Cientista chinês condenado por editar genes de bebês volta ao mundo das pesquisas

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O cientista He Jiankui, 41, no apartamento em que vive em Pequim - Chang W. Lee - 18.out.25/The New York Times

Por criar os primeiros bebês geneticamente editados do mundo, He Jiankui ganhou o apelido de Dr. Frankenstein chinês. Ele foi condenado em seu país sob a acusação de enganar autoridades médicas e acabou preso em 2019, passando três anos encarcerado.

Hoje, em uma China que intensifica suas ações com o desejo de se tornar uma superpotência em biotecnologia, o pesquisador de 41 anos vive e fala abertamente, vangloriando-se de seu trabalho. Ele atua em um centro de pesquisa apoiado pelo governo e que fica ao norte de Pequim.

He, que teve seu passaporte apreendido e não pode sair do país, não foi nem silenciado nem totalmente reabilitado. A questão é por quê.

“Para um país que é adepto da censura e do controle, curiosamente ele está livre”, disse Benjamin Hurlbut, professor associado no departamento de ciências da vida da Universidade do Arizona (Estados Unidos). Ele conhece o cientista chinês há anos.

“Em um período de crescente tensão entre a China e o Ocidente, em um momento em que a China está fazendo progressos significativos em tecnologia, ele não é visto como um passivo, mas aparentemente é visto como um potencial ativo”, acrescentou o docente.

Na avaliação do cientista chinês, existe uma demanda crescente por pesquisadores com o perfil dele: dispostos a ultrapassar os limites. He concedeu uma entrevista em seu apartamento, fornecido, junto com um guarda-costas, por um patrocinador financeiro que ele se recusou a nomear.

O experimento de edição de embriões de He, anunciado pelo cientista em 2018, produziu gêmeas e posteriormente um terceiro bebê de outro casal. Mas também causou indignação porque pouco se sabe sobre a segurança e os efeitos de longo prazo na saúde. Abriu, ainda, o que muitos viram como uma caixa de Pandora no caminho para bebês projetados ou eugênia.

Mas, diferentemente dos bilionários do Vale do Silício que buscam maneiras de gerar bebês mais inteligentes, He insiste que seu trabalho visa apenas prevenção. “Se alguém usar isso para melhorar o QI, coloque o cientista na prisão”, disse ele, argumentando que seu experimento foi orientado para criar bebês resistentes à infecção pelo HIV.

He disse que retomou sua pesquisa de edição genética em um laboratório em Pequim, concentrando-se em maneiras de eliminar a doença de Alzheimer, que sua mãe tem, e a distrofia muscular de Duchenne, ou DMD, uma doença neuromuscular hereditária. Ele acrescentou que estava usando apenas camundongos, não humanos.

O pesquisador afirmou não se arrepender de seu trabalho anterior. A seu ver, ele estava à frente de seu tempo. “As pessoas ainda não estavam prontas para aceitar o que eu estava fazendo.”

Mas isso, na avaliação dele, está mudando. Ele citou uma pesquisa de opinião realizada pela Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou, indicando apoio público no país para o uso de edição genética para prevenir doenças. Além disso, mencionou recentes regulamentações do governo chinês voltadas a pesquisas sobre “novas tecnologias biomédicas”.

Para He, o esforço do país para se tornar líder mundial em ciência e tecnologia significa que é apenas uma questão de tempo até que ele seja aclamado como pioneiro da edição genética, pelo menos na China.

O trabalho de He em embriões humanos, usando uma técnica conhecida como Crispr-Cas9, não era tecnicamente muito difícil, segundo Hurlbut. Contudo, o fim para o qual o pesquisador chinês a utilizou o tornou um “centro de gravidade para questões morais e geopolíticas mais amplas”.

Discreto sobre suas atuais afiliações, He entusiasma-se ao falar sobre como a biotecnologia chinesa está avançando à frente da pesquisa americana, que ele vê como limitada por comitês de revisão ética, reguladores meticulosos e medo do desconhecido.

“A edição genética chinesa dominará o mundo assim como os veículos elétricos chineses já fizeram”, afirmou ele.

De acordo com ele, uma série de acusações de cientistas americanos de que seu experimento desrespeitou a ética médica mostra por que os EUA perderão para a China na biomedicina.

O ar de mistério que cerca He se estende a sua vida pessoal. No início de 2024, ele se casou com a empresária de biotecnologia Cathy Tie, nascida na China. Mas o casal se separou depois que ela foi impedida de entrar no país.

Tie administra uma startup chamada Manhattan Genomics e diz trabalhar para desenvolver “terapias de correção genética seguras e éticas”. Ela compartilha as crenças de He sobre o potencial da China para impulsionar o futuro da tecnologia.

Segundo a empresária, os EUA ainda tinham vantagem na área, mas ressaltou que “a China historicamente teve uma execução muito rápida em tecnologia de ponta, particularmente na medicina, e se beneficia de menos regulamentação”.

Ela se recusou a discutir por que foi impedida de entrar na China e a comentar uma mensagem enigmática que publicou na plataforma social X sobre o escrutínio que, a seu ver, o campo atrai: “A China acha que sou uma espiã da CIA, e os EUA acham que sou uma espiã do Partido Comunista da China”.

O atual líder da China, Xi Jinping, estabeleceu a meta de o país assumir a liderança global em ciência e tecnologia até 2049, o centenário da chegada do Partido Comunista ao poder. O governo investe fortemente para se tornar líder em “tecnologia de manipulação genética”.

“Eu não vou colocá-las em uma gaiola e deixar que as pessoas tirem seu sangue e as dissequem. Elas [as crianças com genes editados] são humanas, então não as tratem como camundongos” —- He Jiankui, cientista chinês.

Regras recém-estabelecidas na China proíbem a modificação do DNA em células reprodutivas humanas como espermatozoides, óvulos ou embriões —o tipo de pesquisa que He realizou antes de sua prisão.

Mas elas aparentemente também deixam uma brecha para esse tipo de trabalho, uma vez que dizem que o departamento de saúde do Conselho de Estado supervisionará todas as pesquisas que “manipulam células reprodutivas humanas, zigotos ou embriões e os implantam no corpo humano para permitir que se desenvolvam”.

He considerou as novas regras ambíguas sobre se o uso de tais embriões para criar um bebê geneticamente editado poderia ser permitido no futuro, mas também as viu como “um sinal de que a China está se abrindo neste campo”.

Em outro possível sinal deste último ponto, cientistas chineses que em 2019 assinaram uma carta aberta denunciando o trabalho de He agora permanecem em silêncio. Mensagens enviadas pela reportagem do jornal The New York Times a 20 dos signatários perguntando se mantinham sua posição ficaram sem resposta.

Hurlbut, que trabalha com ética médica, afirmou que as ambições científicas da China poderiam explicar por que He “não está sendo tratado como um ex-presidiário” e recebeu liberdade para expressar suas visões entusiasmadas.

Hé disse que estava “muito orgulhoso” de ter criado “bebês saudáveis e bonitos” em Shenzhen —três meninas— para dois casais. Nos três casos, o pai era HIV positivo.

Onde as meninas vivem é mantido em segredo e o estado de saúde delas não foi verificado de forma independente. “Eu não vou colocá-las em uma gaiola e deixar que as pessoas tirem seu sangue e as dissequem”, afirmou o cientista chinês. “Elas são humanas, então não as tratem como camundongos.”

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