Duas coisas diferentes: vencer e governar (por Roberto Brant)
No Brasil o período entre o fim do ano e o carnaval não é um bom tempo para pensar coisas sérias ou desagradáveis. A Covid, no entanto, continua mostrando que é mais forte do que a vontade dos homens e não respeita calendário, hábitos e tradições.
Confinados em casa e privados da alegre sociabilidade a que fomos sempre acostumados, só resta nos entregarmos a sombrias meditações. Desta vez o ano novo vai começar mesmo em janeiro, não mais na quarta-feira de cinzas.
É bom mesmo que o ano seja mais longo, pois nele podem ser decididas coisas muito importantes para o futuro deste país tão maltratado. Há muito o Brasil deixou de crescer e de se aproximar do padrão de vida dos países mais ricos. Pelo contrário, nos deixamos ultrapassar por países que foram por muito tempo mais pobres do que nós.
Esse fracasso nem sempre é muito aparente porque uma minoria enriqueceu muito e chegamos a ser um mercado atrativo para grifes de moda, automóveis de luxo e até para aviões executivos. Há filas para comprá-los.
Ao mesmo tempo multidões também formam filas desde a madrugada para comprar com desconto ossos com restos de alguma carne. É impensável imaginar que tal sociedade possa sobreviver em paz.
A partir de 2014 nossos problemas cresceram de dimensão e assumiram uma forma dramática. Nossa renda por habitante começou a cair e, se tudo correr melhor daqui para a frente, em 2028 devemos recuperar a renda que havíamos alcançado em 2013.
Nos tornamos retardatários em relação ao mundo. Os últimos três anos foram inteiramente perdidos, se pensarmos em crescimento da economia, redução da pobreza e em aperfeiçoamento institucional. Por sorte, no fim do ano teremos eleições gerais. Será que as urnas produzirão algum governo digno deste nome?
O sistema político brasileiro e as instituições de modo geral estão em crise profunda e deixaram de funcionar, ou seja, não constroem consensos nem facilitam a atuação do governo. Só promovem conflitos e imobilidade, funcionando numa esfera paralela, alheias à vida real das pessoas, suas necessidades e suas aspirações.
Eu diria que a política e os poderes da República vivem para si mesmos, sem nenhum senso de propósito ou finalidade. O país e sua população estão abandonados.
Há muitos candidatos à Presidência, mas até agora nenhum projeto de governo. Por projeto de governo quero dizer uma imagem do futuro a ser buscado, políticas públicas que correspondam ao objetivo e os meios políticos e institucionais a serem mobilizados para que sejam aprovadas e efetivamente realizadas.
O que se vê até agora não passa de culto a personalidades, vagas promessas e o convite ao antagonismo. Neste ambiente as urnas produzirão um vencedor, mas não um governo.
Se governar fosse tarefa de um homem, precisaríamos de um gigante na Presidência, para estar à altura de nossos problemas. Não temos nenhum no horizonte, embora sete ou oito candidatos já tenham se apresentado.
Governar o Brasil deve ser uma tarefa coletiva, um movimento que recolha dos escombros da política o que ainda temos de homens de bem que conciliem suas diferenças em torno de um projeto de governo, não de poder, e sem reeleição.
O que está em jogo não é apenas a melhoria do bem estar dos brasileiros. É a própria sorte das liberdades democráticas. Hoje no mundo os regimes autoritários têm se mostrado mais eficazes em entregar prosperidade aos seus povos.
Os chineses, por exemplo, segundo K. Mahbubani, um analista respeitado, apoiam o governo autoritário porque pensam que a qualidade da vida sobe quando o governo central é forte e cai quando ele é fraco.
Enquanto isso nas democracias, a falta de consensos e a proliferação dos conflitos paralisa os governos, dificulta a entrega de resultados e mantêm os problemas sem solução.
Nossas eleições correm o risco de ocorrerem num ambiente de fantasia e de irresponsabilidade. A esperança é que ainda em tempo os brasileiros resolvam olhar para cima e ver o perigo que se aproxima.