Como a educação se tornou um campo de batalha nos EUA
Professores, pais e estudantes participam de aula ao ar livre em frente à escola pública Patrick F. Daly, em 2 de setembro no bairro do Brooklyn, em Nova York, nos EUA — Foto: Angela Weiss / AFP
Robin Steenman leva uma caixa preta cheia de livros coloridos até a mesa da cozinha e tira alguns deles. As páginas são vasculhadas e marcadas com post-its. A pilha inclui títulos como Cavalo-marinho: o peixe mais tímido do mar, Separar nunca é igual: a luta de Sylvia Mendez e sua família pela dessegregação e A história de Ruby Bridges. Para Steenman, essas páginas são evidências de que o ensino falhou.
Ela é presidente do Moms for Liberty, (Mães pela Liberdade, em tradução livre), um grupo conservador que defende o direito dos pais de terem voz na educação dos filhos no Condado de Williamson, no estado do Tennessee. O grupo se opõe à forma como alguns livros estão sendo usados nas escolas públicas locais.
“As escolas não deveriam empurrar uma ideologia para meus filhos”, diz Steenman. “Devem ensiná-los efetivamente a ler, a escrever, a fazer cálculos e a entender ciências para que possam seguir em frente e ter sucesso na vida. Mas este currículo está mais focado em sua própria mensagem e em sua própria agenda do que em capacitar as crianças”.

O Moms for Liberty apresentou uma queixa oficial ao Departamento de Educação do Tennessee no final do ano passado, afirmando que os livros e material didático “revelam ensino antiamericano, antibranco e antimexicano explícito e implícito” e que apresentam “uma agenda fortemente tendenciosa, que faz com que as crianças odeiem seu país, umas às outras e/ou a si mesmas”.
A reclamação foi rejeitada. Mas o caso ressalta uma tendência crescente nos EUA, onde um movimento liderado por conservadores está reprimindo a educação e, em particular, o que as escolas ensinam às crianças. Ele mira em livros e materiais didáticos em todo o país e contesta a forma como racismo, gênero e sexualidade são abordados.
Escolas como campo de batalha
Isso coloca as salas de aula e bibliotecas mais uma vez na linha de frente das guerras culturais nos Estados Unidos.
De acordo com a Associação Americana de Bibliotecas, houve “729 objeções para materiais e serviços de bibliotecas, escolas e universidades em 2021, resultando em mais de 1.597 contestações ou remoções de livros individuais”.
É o maior número de tentativas de banimento de livros desde que a organização começou a contabilizar esse tipo de dado, em 2000. A maioria desses livros era de ou sobre pessoas negras ou LGBTQ+, disse a associação.
E isso ocorre mesmo após uma pesquisa da associação ter indicado que a maioria dos americanos, não importa de qual partido político, se opõe aos esforços para remover livros das bibliotecas públicas e escolares.
“[Proibir livros] é uma característica comum na história americana e, de certa forma, tem muito a ver com o tipo de contexto mais amplo das guerras culturais, que sempre fizeram parte da história americana”, afirma Andrew Hartman, professor de história na Illinois State University e autor de Uma Guerra pela Alma da América: Uma História das Guerras Culturais.
“Esse debate entre conservadores em grande parte religiosos e liberais em grande parte seculares remonta à década de 1920 de várias maneiras, mas realmente se intensificou desde a década de 1960 e os movimentos de libertação, direitos civis, feminismo, direitos dos gays”, explica.
Batalha não se limita aos EUA
Essa batalha pela censura não é nova e nem se limita aos EUA. Desde os nacional-socialistas da Alemanha, que proibiram e queimaram livros que consideravam degenerados, até os radicais da revolução cultural chinesa, que destruíram livros que não estavam de acordo com sua ideologia política, materiais de leitura e didáticos têm sido um alvo comum ao longo da história em todo o mundo.

