Domiciliar para Bolsonaro teve articulação de família e Tarcísio e processo sigiloso em hospital

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Alexandre de Moraes autorizou que ex-presidente volte para condomínio onde mora em Brasília em razão dos problemas de saúde; leia bastidores de como foi para ele tomar esta decisão

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Tarcísio pede prisão domiciliar para Bolsonaro: “Questão de justiça”

A prisão domiciliar humanitária por 90 dias concedida a Jair Bolsonaro (PL) pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira, 24, teve nos bastidores uma articulação da família do ex-presidente e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e um processo sigiloso no hospital DF Star, onde ele está internado desde 13 de março.

Bolsonaro chegou ao hospital com um quadro de febre alta, queda da saturação de oxigênio, sudorese e calafrios, segundo o boletim médico. Os exames confirmaram uma broncopneumonia bacteriana “de provável origem aspirativa”, causada pela entrada de líquido do estômago ou da boca nas vias respiratórias.

O estado de saúde de Bolsonaro elevou a pressão sobre o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso que levou à condenação de Bolsonaro a 27 anos por tentativa de golpe de Estado, e disparou uma série de ações para transferir o ex-presidente para casa.

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado do pai Paulo Cunha Bueno se reuniram com Moraes na terça-feira passada, 17, para insistir pela domiciliar. Na quinta-feira, foi a vez de Tarcísio, que fazia uma série de reuniões com ministros do STF para tratar da privatização da companhia de saneamento do Estado de São Paulo, tocar no assunto com o magistrado.

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No mesmo dia, Moraes pediu à direção do DF Star, num processo sigiloso, informações atualizadas sobre a situação de saúde de Bolsonaro. O pedido chegou ao vice-presidente da Rede D’Or, Pablo Meneses, responsável pelo setor jurídico do grupo.

O DF Star enviou um prontuário que reiterava a gravidade da situação de Bolsonaro apontada nos boletins médicos que vinham sendo divulgados à imprensa.

Um aliado de Bolsonaro a par dessas conversas diz que as informações prestadas pelo hospital no âmbito do processo sigiloso foram fundamentais para convencer Moraes.

Na segunda-feira, 23, foi a vez da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro se reunir com Moraes para pedir pela transferência. Ela vinha relatando às pessoas próximas que o marido precisa de acompanhamento durante o sono.

A preocupação de Michelle, segundo relatos, é que os remédios tomados pelo marido para conter os soluços levam a um sono pesado que o impede de acordar com o refluxo gástrico. E que a ex-primeira-dama costumava acordar durante a noite para colocá-lo de lado na cama, evitando a broncoaspiração.

O temor de Michelle seria de que, sozinho na cela no presídio da Papudinha, Bolsonaro voltasse a broncoaspirar assim que ele voltasse à prisão em regime fechado. A decisão tomada por Moraes nesta segunda garante 90 dias de domiciliar para o ex-presidente.

A autorização foi comemorada por bolsonaristas nas redes sociais e nos grupos de mensagens, mas tratada como insuficiente. O ex-vereador Carlos Bolsonaro colocou ressalvas na decisão.

“É óbvio que fico extremamente aliviado em finalmente ver meu pai em casa, podendo ser cuidado de forma mais adequada, aumentando sua possibilidade de sobreviver frente a tantas comorbidades médicas expostas ao longo de meses. Mas isso não pode ser tratado como justiça e nem celebrado como tal, frente a um processo repleto de ilegalidades”, escreveu Carlos.

Além dos 90 dias como prazo da domiciliar, Moraes determinou “a suspensão de todas as demais visitas pelo prazo de 90 (noventa) dias, correspondente ao período de recuperação do custodiado, para resguardar o ambiente controlado necessário, principalmente para se evitar o risco de sepse e controle de infecções, conforme anteriormente salientado.”

A exceção é para Michelle e as filhas Laura e Letícia, que moram com Bolsonaro no condomínio Solar de Brasília, além dos filhos Flávio, Carlos e Jair Renan, em horários previstos, e os advogados, além de acompanhamento médico.

Lideranças bolsonaristas consultadas pelo Estadão dizem acreditar que Moraes teve como objetivo prejudicar as negociações eleitorais do partido ao manter o ex-presidente afastado do contato com políticos.

Se ficar afastado das visitas por três meses, até o fim de junho, Bolsonaro perderá um período-chave para a montagem das chapas nos Estados visando as eleições de outubro. No meio do ano começa a temporada das convenções partidárias, que servem para oficializar as candidaturas e preparar as campanhas.

“Esse é o único objetivo da proibição de visitas a ele. Atrapalhar as articulações políticas”, diz o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ). A opinião é compartilhada pelo líder na bancada no Senado, Rogério Marinho (RN).

“Obviamente foi para tirá-lo das articulações: ‘Olha, você vai pra casa, mas fica afastado da política’. Bolsonaro hoje é refém do Alexandre de Moraes. Não existe isso de regular visitas”, afirmou o senador Carlos Portinho, líder da oposição.

A opinião dos aliados é que Michelle sai fortalecida desse novo contexto, uma vez que será a única a passar o tempo todo com o marido — podendo ter maior poder de influência.

Bolsonaristas acreditam que parte dos ruídos de comunicação na direita, inclusive a crise com Michelle e André Fernandes no Ceará, que precedeu a jogada de Flávio para se cacifar como sucessor do pai, veio do fato de o ex-presidente estar mais inacessível e incomunicável na prisão.

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