Criticada por vítimas de Epstein, secretária de Justiça de Trump bate boca em audiência sobre caso

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Vítimas de Jeffrey Epstein levantam a mão durante audiência da secretária de Justiça do governo Trump, Pam Bondi (em primeiro plano), no Congresso dos EUA - Roberto Schmidt/AFP

por Folha de S. Paulo

Vítimas de Jeffrey Epstein apontaram o que veem como falhas na condução do caso e exigiram a responsabilização dos envolvidos em entrevista na quarta-feira (11), horas antes de uma audiência sobre o tema com a secretária de Justiça, Pam Bondi, no Congresso dos Estados Unidos.

A revolta se intensificou após a divulgação de um novo lote com três milhões de documentos do caso. As vítimas descobriram que seus dados pessoais foram expostos publicamente. Ao identificar o vazamento, o Departamento de Justiça removeu milhares de informações do site.

Durante a acalorada audiência, Pam Bondi se comprometeu a preservar as vítimas e remover a censura dos nomes dos homens que teriam trocado mensagens com Epstein.

A brasileira Marina Lacerda, 37, que afirma ter sido abusada por Epstein aos 14, disse que ela e outras sobreviventes reivindicam segurança e dignidade. “Como o Departamento de Justiça foi capaz de ser tão cuidadoso em censurar o nome de homens poderosos e, ainda assim, falhou em proteger as sobreviventes?”, questionou.

“Nós temos vidas, famílias, e não escolhemos esses crimes. Não deveríamos pagar o preço novamente. Se outros documentos forem liberados, solicitamos que o Departamento de Justiça faça isso corretamente, censurando a identidade das sobreviventes”, disse Lacerda.

Os arquivos de Epstein citam diversos políticos e bilionários, entre eles o presidente dos EUA, Donald Trump, o ex-presidente Bill Clinton e o atual secretário de Comércio, Howard Lutnick. Entre empresários, aparecem nomes como Elon Musk, Bill Gates e Les Wexner.

Nesta semana, o Departamento de Justiça autorizou que congressistas visualizassem os documentos dos arquivos do caso Epstein sem censuras. A deputada democrata Pramila Jayapal afirmou, durante a entrevista, que os documentos mostram pessoas que lideram governos, bilionários, secretários de gabinetes trocando emails com Epstein e demonstrando que sentiam que “estavam acima da lei”.

“Nesses emails, eles faziam piada sobre pedófilos, sobre atos sexuais horríveis com meninas jovens, e muitos achavam que fossem sair impunes. Mas a terra está se mexendo. Pelo mundo, príncipes, embaixadores e até primeiros-ministros estão caindo. Aqui nos EUA, isso também precisa acontecer. Não vamos parar até que haja Justiça e responsabilidade”, afirmou a deputada.

Ironia, discussões e ‘o maior presidente da história’

A secretária de Justiça criticou e ironizou os questionamentos feitos a ela sobre o caso de Epstein. A audiência com Pam Bondi foi marcada por discussões dela com congressistas democratas e até com republicanos.

Apesar do depoimento ter sido centralizado no caso Epstein, também foram citados os casos de agentes federais de imigração, que foram responsáveis pela morte de dois americanos, Alex Pretti e Renee Good. A esses questionamentos Bondi se limitou a responder que há investigações em andamento.

Em meio às vozes exaltadas, Bondi afirmou que o deputado republicano Thomas Massie sofre de uma “síndrome de perturbação por Trump”. Massie é o coautor da lei de transparências dos arquivos de Epstein e crítico da condução do Departamento de Justiça à frente do caso.

Bondi pediu que os parlamentares mantivessem “a postura” e, ao ser cobrada por democratas, acusou-os de não exercer a mesma pressão pela divulgação dos arquivos durante o governo de Joe Biden.

Em outro momento, a deputada democrata Pramila Jayapal questionou Bondi sobre as vítimas, que sentaram nas fileiras atrás da secretária durante a audiência.

“Você se desculpou às sobreviventes na sua declaração de abertura pelo que elas passaram nas mãos de Jeffrey Epstein. Você vai se virar agora para elas e se desculpar pelo que o seu Departamento de Justiça fez elas passarem com a divulgação absolutamente inaceitável das informações delas nos arquivos do caso?”

Bondi começa a responder ao questionamento criticando a congressista pela postura dela quando Merrick Garland, antecessor de Bondi, foi convocado pela mesma comissão para falar sobre o assunto. Jayapal, então, cortou Bondi, pedindo que ela respondesse à pergunta que fez. A secretária disse que não “abaixaria o nível por causa do teatrinho” da congressista.

Em outro momento, após pergunta do democrata Jerry Nadler, Bondi foi novamente interrompida ao tentar desviar de responder diretamente à pergunta feita. “Com licença, eu vou responder à pergunta”, disse Bondi, elevando a voz. Nadler retruca: “Responda à minha pergunta”. Bondi, então, afirma: “Eu vou responder à pergunta como eu quiser, seu teatrinho é ridículo.”

Questionada sobre a relação de Trump e Epstein, Bondi manteve a lealdade ao presidente, característica pela qual é conhecida no governo. “Isso é tão ridículo”, disse a secretária, acrescentando que os congressistas estavam tentando desviar o foco de todas os “grandes feitos que Trump fez”. Em diversos momentos, a secretária elogiou o chefe e o qualificou de o “maior presidente de toda a história”.

Ao divulgar os arquivos em dezembro, o Departamento de Justiça afirmou que os documentos continham informações falsas e sensacionalistas sobre o presidente dos EUA. Na nova leva divulgada no fim de janeiro, a pasta reafirmou a defesa.

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