Bruno Henrique poderia ter levado cartão em 4 momentos do jogo suspeito, e apostadores ficaram apreensivos com demora, diz PF
Bruno Henrique do Flamengo comemora gol com "chororô" contra o Botafogo — Foto: Alexandre Durão
A investigação da Polícia Federal contra o jogador Bruno Henrique, do Flamengo, diz que em quatro momentos do jogo contra o Santos, pelo Brasileirão de 2023, o atacante poderia ter tomado um cartão amarelo.
A Polícia Federal indiciou o atacante por supostamente ter forçado o cartão e, com isso, beneficiado apostadores. Além dele, outras nove pessoas foram indiciadas. Três delas são familiares de Bruno Henrique, que não quis comentar o caso.
Os investigadores incluíram no inquérito conversas de WhatsApp de apostadores angustiados com a demora na punição, que só aconteceu nos acréscimos do segundo tempo do jogo, após os 90 minutos regulamentares.
Veja abaixo, os lances em que Bruno Henrique poderia ter recebido o cartão segundo a PF:
5 minutos do 2º tempo
Gabigol e Bruno Henrique discutem com o juiz Rafael Klein após a marcação de uma falta contra o Flamengo. Ambos reclamam, mas apenas Gabigol é advertido com o cartão amarelo:

18 minutos do 2º tempo
Bruno Henrique comete uma falta no campo de ataque do Flamengo:

22 minutos do 2º tempo
Nova reclamação com o juiz após a marcação de uma falta:

35 minutos do 2º tempo
Bruno Henrique derruba um jogador do Santos no campo de ataque do Flamengo. Após a marcação da falta, BH – como também é chamado – chuta a bola para longe:


‘Juiz desgraçado’, reclama apostador com demora de cartão
Os investigadores tiveram acesso a mensagens (veja abaixo) trocadas entre os apostadores. À medida que o tempo passava, dois dos indiciados pela PF – o irmão do atacante, Wander Nunes Pinto Júnior, e seu amigo Claudinei Vítor Mosquete Bassan – conversaram sobre a demora da aplicação do cartão e reclamaram do juiz Rafael Klein.
“Que juiz desgraçado”, diz Claudinei.
“Já era pra ter dado e tá nessa p… aí”, diz Wander.
“Deve tomar agora”, responde Claudinei.

Finalmente, o cartão
Durante o jogo, o atacante e ídolo do Flamengo foi capitão do time após a expulsão do meio campo Gérson, aos 41 minutos do primeiro tempo. A função permitiu, segundo a PF, maior interação entre o atleta e o juiz, o que pode justificar ele não ter levado o cartão por reclamação antes.
Até que, nos acréscimos, no campo de defesa do Flamengo, o juiz marcou falta de Bruno Henrique no atacante venezuelano Soteldo, do Santos, e o advertiu com o cartão amarelo.
Na súmula do jogo, o relato do juiz: “Golpear um adversário de maneira temerária na disputa da bola”.
Bruno Henrique continuou reclamando após o cartão, e acabou expulso por Rafael Klein.

Em nota, o Flamengo comentou o indiciamento.
“O Flamengo não foi comunicado oficialmente por qualquer autoridade pública acerca dos fatos que vêm sendo noticiados pela imprensa sobre o atleta Bruno Henrique. O Clube tem compromisso com o cumprimento das regras de fair play desportivo, mas defende, por igual, a aplicação do princípio constitucional da presunção de inocência e o devido processo legal, com ênfase no contraditório e na ampla defesa, valores que sustentam o estado democrático de direito”.
Buscas em 2024
Em novembro de 2024, a PF cumpriu 12 mandados de busca e apreensão, expedidos pela Justiça do Distrito Federal, nas cidades do Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Vespasiano (MG), Lagoa Santa (MG) e Ribeirão das Neves (MG).
Na época das buscas, Bruno Henrique também preferiu não comentar o caso.
O indiciamento significa que a PF encontrou elementos suficientes para considerar que os citados cometeram crimes. O caso passa agora à análise do Ministério Público – que, se concordar com essa avaliação, pode denunciar os investigados à Justiça.
Em paralelo à investigação da Polícia Federal, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) também investigou a conduta de Bruno Henrique. O caso foi arquivado em setembro de 2024.
O relatório do STJD é baseado em três pontos principais: ‘Lance normal’, ‘lucro ínfimo’ e ‘prática corriqueira’.