China x Tibete: por que a escolha do próximo Dalai Lama tem mais a ver com geopolítica do que com religião?
O líder espiritual Dalai Lama em imagem do dia 29 de dezembro de 2022, em Bodh Gaya, Índia — Foto: Sanjay Kumar/AFP
O Dalai Lama completa 90 anos neste domingo (6). Nesta semana, o líder do budismo tibetano falou sobre a própria sucessão e mandou um recado: seus seguidores devem rejeitar qualquer nome indicado pelo governo chinês. Mas afinal de contas, o que a China tem a ver com isso?
▶️ Contexto: Os seguidores do Dalai Lama aguardavam há muito tempo uma declaração sobre a continuidade da religião. No passado, o atual chefe espiritual chegou a dizer que poderia ser o último a ocupar o posto. Agora, ele indica que a tradição continuará viva e que ele irá reencarnar.
- Pela crença budista, o Dalai Lama pode escolher onde e quando irá reencarnar. Ele também representa a unidade do Tibete — que atualmente está sob administração chinesa.
- A China quer determinar quem será a reencarnação do líder espiritual, em uma estratégia de ampliar o domínio sobre a região.
- O budismo tibetano acredita que o Dalai Lama seja uma manifestação de uma entidade superior conhecida como Avalokiteshvara ou Chenrezig.
- A tradição determina que, após a morte do Dalai Lama, os monges iniciem as buscas para encontrar a criança na qual o líder espiritual reencarnou.
- A tentativa de influência chinesa na religião gerou preocupação internacional, com Estados Unidos e Índia se posicionando ao lado do Dalai Lama.
- Apesar de a questão estar imersa em um contexto religioso, especialistas veem o momento como uma disputa geopolítica capaz de mexer no tabuleiro asiático.
🗺️ Território em disputa: Atualmente, o Tibete é uma “Região Autônoma” sob controle da China. A história da região, no entanto, é marcada por períodos de independência e momentos de dominação estrangeira.
- Historicamente, o Tibete teve períodos de domínio mongol e chinês. O Dalai Lama era a principal autoridade local.
- Em 1904, o território foi invadido por tropas britânicas. Com a queda da dinastia Qing, na China, o Tibete declarou independência em 1913.
- O 13º Dalai Lama assumiu e governou o território até a sua morte, em 1933.
- Em 1937, monges tibetanos reconheceram Tenzin Gyatso, então com quatro anos, como a reencarnação do Dalai Lama. A entronização oficial ocorreu em 1940.
⚔️ Conflito: As tensões entre o Tibete e a China começaram a crescer no fim da década de 1940. À época, o governo chinês queria reincorporar a área, já que considerava a região como parte histórica de seu território.
- Em 1950, tropas chinesas invadiram o Tibete. O Dalai Lama, então com 15 anos, assumiu como chefe de Estado.
- Em 1951, sob pressão, representantes tibetanos assinaram um acordo reconhecendo a soberania chinesa. Houve resistências isoladas nos anos seguintes.
- Em 1959, eclodiu uma grande revolta do povo tibetano contra a China. A repressão chinesa levou o Dalai Lama ao exílio na Índia, onde criou um governo no exílio.
- Desde então, o Dalai Lama nunca mais retornou ao Tibete, e a região está sob o total controle da China.
O que está em jogo agora
Desde que o Dalai Lama deixou o Tibete, a China manteve um controle restrito sobre a região. O governo chinês argumenta que a tomada de poder acabou com os tempos de servidão e tirou o território do atraso.
⚖️ Poder X Religião: Ao longo dos últimos 65 anos, protestos contra a China aconteceram com frequência no Tibete. O governo chinês responsabiliza o Dalai Lama pelos distúrbios e o classifica como “separatista”.
- Ondas de manifestações se repetiram, inclusive nos anos 2000.
- Em janeiro de 2012, protestos deixaram mortos e fizeram Pequim pedir estabilidade. O governo tibetano no exílio disse que as ações chinesas atingiram um novo nível de repressão.
- Com a idade avançada do Dalai Lama, a China intensificou os movimentos para definir quem será seu sucessor.
- Pequim afirma ter esse direito por causa do legado imperial. Na prática, no entanto, a China busca garantir um Dalai Lama aliado do governo para ampliar o controle sobre o Tibete.
👉 No passado, durante o Império Chinês, a escolha do Dalai Lama e de outros altos cargos do budismo tibetano chegou a ser feita com a chamada “Urna Dourada”. Nesse modelo, os nomes dos candidatos eram colocados em um recipiente e sorteados após uma oração.
Atualmente, a China defende que a escolha da reencarnação do Dalai Lama deve seguir esse método e insiste que o próximo líder precisa nascer dentro do território chinês.
👁️🗨️ Outro precedente: O caso recente mais emblemático de interferência chinesa no budismo tibetano aconteceu em 1995, na nomeação do Panchen Lama.
- O Panchen Lama é a segunda autoridade no budismo tibetano e tem papel fundamental: ele reconhece a reencarnação do Dalai Lama, e vice-versa.
- Em 1995, o Dalai Lama reconheceu como Panchen Lama um menino de 6 anos chamado Gedhum Choekyi Nyima.
- Apenas três dias depois, o menino e sua família desapareceram. Organizações de direitos humanos acusaram a China de sequestro.
- O governo chinês diz saber onde Nyima está, mas fornece poucas informações sobre ele.
- Além disso, Pequim se recusou a reconhecer Gedhum Choekyi Nyima como Panchen Lama e indicou outro nome para o cargo.
Tabuleiro geopolítico
