Cidade italiana ligada à Rússia por um santo sente as consequências da Guerra na Ucrânia

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Voluntários, na maioria ucranianos, colocam mantimentos nos caminhões em um centro de doações em Bari, na Itália, em três de março de 2022. (Nadia Shira Cohen/The New York Times)

Por Jason Horowitz

Bari, Itália – Enquanto os cantos ortodoxos em russo e a voz do bispo ucraniano ecoavam na antiga cripta, fiéis abaixavam a cabeça coberta até o chão de mármore, iluminavam com uma vela o livro de orações em alfabeto cirílico ou choravam sob os arcos de pedra.

Todos tinham vindo rezar no túmulo de São Nicolau, venerado por cristãos ortodoxos no antigo bloco soviético, na basílica que leva seu nome na cidade portuária de Bari, costa sul da Itália. Embora se encontre a mais de 1.600 quilômetros do conflito na Ucrânia e esteja unida em sua veneração ao santo, a congregação composta majoritariamente por mulheres trajadas com um longo casaco de inverno é uma representação pitoresca de tudo que une e ao mesmo tempo divide sua terra natal.

Fiéis rezam pedindo paz na Basílica de São Nicolau, em Bari, na Itália, em três de março de 2022. A cripta do santo é ponto importante de peregrinação tanto para os católicos como para os ortodoxos. (Nadia Shira Cohe/The New York Times)
Fiéis rezam pedindo paz na Basílica de São Nicolau, em Bari, na Itália, em três de março de 2022. A cripta do santo é ponto importante de peregrinação tanto para os católicos como para os ortodoxos. (Nadia Shira Cohe/The New York Times)

Uma mulher vestida com o amarelo e o azul da bandeira da Ucrânia disse que havia pedido ao santo um milagre: o fim da invasão russa a seu país. Logo ao lado, uma mulher bielorrussa defendia o presidente russo Vladimir Putin, assim como o monge sérvio que auxiliava o bispo nas orações. Os fiéis russos perto do coral se recusavam a nomear os culpados pela guerra.

“O que Putin está fazendo é um pecado. Anos atrás, sofremos com a guerra. Sabemos que é uma coisa bárbara”, afirmou Lali Bubashvili, de 50 anos, que é da Geórgia, ex-república soviética, sentada em um banco no fundo da igreja, rememorando a invasão russa a seu país.

As supostas relíquias de São Nicolau foram trazidas do local onde hoje é a Turquia por marinheiros há mil anos, e seus ossos estão sepultados em Bari desde então. Embora a basílica que os abriga seja católica romana, uma vez por semana os fiéis ortodoxos são convidados a usar a cripta para efetuar uma cerimônia religiosa própria.

A presença das relíquias faz com que a cidade de Bari seja uma inusitada conexão entre a Itália e a Rússia, e entre a Igreja Católica Romana e a Ortodoxa Russa.

Em 2007, o próprio Putin veio a Bari e se ajoelhou diante do túmulo de São Nicolau, assim como fazem os fiéis que agora rezam pela paz. Em 2009, a Itália devolveu à Rússia a posse de uma igreja ortodoxa com o nome de São Nicolau, para fortalecer os laços com Moscou.

Anos antes, Putin doara uma estátua do santo que fica na praça em frente à basílica, além de uma placa assinada em homenagem “à amizade e à cooperação”, dedicada “aos cidadãos de Bari”.

Mas, com a invasão da Ucrânia por Putin, a antiga cripta e a cidade ao seu redor se tornaram um inesperado satélite para o sofrimento e a amargura do conflito. Nas ruas de Bari, a guerra causa tensões entre residentes ucranianos e russos, e dor de cabeça aos políticos locais.

Os habitantes fizeram recentemente um abaixo-assinado pela retirada da placa com a dedicatória de Putin. Embora o prefeito de Bari, Antonio Decaro, tenha deixado flores amarelas e azuis em fevereiro aos pés da estátua de São Nicolau, em solidariedade à Ucrânia, ele se opôs à remoção da dedicatória, alegando que isso significaria cancelar uma parte da história. “Não querem remover a placa de Putin; a mão da Rússia está presente demais por aqui”, observou Inna Honcharenko, de 38 anos, que é de Vinnytsia, perto de Kiev, enquanto organizava voluntários que recolhiam donativos para a Ucrânia em outra área da cidade.

Na igreja ortodoxa russa, com sua cúpula verde em formato de cebola, uma mulher explicava, por trás dos portões fechados, que o templo não estava recebendo visitantes, embora estivesse funcionando normalmente. “Este é um território da Federação Russa”, informou.

O padre da igreja, Viacheslav Bachin, negou-se a responder a perguntas sobre a guerra. Referiu-se à posição do patriarca Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa Russa, que geralmente se alinha a Putin e que deixou de evitar achar culpados pela guerra na Ucrânia para responsabilizar o Ocidente.

Em 2017, em um gesto para melhorar as relações entre a Igreja Católica Romana e a Ortodoxa Russa, o papa Francisco emprestou ao patriarca Cirilo algumas das relíquias de São Nicolau, que deixaram a basílica pela primeira vez em cerca de mil anos. No dia em que a relíquia emprestada – supostamente a costela esquerda, a mais próxima ao coração de São Nicolau – chegou a Moscou, Putin beijou a caixa de vidro que a protege.

Na cripta da basílica, Bachin movimentou o turíbulo com incenso ao redor do túmulo, adornado com lanternas e ícones, e o bispo Gedeon, importante bispo ortodoxo de Kiev cujo nome de batismo é Yuriy Kharon, liderou as orações. Aparentemente, era uma mensagem de reconciliação. Mas o bispo é membro da Igreja Ortodoxa do Patriarcado Russo na Ucrânia.

Em 2019, em meio às crescentes tensões com a Rússia, a Ucrânia estabeleceu uma Igreja Ortodoxa autônoma, alterando uma tradição religiosa de vários séculos, segundo a qual a igreja de Kiev estava subordinada a Moscou. Naquele ano, o governo da Ucrânia deportou Gedeon e revogou sua cidadania, por ter ativamente apoiado o ataque armado da Rússia ao país.

Parte da justificativa de Putin para a guerra foi acusar, sem provas, os ucranianos de planejar a “destruição” da Igreja do Patriarcado de Moscou em Kiev. A dissidente Igreja Ortodoxa Ucraniana denunciou veementemente a invasão russa como fratricídio.

No fim da cerimônia, Gedeon, cuja cidadania ucraniana foi depois restituída judicialmente, declarou: “Desejem paz a todos, não julguem uns aos outros.” Enquanto os fiéis deixavam a basílica, ele disse que é essencial “não buscar culpados”, rezar e buscar o diálogo.

Mas alguns fiéis presentes na cripta tinham uma ideia bem clara de quem é o responsável. Larisa Dimetruk, de 62 anos, que é de Lutsk, no noroeste da Ucrânia, contou que viera suplicar a São Nicolau que fizesse com que os russos detivessem seu presidente: “Só o povo é capaz de contê-lo. Não viemos aqui para rezar juntos; viemos em busca de um milagre.”

Alguns, no entanto, eram apoiadores de Putin. Larysa Makarava, de 50 anos, bielorrussa que mora em Bari, afirmou que antes da cerimônia havia levado a filha, que agora estava ao seu lado, ao oftalmologista, e que este dissera que achava Putin um louco. “Retruquei que não é nada disso. Abri seus olhos! Putin está sendo forçado a fazer isso. Não está contra o povo”, garantiu ela.

Outros estavam divididos e não queriam falar de política. “Nossas lágrimas secaram”, resumiu Olga Sebekina, de São Petersburgo, na Rússia, que informou que sua avó era ucraniana e que ainda tem parentes no país. “Qual lado do meu coração deve sofrer mais?”

c. 2022 The New York Times Company

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