Bolsonaro foi ao Senado negociar anistia ao 8/1 e a ele próprio para apoiar Alcolumbre e Motta
Bolsonaro sai de casa em Brasília para depor na Polícia Federal — Foto: Adriano Machado/Reuters
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esteve na tarde de terça-feira (29) no Senado para negociar o apoio do PL às candidaturas de Davi Alcolumbre (União Brasil) e Hugo Motta (Republicanos-PB) às presidências do Senado e da Câmara, respectivamente.
Na saída da reunião, afirmou que várias negociações estão na mesa e defendeu enfaticamente a anistia aos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e a ele próprio, que está inelegível devido a duas decisões da Justiça Eleitoral.
“Foi um julgamento político [sua inelegibilidade] e estamos buscando maneiras de desfazer isso aí. A prioridade nossa é o pessoal que está preso, eu sou o segundo plano”, afirmou Bolsonaro.
Ao ser questionado diretamente sobre se colocou a sua própria anistia como condicionante ao apoio a Alcolumbre e Motta, ele negou, mas disse que há acordos que são feitos apenas cara a cara, sem formalização.
“Não tem condicional nenhuma. Tem certos, acordos, não vou enganar vocês, que a gente faz no tête-à-tête, não tem nada escrito, nem passa para fora. O que a gente quer é solução. Não queremos poder, é solução.”
Em outro ponto da entrevista, admitiu ter conversado sobre sua anistia nas negociações para o apoio do PL.
“A gente conversa, poxa, na mesa [de negociação] é igual namoro, você conversa tudo, vou casar: vai ter filho, não vai ter filho, vai morar onde, o que você tem, o que você não tem”, disse, acrescentando que a resposta que teve da cúpula do Congresso foi positiva.
“Em um namoro você tem quase tudo sim, ou não é? Ou você namorou diferente de mim? Então, tá indo bem.”
O PL tem a maior bancada da Câmara, com 92 das 513 cadeiras, e 14 dos 81 senadores —menor apenas que a do PSD, que tem 15.
Bolsonaro também disse ter conversado na segunda-feira (28) com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e apoiou a decisão do parlamentar de retirar da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e colocar em uma comissão especial o projeto de anistia aos participantes do 8 de janeiro.
“Muito pelo contrário”, respondeu à pergunta sobre se a comissão seria para “enterrar a anistia”.
“Não adianta aprovar por 200 a 0, ou 500 a 0 na comissão, se o dono da pauta para o plenário é o nosso Arthur Lira. Então Arthur Lira não está impondo nada para mim nem eu para ele. Em comum acordo, uma das alternativas foi a criação da comissão. O que o pessoal pretende ao criar a comissão é trazer para cá os órfãos de pais vivos. Vocês vão ficar chocados”, disse o ex-presidente.
Segundo ele, se a comissão conseguir cumprir seus prazos, o tema pode ser votado ainda neste ano.
Outro argumento usado pelo ex-presidente para defender o perdão a si próprio e, por consequência, a candidatura, foi a decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de anular todas as condenações do ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil) contra o ex-ministro José Dirceu na Lava Jato.
“José Dirceu está livre de tudo, o mentor de tudo o que há de errado no Brasil, não só no tocante à corrupção, é José Dirceu, e ele está elegível, ele pode ser candidato a deputado federal.”
Em vários momentos da entrevista Bolsonaro afirmou que a anistia às pessoas condenadas e que respondem a processo pela quebradeira na sede dos três Poderes em janeiro de 2023 é a prioridade. E que a sua própria anistia para disputar as eleições presidenciais de 2026 é o ponto a ser tratado a seguir.
A ideia de seus aliados é incluir no projeto o perdão ao ex-presidente durante a tramitação da proposta.
“A anistia está sempre nas pautas nossas. Entendemos que o 8 de janeiro não foi uma tentativa de golpe, muito menos armada. Tem gente inocente, gente que tem seis filhos, é uma questão humanitária.”
As eleições para o comando da Câmara e do Senado ocorrem em fevereiro. Alcolumbre e Motta são favoritos.
O ex-presidente indicou que o PL deve apoiar os dois nomes, possivelmente nesta quarta-feira (30).
“Ninguém aqui está para esconder a verdade de vocês. Sabemos da força do Alcolumbre, que ele deve ser o presidente no futuro”, disse, lembrando que a decisão do PL de confrontar a candidatura de Rodrigo Pacheco (PSD) à presidência do Senado em 2023 deixou o partido sem cargos na Mesa Diretora e nas comissões.
Bolsonaro também disse que não exigiu a relatoria do tema e ironizou, afirmando que ela poderia ser dada até ao PT. ” Nós não queremos paternidade, quero que alguém do PT seja o pai da anistia, gostaria de que o Lula tomasse a iniciativa de anistiar. Com todos os defeitos que ele tem, será que ele não tem coração também, não sabe quem tá preso? São pessoas humildes.”
Declarado inelegível pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) até 2030 por ataques e mentiras sobre o sistema eleitoral, o ex-presidente foi indiciado neste ano pela Polícia Federal em inquéritos sobre as joias e a falsificação de certificados de vacinas contra a Covid-19.
Além desses casos, Bolsonaro é alvo de outras investigações, que apuram os crimes de tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado democrático de Direito, incluindo os ataques de 8 de janeiro de 2023.
Parte dessas apurações está no âmbito do inquérito das milícias digitais relatado pelo ministro Alexandre de Moraes (STF) e instaurado em 2021, que podem em tese resultar na condenação de Bolsonaro em diferentes frentes.
Caso seja processado e condenado pelos crimes de tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado democrático de Direito e associação criminosa, Bolsonaro poderá pegar uma pena de até 23 anos de prisão e ficar inelegível por mais de 30 anos.