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É anterior a Malthus a preocupação com a “explosão demográfica”. Programas governamentais visaram a atenuar o problema, cuja natureza foi equivocadamente definida como “quanto mais cabeças maior a pressão sobre os recursos disponíveis”.

Embora distintos, humanos e bovinos são animais; qualquer fazendeiro sabe que, com as práticas vigentes, sua terra permite alimentar tantas cabeças, mas não duas ou três vezes tal número. O mesmo se aplica aos humanos no único planeta que temos. Claro, a tecnologia pode, às vezes, ampliar a “capacidade de carga”, ou seja, a quantidade de cabeças (humanas ou bovinas) que podem sobreviver no território sem degradá-lo.

Mas a tecnologia volta e meia traz problemas inesperados. Há décadas, só especialistas sabiam que a queima de combustíveis fósseis envenena a atmosfera. Os plásticos trouxeram grandes benefícios, mas hoje comprometem a biosfera. A “revolução verde” aumentou a safra, mas danificou rios, mares e solos. O cigarro foi louvado e estimulado, e interesses poderosos, letais, degradantes e criminosos postergaram enquanto puderam restrições ao seu consumo, como ocorre hoje com os fósseis, os plásticos, os refrigerantes, etc..

A questão não é, simplesmente, o total de pessoas, mas a pressão que elas exercem sobre o território.

Se tomarmos o consumo per capita de energia como indicador, ainda que aproximado, dessa pressão, temos que em 2019 cada norte-americano “pesava” 79,9 mil kWh. Já o inglês, com elevado padrão de vida, consumia 32,2 mil kWh e o suíço, idem, 36,5 mil. Ou seja, nesse planeta cheio – de gente, de plástico, de gases de efeito estufa, de lixo e de muitas outras coisas – , não faz sentido imaginar que consumir mais implique melhor qualidade de vida, nem que menos signifique viver pior.

O indiano, por sua vez, consumia 6,9 mil kWh. Conjuntamente, indianos pressionavam o planeta em 9,5 bilhões kwh, enquanto norte-americanos “pesavam” 26,4 bilhões kWh, ou 2,8 vezes mais que aqueles asiáticos. A pressão consumista é mais grave que a densidade populacional!

Não se trata de reviver Malthus, mas de reconhecer o óbvio e tirar as conclusões decorrentes: a capacidade de carga do planeta é finita. Consumir mais não resolve: é preciso consumir melhor. A tecnologia ajuda mas não trará a “solução”.

Esta virá a partir da decisiva opção política pelo rápido fim da dupla degradação: dos humanos e da natureza. Dos humanos, escravizando ou sendo escravizado, vivendo em abjeta pobreza ou perseguindo o título de mais rico, discriminando, etc. Da natureza pela poluição, desmate, assoreamento, desertificação, etc.

Superar e vencer essa dupla degradação é a chave para, nos limites da capacidade de carga do planeta, tornar a vida humana “boa”.

Substitua-se o objetivo de “crescer o PIB” pelo de “reduzir as degradações” e iniciaremos o caminho para um futuro “humano” e sustentável. Tudo o mais é conversa para bovinos dormirem e humanos comprometerem o futuro, seu e de outros animais.

Eduardo Fernandez Silva. Ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados

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