Do apoio popular à ditadura, chavismo dominou últimas décadas na Venezuela; entenda

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Um membro da Milícia Bolivariana passa por mural com a imagem do ex-presidente Hugo Chávez - Maxwell Briceno/Reuters

por Folha de S.Paulo

O ataque dos EUA contra a Venezuela e o anúncio da captura de Nicolás Maduro encaminham o fim do chavismo, que dominou o país por mais de 25 anos. O movimento político começou com grandes expectativas e respaldo popular, mas degringolou nos anos seguintes em um processo de acúmulo de poder e perseguição a opositores.

Entenda, a seguir, como o modelo implementado por Hugo Chávez (1954-2013) definiu os rumos da Venezuela no século 21 e impactaram a política de toda região.

Como era a Venezuela antes de Chávez?

A Venezuela vive seu primeiro longo período democrático a partir de 1958, após o fim de uma ditadura militar. Os principais partidos formam um acordo conhecido como Pacto de Puntofijo para governar o país, e a economia da nação passa a variar entre períodos de bonança e crise, a depender das flutuações no preço do petróleo.

Nos anos 1970, a crise global eleva os preços internacionais, levando à nacionalização da indústria petrolífera com a criação da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.). Embora tenha recebido investimentos e implementado programas sociais, o país começa a se endividar e a sofrer uma grave crise econômica que faz a pobreza aumentar novamente.

A partir dos anos 1980, a população já se mostra insatisfeita com o pacto dos partidos Ação Democrática, União Republicana Democrática e Copei. Os governos eleitos não conseguem resolver os problemas do país, e cada presidente culpava o anterior pela situação. É nesse cenário que Hugo Chávez, um jovem comandante militar, ganha a confiança dos venezuelanos após tentar derrubar o presidente Carlos Andrés Pérez, em 1992. Perdoado, ele se apresenta como candidato e vence as eleições em 1998.

Homem pula em cima de automóvel durante manifestação conhecida como “Caracazo” em fevereiro de 1989, em Caracas – Divulgação

A situação social era tensa na década de 1990, ainda marcada pelo trauma do “Caracazo”, uma revolta popular em 1989 contra as reformas econômicas do governo. A resposta violenta do Executivo gera indignação e apoio a Chávez, que se apresenta como uma figura distante da elite política e que promete mudança e renovação para o país.

Chávez vence as eleições presidenciais, iniciando uma nova fase para o país. Ele promete enfrentar a corrupção, a pobreza e a desigualdade, fundando uma nova república com justiça social. Após assumir o cargo, lança programa de combate à pobreza que incluía construção de estradas, moradias e vacinação em massa.

Nos anos seguintes, as chamadas Missões Bolivarianas fortalecem o apoio popular. Administradas por diversas agências e ministérios governamentais, as missões oferecem programas de alfabetização de adultos, assistência médica comunitária e subsidiam compra de alimentos e outros bens de consumo.

A imagem retrata um grupo de pessoas em um evento político, com o foco em um homem sorrindo, vestindo um gorro vermelho, e uma mulher ao seu lado. A composição da cena parece ser de um evento ao ar livre, possivelmente um comício ou manifestação, com um grande número de pessoas reunidas. O homem com o gorro vermelho e a mulher formam o ponto focal, centralizados na imagem. A interação entre eles parece ser amigável, possivelmente com a mulher se voltando para o homem. Em segundo plano, outros rostos e detalhes de faixas e cartazes indicam um ambiente político ou partidário. O enquadramento é amplo, mostrando o contexto do evento.
O então candidato presidencial Hugo Chávez, acompanhado de sua mulher, Marisabel, durante uma marcha por Caracas para a abertura oficial de sua campanha – Bertrand Parres – 8.ago.98/AFP

Como o chavismo passou a acumular poderes?

Um ano depois de chegar ao poder, Chávez já sofre críticas por aparelhar postos-chave do Estado. Ele aproveita para reformar a Constituição e substituir a de 1961. O mandato presidencial passa de 5 para 6 anos, com reeleições por até dois mandatos, o Legislativo perde força, e o Judiciário começa a ser cooptado. O país também passa a se chamar República Bolivariana da Venezuela. O governo forma uma milícia para se proteger, e a relação do país com os Estados Unidos é desgastada.

Em 2005, o chavismo vence eleições que lhe deram o controle da Assembleia Nacional. Em 2006, derrotando Manuel Rosales, o presidente é reeleito por mais seis anos e nomeia Nicolás Maduro ministro de Relações Exteriores. Neste período, com o avanço do preço internacional do petróleo, o governo ganha força e investe em programas sociais ao mesmo tempo em que censura meios de comunicação que não estão alinhados ao chavismo.

Em 2009, o chavismo consegue aprovar uma reforma constitucional para permitir a reeleição indefinida. Um baque para o regime acontece quando, em 2011, o presidente revela que sofre de câncer e passa por uma série de tratamentos em Cuba. Em 2012, ele é reeleito, tendo Maduro como vice.

Por que, com Maduro, o país caminhou para uma ditadura?

Hugo Chávez morre em 2013. Ao se ver como herdeiro político do chavismo, Maduro antecipa eleições e vence a disputa contra o opositor Enrique Capriles, mas essa vitória já é cercada de suspeitas e acusações de fraudes. Os anos de bonança do petróleo chegam ao fim, e o país, novamente, se vê em uma grave crise econômica, com aumento dos problemas sociais e da violência. O chavismo reprime protestos e prende opositores.

O governo dos Estados Unidos declara a Venezuela uma ameaça à segurança nacional e impõe sanções a oficiais militares por violações dos direitos humanos. Em dezembro de 2015, a oposição vence as eleições parlamentares, mas manobras do Executivo inviabilizam o funcionamento da Assembleia controlada pelo antichavismo. Convoca-se uma Assembleia Constituinte de fachada, em um movimento que configura de vez a conversão da Venezuela em uma ditadura.

Em 2018, Maduro reivindica uma nova vitória, com 68% dos votos em eleições antecipadas boicotadas pela oposição e com novas acusações de fraude. A crise econômica e humanitária se aprofunda, com hiperinflação atingindo níveis alarmantes. Em protesto à posse de Maduro para um segundo mandato, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, se proclama presidente interino, sendo reconhecido por mais de 50 países.

Em reação às violações dos direitos humanos e à deterioração da democracia, o governo dos EUA impõe sanções à petroleira PDVSA, impactando severamente o regime. O número de refugiados venezuelanos escala, sobretudo para a Colômbia e outros países da região. O Departamento de Justiça dos EUA acusa Maduro de narcoterrorismo.

Apesar das dificuldades, a oposição e o chavismo assinam acordos, em Barbados, para garantir eleições justas em 2024. María Corina Machado vence as primárias da oposição, mas tem sua candidatura inabilitada pelo regime. Edmundo González assumiu a candidatura da oposição.

Sem surpresas, a ditadura afirma que Maduro foi o vencedor da disputa, tendo sido reeleito com 52% dos votos contra 43% de González, e que atas divulgadas pela oposição demonstrando o contrário são falsas —mas não divulga os documentos oficiais, a despeito da pressão internacional. Em 2025, com a volta de Donald Trump à Casa Branca, o chavismo entra novamente na mira dos EUA. A investida logo no início de 2026 deve acelerar seu fim.

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