demais para o papel que a história o concedeu”, diz ele.
Segundo ele, populistas como Jair Bolsonaro têm dificuldade de “viver na realidade”. “Eu acho que a coisa mais importante para os populistas é viver na realidade, não na ilusão. E isso é muito difícil de fazer quando você está em contato com a mentalidade popular, e tentando seguir o que as pessoas pensam”, diz ele.
Eventos como a depredação de prédios públicos em Brasília em 8 de janeiro de 2023 e a invasão do Capitólio nos EUA em 6 de janeiro de 2021 não passaram de “larp” dos seguidores da direita, diz Yarvin — o termo é uma gíria da Geração Z para se referir a interpretar um papel.
“Essas pessoas estavam brincando de Revolução Francesa ou brincando de ‘Tea Party’ ( a ‘festa do chá de Boston’, de 1773). De repente, você está num edifício governamental vazio, se perguntando o que fazer em seguida. E aí você percebe que na verdade não tem como fazer nada”, diz ele.
Yarvin tornou-se conhecido escrevendo sob o pseudônimo Mencius Moldbug. Entre outras coisas, foi o primeiro a usar o termo “red pill” como metáfora política, segundo o perfil dele na revista The New Yorker. Depois, o termo foi apropriado por comunidades misóginas na internet e virou lugar comum na gíria online da anglosfera.
A coluna entrevistou Yarvin por cerca de quarenta minutos na tarde de 29 de novembro deste ano, em São Paulo (SP). Yarvin veio ao Brasil como convidado do congresso anual do Movimento Brasil Livre (MBL).
(Leia ao fim a transcrição integral da conversa, na ordem cronológica em que ocorreu).
Abaixo, alguns dos principais trechos da entrevista.
O que você pensa do MBL e do Partido Missão, que organizaram sua vinda ao Brasil?
Estou bem impressionado. Me parece um movimento bem saudável da Geração Z. Em muitos sentidos, ultrapassa o que temos nos Estados Unidos. Absolutamente. É muito importante essa compreensão que eles têm sobre a necessidade de estarem organizados num partido. Nós, americanos, com frequência esperamos… Tem essa velha frase do (general prussiano Otto von) Bismarck, segundo a qual “Deus protege os idiotas, os bêbados e os Estados Unidos”.
Pela maior parte da história dos Estados Unidos, nós apenas esperamos as coisas acontecerem por conta própria. E aí ficamos levemente surpresos quando coisas ruins começaram a acontecer. Se você quer que as coisas aconteçam, você tem que se organizar. Nesta altura da história, você tem que organizar um movimento de base.
Outra coisa que eu acho que é muito importante nestes nossos tempos é saber caminhar na linha entre o populismo e o elitismo. Você realmente precisa capturar ambas as forças, para criar algo que seja realmente muito bom.
Nós vimos muitos movimentos populistas que basicamente prometiam um novo mundo para os eleitores. Eles diziam, “vote em mim e tudo irá mudar, tudo vai ficar melhor.” Aí as pessoas votavam, e nada acontecia. Isso é porque eles (esses populistas) não souberam montar um governo efetivo, que realmente sabia o que queria. Muitos desses populistas parecem pensar: “bom, o povo vai comandar e eu vou seguir”. Você vê isso com todos os populistas ao redor do mundo na era atual.
Eu acho que isso, bom, é como vocês viram no Brasil. Traz apenas resultados desastrosos, e às vezes até cômicos.
Você acha que foi isso que aconteceu com Bolsonaro? A maioria das pessoas o considera um populista, e a “revolução” dele não terminou bem.
Sim, terminou com ele na cadeia. E o que foi essa coisa de cortar a tornozeleira eletrônica? Tem um elemento de comédia nisso. É também uma tragédia, num certo sentido, porque Bolsonaro me parece ser uma pessoa bem-intencionada. Ele era apenas pequeno demais para o papel que a história o concedeu.
Basicamente, vocês pegaram uma pessoa pequena e o colocaram num papel grande demais (para ele). Essa é a minha impressão do que aconteceu aqui com a “revolução” do Bolsonaro.
Alguns membros da família dele, como o filho Eduardo (Bolsonaro), estavam tentando cortejar o governo Trump para obter algum tipo de apoio político dentro do Brasil. Você acha que isso ainda pode funcionar?
Esse é um assunto para uma diplomacia mais sigilosa. Certamente, parte do governo Trump ficaria feliz em ver Bolsonaro perdoado e fora da cadeia, mas não significa que o apoiem necessariamente enquanto figura política.
Para o Trump, lealdade é muito importante. Por isso, eu tenho certeza que ele sente uma espécie de solidariedade. Tenho certeza de que ele gostaria de ver Bolsonaro, que não está bem de saúde, em melhores circunstâncias.
Por outro lado, as coisas são o que elas são. Eu não conheço os detalhes das ligações entre a embaixada americana e o presidente Lula (…). Não sei o que pode ser oferecido, mas certamente Trump ficaria feliz de ver Bolsonaro, que não é mais uma ameaça ao Estado Brasileiro de forma alguma, perdoado e fora da cadeia.
(…) Eu tenho certeza que há algo que o governo brasileiro pode ganhar com o governo Trump se decidir libertar Jair Bolsonaro. Só não sei o que poderia ser.
Fica o aviso para o Lula.
Alguém estava me contando mais cedo hoje a história da tentativa de golpe de Bolsonaro. Ele chegou para os generais e pediu, “por favor caras, me ajudem a tomar poder”. Me falaram também sobre os prédios que foram devastados, quais prédios foram?
Vários deles, na verdade. O Palácio do Planalto, O Congresso, o Supremo Tribunal Federal… Todas os principais prédios daquela área.
Foi a mesma coisa do dia 6 de janeiro (de 2021, nos Estados Unidos). Tinha esse elemento de comédia. As pessoas achavam que estavam participando da queda da Bastilha (em 1789 na Revolução Francesa) ou algo parecido. Era uma energia de queda da Bastilha. E aí, ao final, elas descobriram que nada aconteceu e que todas elas foram fotografadas. Você acha que o que aconteceu no Brasil foi uma armadilha?
Não sei. O que eu sei é que no fim, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, terminou prevalecendo.
Sim, você sempre vai acabar vendo quem ganhou o jogo. Mas eu acho que essa é uma lição importante para populistas de todos os tipos, porque eles precisam operar dentro da realidade.
Você conhece o termo “larp”? É tipo uma gíria da geração Z. É quando você está fingindo, ou representando um papel. Essas pessoas estavam brincando de Revolução Francesa ou brincando de “Tea Party” ( a “festa do chá de Boston”, de 1773). De repente, você está num edifício governamental vazio, se perguntando o que fazer em seguida. E aí você percebe que na verdade não tem como fazer nada.
Independente de alguém ter tentado criar uma armadilha ou não, acabou sendo uma armadilha.
Talvez uma armadilha autoimposta.
Talvez uma armadilha autoimposta. Eu acho que a coisa mais importante para os populistas é viver na realidade, não na ilusão. E isso é muito difícil de fazer quando você está em contato com a mentalidade popular, e tentando seguir o que as pessoas pensam.
Para encerrar, gostaria que você me dissesse como você vê algumas figuras da política da economia americana, começando por Peter Thiel.
O Peter é alguém que eu conheço há bastante tempo. A coisa é que… todo mundo espera que um bilionário conservador americano se comporte exatamente como um bilionário progressista americano. No sentido de criar instituições paralelas, de financiar causas pra lá e pra cá, de jogar um jogo meio George Soros.
Na verdade, essa não é a forma como a maioria das nossas pessoas ricas operam, porque a maioria delas é libertária, ou vêm de uma origem libertária.
Essas pessoas estão acostumadas, até certo ponto, a trabalhar contra o regime progressista atual. O que elas não estão acostumadas a fazer é tomar a responsabilidade de apresentar novas ideias. De dizer o que virá em seguida.
E eu acho que essas pessoas precisam avançar para a próxima etapa. Elas já se acostumaram a reagir contra o regime progressista atual, mas ainda não se acostumaram com a ideia de que são responsáveis por propor algo no lugar disso. Elas precisam ter uma ideia diferente, uma visão do que vem depois.
A resistência, aos moldes do século XX, quando eles se limitam apenas a dizer “não vamos fazer isso”, “isso é absurdo”, pode até ser útil, mas não basta. Precisamos ir além: ter uma visão concreta do que vem depois, não apenas negar o que já existe.
O que você acha de J.D. Vance?
J.D. Vance é alguém com quem já conversei algumas vezes. O interessante sobre ele é que, de certa forma, ele se parece com o Renan (Santos): fala a língua tanto do povo quanto da elite.
Isso é importante. O Renan (Santos) consegue se comunicar como populista, dialogar com o eleitorado bolsonarista, mas também estudou Direito — se não me engano, com Moraes na faculdade.
Da mesma forma, Vance vem do interior profundo dos Estados Unidos e também estudou em Yale. Figuras assim são relevantes porque não dá para ter apenas um dos lados. Não existe governo sem elite — simplesmente não funciona.
É preciso reunificar essas duas metades do país: o eleitor do “red state”, que sente que algo está profundamente errado, mas não sabe o que fazer a respeito; e o outro grupo, igualmente convicto de que sabe o que fazer — e, muitas vezes, errado da mesma maneira.
Parte desse processo envolve o despertar desse eleitor conservador para a realidade: perceber que muitas ideias com as quais cresceu — sobre Constituição, democracia, funcionamento das instituições — não correspondem ao mundo real. É admitir que foi enganado, e isso é doloroso.
Mas, do lado da elite, também é necessário um despertar: entender que a meritocracia ainda produz pessoas brilhantes, mas desenvolveu ideias muito ruins. Ela se corrompeu com o poder que recebeu.