Debate sobre escala 6×1 gera disputa entre Boulos e sindicatos
Guilherme Boulos. Foto: Fábio Vieira
Por Folha de S.Paulo
A proposta de acabar com a escala 6×1, em que há folga de um dia após seis trabalhados, desagradou e abriu uma disputa entre os sindicatos e o ministro Guilherme Boulos (Secretária-Geral da Presidência da República).
Segundo relatos ouvidos pela Folha, Boulos estaria levando o debate para o caminho puxado pela pauta da deputada Erika Hilton (SP-PSOL), de seu partido, para reduzir a jornada para 36 horas com foco no fim da escala 6×1. Já os sindicatos defendem que a jornada seja reduzida de 44 para 40 horas semanais, mas sem entrar no mérito dos dias trabalhados, algo que ficaria a cargo de negociações coletivas entre representantes de trabalhadores e empresas.
Procurado, o ministro Guilherme Boulos e a Secretaria-Geral não responderam até a publicação desta reportagem.
Para lideranças sindicais, Boulos estaria retirando o protagonismo que deveria ser do Ministério do Trabalho e dos sindicatos.
Em entrevista ao C-Level, videocast da Folha, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, disse que a proposta do governo será a de uma redução no número de horas, das atuais 44 para 40 horas. Ele afirmou que a mudança para 36 horas, como previsto em PECs (Proposta de Emenda Constitucional), não é plausível, mas o corte menor tem chance de passar.
Marinho minimizou o atrito com Boulos, mas não escondeu seu descontentamento com os rumos do debate. “Temos um presidente [Lula] que, se tiver qualquer saia justa, ele coloca a saia certa no governo.” Ele deixou claro que o foco da discussão está na redução das horas semanais de trabalho e de uma negociação da grade em negociação com os sindicatos.
“O pior dos mundos é continuar como está. Se o relatório do deputado não é o ideal para A ou para B, mas pode ser o possível, é melhor do que está”, disse Marinho, que é ex-sindicalista e dirigiu a CUT (Central Única dos Trabalhadores).
Lideranças sindicais se queixam de que Boulos tem buscado fortalecer nas discussões as frentes dos movimentos sociais em detrimento dos sindicatos e do Ministério do Trabalho. Na última segunda-feira (2), Boulos organizou um evento em São Paulo dando destaque para os representantes das frentes Povo sem Medo e Frente Brasil Popular, o que causou mal-estar entre dirigentes sindicais.
Desde o início, o ministério tem se posicionado sobre a necessidade de manter a relevância dos sindicatos nessa negociação.
Por trás dessa disputa está o risco de esvaziamento do papel dessas entidades nas negociações diretas sobre o formato da escala para atender cada tipo de setor e empresa.
“No atual debate sobre redução de jornada e fim da escala 6×1, é preciso fortalecer os sindicatos, prejudicados com mudanças no governo Temer e Bolsonaro”, afirma o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Juruna.
Para ele, a Secretaria-Geral da Presidência, ao priorizar as frentes populares de movimentos sociais em vez do movimento sindical, até nesse debate sobre relações de trabalho, contraria o Ministério do Trabalho, que busca afirmar o papel da negociação coletiva entre empresários e trabalhadores por meio de suas organizações sindicais.
“Na entrevista à Folha, Luiz Marinho reproduz o que já tem ouvido do movimento sindical há anos: 40 horas semanais na lei e escala definida em acordos e convenções coletivas”, afirmou.
O Sindicato dos Motoboys de São Paulo, ligado à UGT (União Geral dos Trabalhadores), cobrou diversas vezes para que “sindicatos legítimos de motofrete” tivessem presença nas discussões do grupo de trabalho que tratou do tema.
A entidade diz que Boulos convocou reiteradamente “associações que não representam a categoria profissional, que não possuem registro sindical, que não têm legitimidade constitucional para negociar e que reúnem, quando muito, um pequeno número de associados.”
Uma nota assinada pela CUT, Força Sindical, UGT (União Geral dos Trabalhadores) e outras centrais em fevereiro diz que a posição das entidades é pela redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1 simultaneamente.
O mesmo documento exalta, porém, o papel dos sindicatos na redução da jornada para certas categorias, como metalúrgicos, bancários e petroleiros.
Eles afirmam que esses exemplos reforçam a importância dos acordos e convenções coletivas, “respeitando as especificidades e os ritmos próprios de cada setor produtivo.”
A disputa por protagonismo no tema da escala 6×1 faz lembrar o que ocorreu no tema da regulamentação do trabalho por aplicativos, hoje em discussão na Câmara dos Deputados.
O tema começou a ser discutido num grupo de trabalho no Ministério do Trabalho, comandado por Marinho. De lá saiu projeto regulamentando a profissão de motorista de aplicativo, mas não avançou.
Em 2025, voltou ao Congresso5, com o PL 152, relatado pelo deputado federal Augusto Coutinho (Republicanos-PE).
Empossado como ministro da Secretaria-Geral da Presidência, órgão responsável pela interlocução com movimentos sociais, Boulos assumiu a dianteira da negociação, que também tem participação do Trabalho.
Em condição de anonimato, um parlamentar disse à Folha que a relação entre as pastas de Boulos e Marinho é “mal resolvida”.