Brasil 2022: eleições ou golpe (por Ricardo Guedes)
Início de ano. Que tenhamos clareza: ambas as estratégias, a eleitoral e a da quebra da ordem institucional, estão em curso no Brasil. A postura pós 7 de setembro de Bolsonaro já se dissipou e ambas as estratégias serão tentadas dentro do alcance de cada uma. O figurino já foi dado por Trump. Primeiro, concorre-se nas eleições. Segundo, não se reconhece seus resultados. Terceiro, tenta-se o golpe de estado. Se aconteceu assim nos Estados Unidos, imagem aqui. Este é o roteiro, com algumas variações de país para país.
Aqui, como ocorrido na Alemanha de 1932 a 1934, observa-se a tentativa de aparelhamento do judiciário, o fortalecimento dos benefícios para as forças militares e policiais, e a intimidação crescente de dissidentes e adversários. A desqualificação das instituições sociais se acentua, como na saúde, educação, economia, cultura, meio ambiente, relações exteriores, e demais instituições. Eleitoralmente, Bolsonaro sofrerá rejeição nas urnas. Restará a alternativa do golpe a tentar.
Os novos golpes de estado que têm ocorrido se baseiam em tres alicerces. Primeiro, na falência dos partidos políticos em resolver os problemas dos cidadãos. Segundo, no aumento da desigualdade econômica que ocorre no mundo. Terceiro, na obtenção de privilégios para o grupo no poder devido às dificuldades econômicas e a crise ecológica que se instala. Os golpes de estado anteriores eram fomentados a partir de perspectivas ideológicas diante do que era considerado como ameaças internas ou externas à ordem instituída. Os novos golpes, sem ideologia, são fomentados pelas dificuldades do presente e angustia pelo futuro.
As teorias sobre a democracia previam a seleção dos melhores para o governo, a maior representatividade dos grupos sociais, e a distribuição de renda para a população. Nada disso ocorreu. Hoje, as democracias estão perambulantes, como indica o estudo The Global State of Democracy de 2019, e a desigualdade também aumentou como indica o estudo World Inequality Report de 2018. Os líderes atuais, via de regra, são piores do que os líderes de anteriormente. Difícil comparar Biden com Roosevelt, Boris Johnson com Churchill, Macron com De Gaulle, Bolsonaro com Getúlio Vargas.
A técnica dos novos golpes é a difamação e destruição sistemática da ordem institucional. Foi assim com Trump nos Estados Unidos, Viktor Orban na Hungria, Lukasenka na Bielorussia, Andrzej Duda na Polonia, assim como tem sido com Bolsonaro no Brasil. É a tentativa do poder pelo poder, o contrário do que propõe Roseau em o Contrato Social para o funcionamento democrático das sociedades.
Campo fértil para a aventura e o oportunismo. O Brasil encontra-se, hoje, em equilíbrio instável. Urge a necessidade de salvaguardas para a democracia. Conforme atribuído a Thomas Jefferson, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”.
Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago e CEO da Sensus