Diddy é culpado de duas de cinco acusações, escapa de pena mais grave e pode pegar 20 anos de prisão

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Retrato do rapper Sean Combs, conhecido como "Diddy" - Reuters

O rapper Sean “Diddy” Combs foi considerado culpado, na quarta-feira (2), pelos crimes de transporte para fins de prostituição nos casos envolvendo suas ex-namoradas, Cassie Ventura e uma mulher anônima, que usou o pseudônimo de Jane. O julgamento começou em maio e se estendeu por cerca de dois meses, após depoimentos de 34 testemunhas.

Ele foi inocentado de extorsão, crime pelo qual poderia até ser condenado à prisão perpétua, assim como acusações de tráfico sexual de Ventura e de sua outra ex-parceira, que poderiam condená-lo a 20 anos de prisão.

A sentença deve ser definida até outubro e o músico pode receber uma pena de até 20 anos de prisão —dez para cada um dos crimes. O júri considerou que Combs providenciou o transporte de homens, através de um estado ou fronteira estrangeira, para participar de orgias com suas ex-namoradas, com base na chamada lei Mann, de 1910. De pronto, a defesa sugeriu uma fiança de US$ 1 milhão, cerca de R$ 5,5 milhões, que foi negada pelo juíz.

Embora não seja uma absolvição, já que a sentença ainda pode lhe impor décadas preso, Diddy comemorou o veredito com euforia. Sorriu para sua família e advogados, fez um gesto de oração e agradeceu ao júri num sussurro.

Em frente ao tribunal em Manhattan, fãs também celebraram o resultado, se lambuzando com óleo de bebê —um dos elementos que supostamente mais circulavam nas chamadas “freak-offs”, as orgias promovidas por Diddy e de onde surgiram várias das acusações de estupro e agressão que o cantor recebeu nos últimos meses.

Diddy foi figura-chave da cultura e da música dos Estados Unidos das últimas décadas —se firmou como um dos magnatas da indústria ao longo de três décadas de carreira, unindo as carreiras de músico, produtor, padrinho de estrelas como Jay-Z, Pharrell Williams e Drake e desafeto de outros tantos, entre eles Kanye West e 50 Cent. Indicado a nove Grammys, venceu três.

Produziu e lançou um dos álbuns de rap mais bem-sucedidos da história. “No Way Out”, de Notorious B.I.G., que foi seis vezes disco de platina, ou seja, vendeu pelo menos 6 milhões de cópias.

Para analistas da imprensa americana, este julgamento foi o maior e mais midiático desde aquele que inocentou Michael Jackson das acusações de abuso sexual infantil há 20 anos.

Para enfrentar o julgamento federal, Diddy se cercou de um time jurídico robusto, com oito advogados e diversos consultores jurídicos, com nomes como Teny Geragos e Marc Agnifilo —que representa Luigi Mangione, acusado de assassinar o CEO de uma operadora de seguros de saúde nos Estados Unidos. Especialistas estimam que os honorários desse processo devem passar dos US$ 10 milhões —uma pequena fatia frente à fortuna do rapper, avaliada em US$ 1 bilhão.

A maior vitória da defesa foi convencer os jurados de que Diddy não chefiava de uma organização criminosa e nem de que as ex-namoradas de Combs foram coagidas a participar das orgias com garotos de programa ao longo de anos.

Em seus argumentos, os advogados destacaram mensagens de texto nas quais as mulheres pareciam mostrar entusiasmo pelos encontros. Elas, por sua vez, em seus depoimentos, afirmaram que apenas falavam o que Diddy queria ouvir e que estavam presas a relacionamentos abusivos.

A defesa pediu que Combs fosse libertado ainda na quarta-feira (2), já que ele está preso desde setembro do ano passado. Já a promotora Maurene Comey afirmou que a defesa estava minimizando a gravidade da condenação e pediu que Diddy continuasse detido.

A sessão no tribunal retornou pela tarde, quando o juiz Arun Subramanian anunciou que a sentença de Diddy será definida até outubro, negou a fiança proposta pela defesa e anunciou que o artista permanecerá preso.

Os jurados do caso chegaram a uma decisão na manhã desta quarta, após terem deixado o tribunal, na terça, com dúvidas sobre uma das acusações. Com 12 pessoas, o júri é um grupo racialmente diverso de oito homens e quatro mulheres, com idades entre 30 e 74 anos. Eles deliberavam sobre o caso desde segunda, e foram cerca de 13 horas de discussão.

Ao longo do processo foram avaliados imagens e vídeos relacionados às acusações contra o magnata da música —dentre eles o do espancamento de Ventura, em 2016, no corredor de um hotel, enquanto ela tentava fugir de uma orgia—, acompanhando também argumentos da defesa e da promotoria.

Diddy criou as ilustres “festas brancas”, que aconteciam desde 1998 em suas casas em Nova York, Miami, Los Angeles e St Tropez, e na qual os convidados se misturavam a celebridades como as irmãs Kardashian, todos vestidos de branco.

A crise envolvendo Diddy se estende desde novembro de 2023, quando Ventura acusou o músico de abuso e tráfico sexual. A ação foi retirada no dia seguinte, após as partes chegarem a um acordo milionário confidencial.

A investigação federal que gerou este julgamento começou em março do ano passado, quando a polícia realizou buscas simultâneas em propriedades de Diddy em Los Angeles, Nova York e Miami. Foram apreendidos dispositivos eletrônicos, drogas, armas de fogo não registradas e mais de mil garrafas de óleo de bebê e lubrificante íntimo.

Problemas com a lei não são novidade na vida do produtor musical. Na época em que Diddy namorava a atriz e cantora Jennifer Lopez, entre 1998 e 2001, um tiroteio em uma boate, em que três pessoas ficaram feridas, provocou a prisão de ambos.

A atriz, aliás, foi provavelmente quem entrou no clube noturno com a arma na bolsa. Diddy e J.Lo acabaram inocentados, mas o rapper Jamal “Shyne” Barrow, na época com 20 anos, acabou condenado a nove anos de prisão pelo incidente.

Uma das pessoas feridas no tiroteio daquela noite de 1999, Natania Reuben, afirma até hoje que foi Diddy quem atirou nela. Ela foi baleada no rosto e, em 2008, entrou com um processo de US$ 130 milhões contra o rapper. O processo foi resolvido fora dos tribunais em 2011.

Entenda o caso

Sean Combs, conhecido como “Puff Daddy”, “P. Diddy” ou simplesmente “Diddy”, era uma das figuras mais bem-sucedidas do mundo do rap. Em 2017, liderou uma lista da Forbes de celebridades mais bem pagas –ele havia faturado US$ 130 milhões, ou R$ 705,9 milhões, em 12 meses.

Cassie Ventura acusou Diddy de abuso físico e sexual durante anos de relacionamento, além de tráfico sexual, em novembro de 2023. Segundo ela, o rapper agredia-a fisicamente, forçava-a a manter relações sexuais com terceiros e coagia-a a usar drogas.

O processo foi retirado no dia seguinte, após as partes chegarem a um acordo confidencial milionário. Esta foi a primeira grande acusação feita contra Diddy, abrindo a porta para o escândalo que veio em sequência.

A investigação federal começou em março de 2024, quando a polícia realizou buscas simultâneas em propriedades de Diddy em Los Angeles, Nova York e Miami. Durante essas ações, foram apreendidos dispositivos eletrônicos, drogas, armas de fogo não registradas e mais de mil garrafas de óleo de bebê e lubrificante íntimo.

Em maio, um vídeo de uma agressão contra Ventura, ocorrida em um hotel em 2016 e gravada por câmeras de segurança, é divulgado pela imprensa americana. Nele, o rapper bate, arrasta pelo chão, puxa pelos cabelos e chuta a então namorada.

Em setembro, ele foi preso por tráfico sexual, transporte para fins de prostituição e extorsão, declarando-se inocente de todas as acusações. Nos dias seguintes, Diddy teve sua fiança negada três vezes.

Passaram a surgir uma série de acusações de abuso e agressão sexual contra Diddy. Segundo o advogado Tony Buzbee, foram mais de 100 queixas contra o rapper, incluindo o abuso sexual de menores de idade. Novamente, ele se declarou inocente e disse que suas relações sexuais haviam sido consensuais.

O julgamento iniciou-se em 5 de maio. A fase de testemunhos se estendeu até 24 de junho, com os principais depoimentos vindo de Ventura, Jane, o rapper Kid Cudi e a cantora Dawn Richard. Diddy escolheu não prestar depoimento, e a defesa não apresentou nenhuma testemunha.

Ventura afirmou que frequentemente era forçada a ter relações sexuais sem consentimento e com terceiros, padrão que se repete no caso de Jane, ex-namorada com identidade protegida –segundo ela, Diddy utilizada drogas e álcool para mantê-la “submissa”.

A defesa de Diddy procurou descredibilizar as mulheres que denunciaram o rapper, destacando o período longo de tempo que mantiveram relações com ele.

De acordo com a promotoria, esses abusos foram cometidos com a ajuda de “fiéis tenentes” e “soldados rasos” que existiam para atender às suas necessidades.

No centro de sua argumentação está a afirmação de que os funcionários de maior escalão —incluindo seu chefe de equipe e os seguranças, nenhum dos quais testemunhou— estavam cientes de suas ações e as facilitaram, e que o rapper recorreu ao “poder, à violência e ao medo” para controlar suas vítimas.

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