Cid diz à PF que família viajou para aniversário nos EUA, e defesa afirma que delação está mantida
Mauro Cid. Foto: Reprodução
O tenente-coronel Mauro Cid afirmou à Polícia Federal na sexta-feira (13) que sua família viajou aos Estados Unidos para comemorar o aniversário de 15 anos de sua sobrinha.
O militar disse que a viagem já estava programada, com passagem de volta comprada para o dia 20 de junho, segundo sua defesa. As informações foram apresentadas por Cid para argumentar que ele não pretende fugir do país, como suspeita a PGR (Procuradoria-Geral da República).
Cid depôs à PF por cerca de três horas, em Brasília. Ele foi chamado a prestar esclarecimentos após a corporação prender o ex-ministro Gilson Machado e realizar buscas na casa do militar pela manhã de sexta (13).
O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro também foi questionado sobre mensagens encontradas em um perfil de rede social com o nome de sua esposa sugerirem que Cid contou detalhes de seus depoimentos à PF, no âmbito da colaboração premiada, para amigos.
As suspeitas foram reveladas pela revista Veja. As mensagens mostram que um perfil de nome @gabrielar702 envia mensagens, em primeira pessoa, alegando que se sentiu pressionado pela PF em seus depoimentos e que os investigadores teriam um objetivo preestabelecido de prender o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O advogado Cezar Bitencourt, defensor de Cid, afirmou que a delação de Cid está mantida. “[O depoimento] Foi tranquilo, o acordo está de pé. Foi uma sacanagem que a defesa do Bolsonaro fez”, disse.
Em documento enviado ao Supremo, Bitencourt disse que as mensagens atribuídas a Cid são falsas e que “esse perfil não é e nunca foi utilizado por Mauro Cid”.
“Trata-se, portanto, sem sombra de dúvida, de uma falsidade grotesca e produzida para servir de prova no processo penal, sujeita, em tese, a sanções previstas no art. 347, § único, do Código Penal”, diz o advogado.
A defesa de Cid pediu ao Supremo a abertura de uma investigação para identificar a titularidade e o uso do perfil @gabrielar702. “Mauro Cesar Barbosa Cid, reitera, mais uma vez, que cumpriu todos os termos de sua colaboração premiada, inclusive, quanto ao sigilo e demais cautelares diversas da prisão que lhe foi concedido”, conclui Bitencourt.
Com base na reportagem da Veja, Bolsonaro disse nas redes sociais que a delação de Cid “deve ser anulada”. “Braga Netto e os demais devem ser libertos imediatamente. E esse processo político disfarçado de ação penal precisa ser interrompido antes que cause danos irreversíveis ao Estado de Direito em nosso país”, escreveu.
A PGR pediu a prisão preventiva de Mauro Cid e do ex-ministro Gilson Machado na quinta-feira (12) alegando haver suspeitas de que o militar planejava fugir do país para evitar o cumprimento de sua eventual pena no julgamento da trama golpista.
A suspeita se baseia em dois fatos novos. O primeiro, segundo a PGR, é a tentativa de Gilson Machado de obter um passaporte português para Mauro Cid junto ao Consulado de Portugal em Recife.
O ex-ministro nega que tenha tentado favorecer Cid. Ele diz que somente entrou em contato com o consulado, no mês passado, para renovar o passaporte português de seu pai. “Não matei, não trafiquei drogas. Não tive contrato com traficante. Apenas pedi um passaporte para meu pai, por telefone, aqui no consulado do Recife”, disse Gilson na entrada do IML (Instituto de Medicina Legal).
A segunda novidade apontada pela PGR é a viagem de quatro familiares de Cid (pais, esposa e filha) para os Estados Unidos em 30 de maio.
O procurador-geral Paulo Gonet diz que as novas informações reforçam a “hipótese criminal já delineada pela Procuradoria-Geral da República e evidencia a forte possibilidade de que Gilson Machado Guimarães Neto e Mauro César Barbosa Cid estejam buscando alternativas para viabilizar a saída de Mauro Cid do país, furtando-se à aplicação da lei penal”.
Cid negou à PF a intenção de sair do Brasil na sexta-feira (13). Ele alega que sua família viajou aos Estados Unidos para as comemorações de 15 anos de sua sobrinha.
Daniel Cid, irmão de Mauro, reside na Califórnia há mais de uma década. A filha mais velha de Mauro Cid mora com o tio nos Estados Unidos há pelo menos três anos.
Cid disse à PF que o roteiro da família nos Estados Unidos previa um passeio na Disney e volta ao Brasil em 20 de junho.
A imprensa teve acesso às informações das passagens da família de Cid. Os quatro familiares têm volta marcada para o dia 20 de junho, com embarque no aeroporto de Orlando, escala na Cidade do Panamá e desembarque em Brasília.
Os pais de Cid despacharam duas bagagens de até 23 kg, uma registrada no nome de cada. A esposa e a filha do militar levaram somente bagagens de mão para a viagem internacional.
Advogado diz que Mauro Cid não tentou deixar o país
A defesa do tenente-coronel Mauro Cid afirmou na sexta-feira (13) que o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro não tentou deixar o país e que o tema não foi tratado em depoimento prestado à Polícia Federal.
Segundo o advogado Cezar Bittencourt, Cid não tem planos de sair do Brasil sem autorização judicial e está disposto a entregar sua carteira de identidade portuguesa à Justiça.
As declarações ocorrem em meio a novas suspeitas investigadas pela PF. O ex-ministro do Turismo Gilson Machado foi preso na sexta-feira (13), no Recife (PE), sob acusação de tentar ajudar Mauro Cid a obter um passaporte português, o que poderia viabilizar sua saída do país.
De acordo com a PF, Machado teria atuado junto ao Consulado de Portugal no Recife em maio de 2025. No celular de Cid, os investigadores encontraram arquivos que indicam que ele tentou obter a cidadania portuguesa em janeiro de 2023.
Antes da prisão, Gilson Machado afirmou que ligou para o consulado apenas para agendar a renovação do passaporte do pai.
Na terça-feira (10), a Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma manifestação pedindo autorização para investigar Gilson Machado por essa tentativa de facilitação.’
‘Depoimento reforçou acordo’, diz defesa
Segundo o advogado Cezar Bittencourt, o depoimento de Cid à Polícia Federal não abordou nenhuma tentativa de fuga nem tratou de passaporte ou operação policial. “Durante o depoimento, apenas reforçaram os pontos do acordo de colaboração. Não houve questionamentos sobre esses temas”, afirmou.
Para o defensor, não faz sentido imaginar que um delator que já firmou acordo e tem defesa estruturada cogitaria sair do país sem autorização judicial. “Isso não foi tratado com a polícia e nem foi perguntado durante o depoimento”, completou.
Quem é Gilson Machado
Em 2022, Machado concorreu ao Senado por Pernambuco e ficou em segundo lugar, com 1,3 milhão de votos. No ano seguinte, disputou a prefeitura do Recife e também terminou em segundo lugar, com quase 14% dos votos válidos.
Além da atuação política, Gilson Machado também é músico e tem uma apresentação marcada para o dia 24 de junho no São João de Caruaru (PE), com a banda Brucelose.
Campanha de arrecadação
Além do caso do passaporte, a Polícia Federal pediu que Gilson Machado seja investigado por promover, em maio de 2025, uma campanha de doações em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.