Brasil e China são os mais favorecidos por mudanças nas tarifas impostas por Trump

0
image

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz pronunciamento em Palm Beach, na Flórida, após ataque à Venezuela que capturou Nicolás Maduro - Jonathan Ernst/REUTERS

por Financial Times

A nova tarifa global de 15% anunciada pelo presidente Donald Trump beneficiará principalmente os países que receberam críticas severas do governo americano, incluindo China e Brasil.

Uma análise do órgão independente de monitoramento comercial GTA (Global Trade Alert) constatou que o Brasil terá a maior redução nas taxas tarifárias médias —caindo 13,6 pontos percentuais— seguido pela China, com uma redução de 7,1 pontos percentuais.

Aliados de longa data dos EUA, incluindo Reino Unido, União Europeia e Japão, sofrerão o maior impacto da nova taxa que o presidente americano introduziu após a Suprema Corte considerar grande parte de sua política comercial anterior ilegal na sexta-feira (20).

Trump havia originalmente usado a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para impor tarifas aos parceiros comerciais dos EUA, mas uma decisão majoritária da corte derrubou essas medidas.

Após o anúncio da decisão, Trump disse que substituiria as tarifas da IEEPA por uma tarifa geral de 10% —que ele então elevou para 15% no sábado (21). A medida deve entrar em vigor na terça-feira (24), mas só é válida por 150 dias, exceto se houver autorização do Congresso para um prazo maior.

No domingo (22), o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, defendeu o novo regime e prometeu prosseguir com investigações de práticas comerciais que podem resultar em mais taxas.

“Não temos a mesma flexibilidade que a IEEPA nos dava”, mas “vamos conduzir investigações que podem nos permitir impor tarifas se for justificado pela investigação”, disse Greer à rede CBS. “Então esperamos ter continuidade no atual programa tarifário.”

Ele disse que Trump aumentou a nova taxa global de 10% para 15% porque “a urgência da situação exige que ele use autoridade plena”.

Greer disse que tem conversado com seus homólogos em outros países sobre acordos que já foram fechados, incluindo a UE, e que nenhum parceiro comercial disse que “o acordo está cancelado”.

“Venho dizendo a eles há um ano [que], ganhando ou perdendo [no tribunal], teríamos tarifas… É por isso que eles assinaram esses acordos, mesmo enquanto o litígio estava pendente”, disse ele.

Ele acrescentou: “Ainda não ouvi ninguém vir até mim e dizer que o acordo está cancelado. Eles querem ver como isso se desenrola.”

Johannes Fritz, economista e CEO do GTA, que conduziu a análise, disse: “Países como China, Brasil, México e Canadá, que foram mais duramente criticados pela Casa Branca e alvos de tarifas da IEEPA sob ordens executivas especiais, viram suas tarifas caírem mais.”

Fabricantes asiáticos como Vietnã, Tailândia e Malásia, que frequentemente foram destacados por Trump por manterem enormes superávits comerciais com os EUA, se beneficiarão do novo regime.

Sua base manufatureira, incluindo vestuário, móveis, brinquedos e plásticos, se sairá particularmente bem.

Mas o representante comercial dos EUA disse que irá iniciar investigações de práticas comerciais desleais relacionadas ao excesso de capacidade industrial que “cobrirão muitos desses países na Ásia“.

“Estamos analisando práticas comerciais desleais e coisas como arroz no exterior, onde as pessoas têm muitos subsídios e prejudicam nossos produtores de arroz aqui”, disse ele.

Greer acrescentou que as novas tarifas globais não afetarão a próxima reunião de Trump com o presidente chinês, Xi Jinping.

O objetivo do encontro bilateral é “manter a estabilidade, garantir que os chineses estejam cumprindo sua parte do nosso acordo e comprando produtos agrícolas americanos” e jatos da Boeing, e “nos enviando as terras raras de que precisamos”.

Fritz, do GTA, disse que o futuro de todas as tarifas está envolto em incerteza, com o governo sinalizando que pretende aplicar medidas adicionais específicas por país por meio da Seção 301 da Lei de 1974.

Os EUA já iniciaram investigações da Seção 301 contra Brasil e China.

ALIADOS DOS EUA

O novo regime de tarifas atingirá particularmente os principais aliados dos EUA porque suas exportações são mais dominadas por aço, alumínio e automóveis —setores cobertos por outras tarifas que permanecem em vigor após a decisão de sexta-feira.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse à CNN neste domingo que todos os parceiros comerciais querem manter os acordos que negociaram com Trump.

Mas Bruxelas exigiu “total clareza” de Washington. A Comissão Europeia disse neste domingo que “a situação atual não é propícia para entregar um comércio e investimento transatlântico ‘justo, equilibrado e mutuamente benéfico'”, conforme especificado em seu acordo comercial com Washington.

“Um acordo é um acordo. Como maior parceiro comercial dos EUA, a UE espera que os EUA honrem seus compromissos”, disse a Comissão.

O maior perdedor com a nova taxa global fixa é o Reino Unido, que havia garantido uma tarifa de 10% sobre muitos produtos, mas agora verá um aumento de 2,1 pontos percentuais em sua taxa tarifária média.

A UE, que garantiu uma taxa tarifária de 15% em seu acordo comercial com Washington, verá um aumento geral de 0,8 ponto percentual, com Itália e França mais expostas quando cerca de 1.100 categorias de produtos isentos são consideradas nos cálculos.

As Câmaras de Comércio Britânicas disseram que 40.000 empresas do Reino Unido que exportam produtos para os EUA estão “consternadas” com o novo regime e pediram ao governo britânico que entre em diálogo com Washington.

A ex-funcionária do departamento de comércio do Reino Unido Allie Renison, agora na consultoria SEC Newgate, disse que a situação deixou os britânicos diante de um dilema sobre se devem pressionar por um acordo melhor ou jogar um jogo de espera, para ver se serão ultrapassados por medidas alternativas.

“É possível que o presidente Trump esteja disposto a encontrar uma maneira de reaplicar a taxa de 10% ao Reino Unido, mas provavelmente ao custo de mais concessões, em vez de como uma medida de boa-fé”, acrescentou ela.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...