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Foto: Reprodução

Como se previu, tinha prazo de validade a carta em que o presidente Jair Bolsonaro deu uma trégua ao país e às instituições. Redigido em acordo com o ex-presidente Michel Temer, o manifesto de paz prescreveu com a queda nas pesquisas e a companhia de Lula e Sergio Moro na campanha.

Durou três meses e serviu ao propósito da ocasião: blindar Bolsonaro de consequências maiores e iminentes pelas manifestações de 7 de setembro, em que voltou a pregar contra as instituições e expôs-se a crime de responsabilidade por dizer que não cumpriria ordem judicial.

Bolsonaro formalizou a passagem do governo ao Centrão com a publicação do decreto em que destitui o ministro da Economia, Paulo Guedes, do orçamento. Agora, por lei, só vale o que Guedes assina se o texto for subscrito pelo chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, que assim vira uma espécie de primeiro-ministro.

O presidente fica livre para fazer o discurso que serve à agregação de sua base mais fiel, a chamada raiz, ameaçada pela erosão depois da chegada de Moro. Precisa mantê-la sólida para garantir a ida ao segundo turno. O governo não precisa necessariamente fazer o que ele prega, basta tocar o barco.

E já voltou a atacar o Supremo Tribunal Federal, acusando os juízes Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso de estarem a serviço da candidatura de Lula, insinuou corrupção na Anvisa por ter liberado vacina para a população infantil e tentou novo enquadramento dos comandos das Forças Armadas.

Nesse contexto, fez nova incitação à violência, disfarçada de crítica a um eventual lockdown, que em nenhum momento foi cogitado. Disse que o governo não terá condições de conter uma escalada de violência se os governadores decidirem por uma nova restrição das atividades em face da volta crescimento dos índices da Covid. É uma ameaça vestida de alerta.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já mudou a orientação sobre a vacinação. Embora Bolsonaro mantenha o discurso de oposição à prevenção, Queiroga reapareceu na quinta-feira (13/1), com o selo do SUS no peito, apelando para que os vacinados apenas uma vez tomem a segunda dose.

Além disso, Queiroga incluiu as crianças, dizendo que a campanha deve alcançar todos os brasileiros. É muito provável que tenha sido orientado pela conveniência eleitoral, pois o governo, afinal, constatou que a população quer a vacina – e condená-la, ou negá-la, tira votos.

A aparente contradição entre as falas de Queiroga e Bolsonaro é método: a dubiedade teoricamente chega a todos os públicos. E passa ao largo das outras tragédias do calendário nacional provocadas pelas chuvas que matam e desabrigam milhares de pessoas, em todas as regiões do país. Sobre elas, nenhuma palavra presidencial.

Para uma população que somou mais de 620 mil mortos enquanto o governo promovia uma guerra à vacinação, o método da prática diferente do discurso poderia até ser um alento, não fossem os efeitos extrassanitários, como a divisão do país, dentro das famílias e nas ruas, com episódios de violência nas esquinas, sob a liderança do presidente que prega a desobediência civil.

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