Diretora de hospital reforça que mãe de Alícia deixou unidade com a garota sem autorização
Alícia Valentina morreu após ser espancada por colegas na escola, em Belém do São Francisco — Foto: Reprodução /Redes Sociais
por Folha de S.Paulo
A diretora do hospital regional de Belém do São Francisco, no interior de Pernambuco, que fez o primeiro atendimento de Alícia Valentina, 11, afirma que não houve negligência no caso da menina e que sua mãe deixou o local antes do fim do atendimento.
A criança foi agredida por um colega da escola em 3 de setembro e morreu quatro dias depois, após a formação de um coágulo no cérebro em um hospital de Recife.
A médica que atendeu a menina afirmou, por meio da diretora, que não poderia falar sobre o caso com a Folha.
Câmeras de segurança do colégio mostram o momento da confusão, que aconteceu às 13h de uma quarta-feira. O vídeo mostra o momento que Alícia se aproxima do local da agressão, retorna chorando com a mão no ouvido e nariz e relata o ocorrido para uma funcionária da instituição de ensino.
A prefeitura afirma, por meio de nota, que a criança foi encaminhada para o hospital logo após a agressão.
Em entrevista à Folha, a diretora do hospital, Gisele Scarlet, diz que a jovem chegou à unidade hospitalar com dores e relatou o ocorrido para a médica.
A diretora afirma que não pode informar o que estava descrito no prontuário médico, porém argumenta que todos os documentos que envolvem o caso já foram encaminhados para a Polícia Civil de Pernambuco, que conduz a investigação do caso —o adolescente responsável pela agressão foi apreendido na quarta-feira (10).
O hospital diz que a garota foi atendida, medicada e deveria aguardar a médica passar novamente para vê-la antes de ser liberada. Porém, ela saiu com a mãe antes disso. A versão já tinha sido divulgada pela gestão municipal e negada pela família da jovem.
Em entrevista à reportagem na quinta-feira (11), a mãe, Ana Vilka Lima, e tias afirmam que a família foi liberada após a medicação e que foram passados alguns remédios, como dipirona e ibuprofeno.
O hospital da cidade não possui equipamentos para exames de raio-X e tomografia. Por isso, quando há casos de maior complexidade, o paciente é transferido para o hospital da cidade vizinha, localizada em Salgueiro, a cerca de 77 quilômetros de distância de Belém do São Francisco.
Em um primeiro momento, diz o hospital de Belém de São Francisco, a menina não foi encaminhada de prontidão para Salgueiro que porque, apesar da agressão, aparentava estar bem, conversava e andava normalmente. Além disso, conseguiu descrever o que ocorreu para a médica.
Scarlet não detalhou que exames foram realizados no local, mas a diretora afirma que essas informações estão no prontuário médico.
Segundo a diretora da unidade, a mãe da jovem foi orientada que ela deveria ficar em observação e aguardar o retorno da médica antes de ser liberada.
De acordo com o consultor jurídico da secretaria de saúde municipal, Bernardo Maniçoba Coelho, no dia o hospital estava com uma “movimentação muito grande e ela saiu sem comunicar a médica, a equipe e nem ninguém”. A saída da menina aconteceu por volta das 14h.
No início, diz ele, foi especulado que a criança teria sido vítima de um espancamento na escola —a informação foi registrada no boletim de ocorrência. No documento, é descrito que Alícia teria sido agredida por quatro meninos e uma menina após supostamente recusar o pedido de um colega para “ficar” com ela —a agressão teria sido iniciada por ele.
A informação correta, afirma Coelho, é que a menina teve um desentendimento com apenas um colega, que teria dado um tapa nela.
Depois da saída do hospital, a criança e a mãe voltaram para casa. A jovem ainda reclamava de dor e o estado de saúde começou a piorar. Vizinhos lembram que a menina voltou chorando alto pela rua e andando com a mão no ouvido.
A mãe relata que retornou à UBS (Unidade Básica de Saúde), onde foi identificado um sangramento no ouvido e informado que, se a menina estivesse com muita dor, que deveria procurar novamente o hospital. O hospital afirma que a menina só retornou por volta das 19h30, quando já estava inconsciente.
Naquele momento, foi constatada a necessidade de transferência para o município vizinho.
Na nova unidade, o estado de saúde de Alícia piorou e ela foi transferida para o Recife. Para a transferência, a unidade de Salgueiro solicitou reforço de equipe para Belém do São Francisco. A diretora da unidade afirma que os profissionais foram cedidos para fazer o transporte de Alícia. “Onde fomos culpados nisso se a gente prestou toda essa assistência?”, indaga a diretora.
No Recife, a morte cerebral foi constatada no domingo (7).
Além da Secretaria de Saúde, a prefeitura e a Secretaria de Educação também não concederam entrevista, limitando-se a responder por meio de nota.
A reportagem esteve em Belém do São Francisco, cidade de Alícia, quinta e sexta-feira. Nos dois dias, tentou ouvir o prefeito Calby Carvalho Cruz (Republicanos) no gabinete e pelo telefone.
Na primeira ocasião, foi informada de que ele estava em reunião e com a agenda cheia. No dia seguinte, a assessoria afirmou que, devido à falta de água que atingiu a cidade naquela semana, o prefeito estava voltado exclusivamente para essa demanda e, por isso, não poderia atender à imprensa.
A equipe recomendou que a reportagem buscasse a secretária de Educação, Socorro Duarte, e a direção da escola onde ocorreu a agressão.
A secretária informou, no entanto, que não pode dar entrevistas até a conclusão da investigação. Declarou apenas que se tratou de um caso isolado e que algumas medidas no ambiente escolar estão sendo revistas, como a possibilidade de incluir um auxiliar para monitorar os alunos.
Na escola, funcionários se recusaram a comentar o caso. A diretora da unidade, Ana Angélica, também não se pronunciou e encaminhou nota oficial em que a instituição manifesta pesar pela morte de Alícia e afirma ter prestado socorro imediato após a agressão.
A reportagem ainda tentou contato com o delegado responsável pela investigação, mas ele não estava na cidade na quinta —acumula também a função no município vizinho, de Floresta.
Na delegacia, na sexta-feira (12), esta reportagem foi informada de que os investigadores não poderiam se manifestar. Em nota, enviada por email, a Polícia Civil de Pernambuco declarou que, por ora, não está se pronunciando sobre o caso e que a investigação segue em curso.
Doce e educada, menina espancada andava com irmã gêmea e estava sempre arrumada
Alícia Valentina, a menina de 11 anos que morreu após ser agredida por ao menos um colega de sua escola, é lembrada como doce e educada. Na rua onde vivia, em Belém do São Francisco, no sertão de Pernambuco, vizinhos contam que ela costumava abraçar e pedir bênção quando passava.
Para ir e voltar da escola, fazia sempre o mesmo caminho e cruzava com as vizinhas Lucimeire Rita de Araújo, 49, e Maria Eliane Silva, 50, a quem perguntava se precisavam de algo e sempre desejava bom dia.
Uma amiga da família, que pediu para não ser identificada, contou que a menina costumava ir a sua casa, onde brincava com os filhos pequenos, gravava vídeos e assistia à TV.
A alegria e a tranquilidade de Alícia são lembradas pela mãe, Ana Vilka Lima, 53. Ela afirma que a filha não costumava dar trabalho, tampouco se queixava de colegas na escola. Também nunca relatou problemas de convivência na instituição em que estudava.
Alícia tinha uma irmã gêmea. A mãe trabalha como cozinheira, e a tia, Ana Virgínia Lima de Aguiar, costumava ajudar a cuidar das meninas. Ela conta que Alícia estava nas aulas de catequese e que faria a primeira comunhão no ano que vem.
Uma das professoras, que também pediu anonimato, contou que a semelhança com a irmã às vezes a confundia em sala de aula. Quando uma delas pedia para ir ao banheiro, não conseguia saber qual das duas era. Ela também recorda que, além da semelhança, a parceria entre as gêmeas era visível para todos.
A semelhança entre as duas não confundia apenas na escola, mas também na vizinhança. Alguns diziam que a única forma de diferenciá-las era observar uma mancha na perna que uma tinha e a outra não.
Mesmo tão jovem, Alícia sonhava em ser modelo e gostava de andar sempre bem arrumada. Magra e alta, caminhava com a irmã pelas ruas sempre com os cabelos penteados.
As vizinhas contam que costumavam brincar com elas: “Aonde as paquitas da Xuxa vão?”. “Chamávamos as duas de ‘paquitas da Xuxa’ porque não conseguíamos identificar quem era quem, e elas riam muito”, lembra Maria Eliane.
A tristeza, porém, é unânime quando falam da morte precoce da menina. Uma das vizinhas afirma que ninguém tem o direito de “tirar a vida de ninguém”. “Se fosse Deus que tivesse levado, estaríamos conformados. Mas assim ninguém se conforma”, diz Lucimeire.
A escola, que ficou três dias de luto, retomou as atividades nesta quinta-feira. Na entrada, uma faixa preta foi erguida em homenagem a Alícia. Segundo relatos, a irmã voltou a se encontrar com amigos da rua e passou a chamar Alícia de “estrelinha”.