Como bancos de Londres ajudaram ultrarricos e criminosos a ocultar fortunas

0
image(37)

Imagem do distrito financeiro de Londres, no Reino Unido. — Foto: Getty Images via BBC

Quando invadiu a Ucrânia, a Rússia chamou a atenção do mundo sobre o papel do Reino Unido na lavagem do dinheiro sujo do Kremlin. É um problema enorme, que ajudou a financiar a criação de uma autocracia agressiva que agora está matando milhares de pessoas e expulsando milhões de suas casas. Mas isso é apenas uma parte de algo muito maior.

Não apenas a riqueza russa, mas dinheiro de toda parte do mundo é lavado em montantes assombrosos. Todos os anos, US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões) é roubado das nações em desenvolvimento, e uma parcela significativa deste valor passa por Londres ou seus paraísos fiscais satélites — a “lavagem offshore”.

Mas o que isso significa?

Pode parecer desconcertante, mas, no fundo, é uma ideia simples. Foi inventada na City de Londres (centro financeiro da capital britânica, equivalente à Wall Street em Nova York, nos EUA). E talvez seja a contribuição mais importante do Reino Unido na história recente. Sem o “offshore”, o mundo seria um lugar bem diferente.

Em 1944, já antevendo a vitória, os Aliados estavam planejando o mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Eles queriam construir um sistema financeiro global melhor do que aquele que levou à depressão da década de 1930 e à catástrofe da guerra, na sequência. Sua criação recebeu o nome do pequeno complexo americano onde ocorreram as negociações: Bretton Woods.

“Este sistema estabeleceu regras que dificultaram a transferência de fundos por meio das fronteiras”, segundo explica a historiadora Vanessa Ogle, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

“Qualquer entrada ou saída de fundos expressiva poderia ter um impacto desestabilizador — como aconteceu no período entre guerras —, por isso era destinado a ajudar os países a evitar fluxos excessivos de dinheiro indesejados e permitir que estabilizassem suas moedas e protegessem suas economias.”

Os financistas britânicos aceitaram, por sua vez, a necessidade de um sistema financeiro menos aberto e mais protetor, para dar ao mundo a oportunidade de se reconstruir — mesmo que isso significasse um papel menor para a City de Londres.

10 anos depois…

Mas a City não conseguia esquecer a época em que era o coração pulsante de um vasto império. E, na segunda metade da década de 1950, os banqueiros começaram a ficar inquietos. Um financista importante declarou que aquela situação era “como dirigir um carro possante a 20 quilômetros por hora”.

“As coisas estavam melhorando. A economia alemã estava mostrando sinais de forte recuperação e crescimento”, diz Ogle.

“Insatisfeitos com as medidas tomadas inicialmente, houve tentativas deliberadas dos banqueiros de criar dispositivos legais que permitissem a eles negociar com menos restrições, talvez sem violar as regras de Bretton Woods, mas sim [violando] seu espírito”, afirma a historiadora.

Um pequeno banco

O Banco Midland era um dos bancos da City de Londres. Era pequeno e queria crescer, mas as regras impediam que os bancos concorressem entre si em busca de clientes. Precisava de mais dinheiro. Em 1955, o Midland teve uma ideia brilhante, mas dependia de outro banco, não muito distante, que tinha o problema oposto. O Narodny de Moscou tinha sede na City, mas era de propriedade da União Soviética. E seu cofre estava abarrotado de dólares.

“Eles temiam que os fundos fossem expropriados e confiscados se fossem colocados nos Estados Unidos, dado o crescente antagonismo da Guerra Fria. Por isso, o dinheiro acabou em Londres”, explica Ogle. Havia então um banco que tinha muito pouco dinheiro, e outro que tinha dinheiro demais… só o que faltava era encontrar uma forma de “driblar” as regulamentações.

Foi quando alguém dentro do Midland percebeu que o banco não precisaria comprar os dólares. Bastava apenas pedi-los emprestados, evitando as restrições britânicas à compra de moeda estrangeira.

Com estes dólares, o banco inglês poderia comprar libras esterlinas e emprestar em troca de juros. Já o Narodny não apenas deixaria seu dinheiro fora do alcance dos Estados Unidos, como ainda teria lucro.

Os detalhes da operação são inacreditavelmente complexos, mas sua essência era muito simples. O acordo permitiu que o Banco Narodny ganhasse dinheiro se esquivando das restrições americanas, e que o Banco Midland ganhasse dinheiro se esquivando das restrições britânicas. E tudo poderia ter terminado assim, não fosse por uma notícia surpreendente vinda do Oriente Médio.

Negócio colossal

Em 1956, o Egito nacionalizou o canal de Suez, que até então era controlado pelos britânicos e pelos franceses. O Reino Unido e a França enviaram tropas, os Estados Unidos se opuseram — e tudo terminou em uma vergonhosa derrota. O poderoso império britânico sofreu fortes perdas. Mas das cinzas do desastre surgiu a oportunidade de um negócio realmente colossal.

“O Banco da Inglaterra e o Tesouro Britânico trataram de retrair o uso internacional da libra esterlina, o que tornou o dólar mais atraente porque não estava sujeito a esses controles”, conta Catherine Schenk, historiadora da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Os bancos da City dependiam anteriormente da libra esterlina para financiar o comércio. Com o acesso à moeda britânica cada vez mais restrito, eles buscaram uma nova fonte de dinheiro. Mas, quando os bancos comerciais seguiram o exemplo do Banco Midland e começaram a pedir dólares emprestados para financiar seus negócios cotidianos, tudo mudou.

“Esses dólares tinham uma espécie de status extraterritorial, pois não estavam sujeitos às regulamentações do Federal Reserve [o Banco Central dos Estados Unidos]. Isso deu aos banqueiros da City uma forma de cometer atos proibidos pelo sistema de Bretton Woods e pelas regulamentações nacionais vigentes”, explica Schenk. A City de Londres havia inventado uma das ferramentas financeiras mais importantes do século 20.

Eurodólares ao mar

Esses dólares foram apelidados de ‘eurodólares’. Poderiam ou não ser dólares reais, dependendo do que fosse mais rentável no momento. Os banqueiros se transformaram em piratas com chapéu-coco, que navegavam por um mar de dinheiro líquido, recebendo lucros com sua capacidade de ignorar as regras que todos os demais haviam respeitado.

Mas que nome dariam a este vácuo legal que haviam criado? Os banqueiros pegaram emprestado um termo do direito marítimo para descrever o que acontece quando se está em alto mar, onde as leis terrestres não se aplicam: “offshore”.

“[A operação] se converteu muito rapidamente em um mercado interbancário offshore, sem relação com nenhum organismo regulador nacional”, destaca Schenk. Aparentemente, ninguém no governo britânico havia percebido o que estava acontecendo. Mas os líderes do Banco da Inglaterra sabiam, e ficaram encantados.

Finalmente, depois da tortuosa jornada do pós-guerra, o poderoso motor da City de Londres começava a acelerar. Os bancos estrangeiros correram para abrir filiais em Londres para aproveitar os lucros disponíveis em um mercado não regulamentado. E, durante as duas décadas que se seguiram, o dinheiro que fluiu pela City varreu todas as restrições do sistema de Bretton Woods.

As tentativas de controlar os fluxos de capital para proteger a estabilidade e defender os níveis de vida passaram a ser ineficazes.

Um paraíso

Assim se formou a primeira ferramenta indispensável para lavar dinheiro: o mercado offshore, que liberou as riquezas dos controles externos. Mas Londres não era o lugar ideal para esconder o dinheiro, principalmente devido ao grande inimigo de todas as fortunas: os impostos.

Se os financistas britânicos realmente quisessem ajudar seus clientes, precisariam de mais do que uma brecha legal; precisariam de lugares onde este dinheiro ficasse a salvo. Para a sorte deles, não foi preciso procurar muito para encontrá-los.

Perto de Londres, no Canal da Mancha, fica a ilha de Jersey — que, por quase mil anos, foi mais ou menos britânica: é governada pela monarquia britânica, mas não faz parte do Reino Unido; e usa a libra esterlina, mas estabelece seus próprios impostos. Esta combinação era potencialmente bastante rentável.

“Até o final da década de 1950, havia uma cláusula na constituição restringindo os pagamentos de juros, o que, de forma geral, limitava o uso da ilha como paraíso fiscal às pessoas que realmente viviam ali”, afirma John Christensen, que ocupou altos cargos administrativos em Jersey e depois se tornou um ativista de destaque contra os paraísos fiscais.

Os lucros poderiam ser enormes, se a ilha se dispusesse a ser um pouco menos exigente. E foi o que aconteceu. Os políticos da ilha de Jersey eliminaram os incômodos obstáculos. Os banqueiros já estavam se esquivando das restrições americanas com o comércio de dólares por meio da City de Londres.

Mas movimentar seu dinheiro convenientemente pelas contas bancárias sem controle de Jersey permitiu a eles evitar também as restrições britânicas. E o melhor é que a manobra reduzia em mais da metade os impostos sobre os lucros.

“Na década de 1970, o imposto sobre as empresas no Reino Unido era de mais de 50% e, em Jersey, era de 20%”, explica Christensen.

“E Jersey ainda era geograficamente perfeita, porque era possível organizar em Londres uma reunião em Jersey, voar durante o dia e voltar para casa à noite.”

“Pouco a pouco, Jersey passou a ser um satélite muito próximo da City de Londres”, diz Christensen. Bancos da América do Norte e da Europa continental também abriram filiais na ilha. Mas a ilha de Jersey foi apenas o começo.

Novos paraísos

À medida que cada vez mais colônias britânicas conseguiam a independência, a vastidão do império começou a ocupar cada vez menos espaço no mapa. E as colônias remanescentes — Bermudas, Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas, Gibraltar e Anguilla — eram lugares pobres ou remotos demais para reivindicar sua independência.

Mas tinham um recurso natural para explorar: sua ligação com o Reino Unido. E, como aconteceu na ilha de Jersey, os políticos locais criaram brechas legais para retirar as restrições impostas ao dinheiro por outros países.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...