Congresso do Peru derruba presidente e declara cargo vago às vésperas das eleições
O ex-presidente interino do Peru, José Jerí, que deixou cargo por decisão do Congresso - Rodrigo Buendia/12.dez.25/AFP
por Folha de S.Paulo
Em mais um capítulo da grave crise política pela qual passa o vizinho, o Congresso do Peru aprovou na tarde da terça-feira (17) um pedido de censura para destituir o presidente interino José Jerí, por má conduta funcional e falta de idoneidade para exercer o cargo.
Com 75 votos a favor, 24 contra e 3 abstenções, os parlamentares resolveram colocar fim ao mandato-tampão de pouco mais, de quatro meses, do oitavo presidente do país desde 2016, que era alvo de duas investigações de suposto tráfico de influência.
Um novo presidente vai ser escolhido nesta quarta-feira (18), às 16h (horário de Brasília), e deve exercer o cargo, de forma interina, até 28 de julho. De forma inédita em sua história recente, o país ficará sem chefe de Estado por mais de 24 horas.
“Os presidentes das assembleias declaram vago o cargo de presidente da república”, anunciou o presidente interino do Congresso, Fernando Rospigliosi, após a votação. Eram necessários 58 votos para destituí-lo do cargo.
Rospigliosi havia anunciado que eram 115 os congressistas habilitados a votar, sendo que a maioria necessária para aprovação da censura seria de 58 votos.
Do lado de fora do Congresso, manifestantes pediam a destituição do presidente, acusando-o de má conduta.
Jerí enfrentava sete pedidos de censura impulsionados pela oposição de esquerda e por um bloco de partidos de direita.
A sua destituição acontece em meio a uma crise institucional no Peru, que começou nas eleições de 2016, marcada por conflitos entre um Parlamento forte e um Executivo fraco.
Ele assumiu a Presidência em 10 de outubro passado, substituindo Dina Boluarte, que também chegou ao poder após a queda do antecessor, Pedro Castillo, e que foi destituída por incapacidade para continuar governando.
Seu caminho até o centro do poder foi rápido: em quatro anos ele passou de legislador suplente, logo presidente do Congresso e presidente interino do país.
Ele entrou na política em 2013, quando ingressou no partido conservador Somos Peri, como militante. Em seguida, concorreu duas vezes, sem sucesso, a uma eleição para vereador de Lima.
Seu governo interino havia tido um início promissor, registrando quase 60% de aprovação em pesquisas e apoio da população à agenda contra o crime organizado.
“O mal que nos aflige no momento é o crime. O principal inimigo está nas ruas”, disse Jerí em seu primeiro discurso no Congresso, após ser empossado.
Neste mês de fevereiro, entretanto, a popularidade do presidente despencou para 37%.
As críticas contra Jerí ganharam força quando a Procuradoria-Geral da República iniciou um inquérito contra ele em janeiro por supostamente ter praticado tráfico de influência, após seu encontro secreto com um empresário chinês.
Sua situação piorou no mês seguinte, com outra investigação por suposto tráfico de influência relacionado à contratação de nove mulheres para sua administração.
Jerí alega inocência e afirma ter moral suficiente para permanecer no comando do país.
“Não cometi nenhum crime. Tenho plena capacidade moral para servir como Presidente da República”, declarou o político, em uma entrevista na TV no último domingo (15).
A decisão do Congresso ocorre em um momento delicado para o país, com eleições gerais marcadas para 12 de abril, que já contam com mais de 30 candidatos presidenciais.
O candidato Rafael López Aliaga (Renovação Popular) pressionava pela renúncia de Jerí, enquanto o embaixador dos Estados Unidos em Lima, Bernie Navarro, defendeu a continuidade do governo, afirmando que a mudança frequente de presidentes não é normal.
A Aliança pelo Progresso emitiu um comunicado no qual menciona que foi uma das primeiras a exigir a renúncia presidencial “porque o país não pode continuar enfrentando crises, mentiras e perda de confiança.”
Relembre os presidente do Peru desde 2016
- Ollanta Humala (jul.11-jul.16)
Ultimo líder peruano a concluir o mandato
- Pedro Pablo Kuczynski (jul.16-mar.18)
Eleito em 2016, renunciou antes de ser destituído por denúncias de corrupção
- Martín Vizcarra (mar.18-nov.20)
Foi vice de PPK, destituído pelo Congresso por denúncias de corrupção
- Manuel Arturo Merino (10.nov.20-15.nov.20)
Era presidente do Congresso, renunciou por falta de apoio
- Francisco Sagasti (nov.20-jul.21)
Presidia o Congresso, assumiu para completar mandato
- Pedro Castillo (jul.21-dez.22)
Eleito em 2021, foi destituído ao tentar um autogolpe
- Dina Boluarte (dez.22-out.25)
Foi vice de Castillo, deposta pelo Congresso por ‘incapacidade moral’
- José Jeri (out.25-fev.26)
Presidia o Congresso, foi deposto por ‘má conduta’ e ‘falta de idoneidade’