‘É sempre difícil fazer justiça’, diz ‘caçador’ de nazistas na Itália
O procurador italiano Marco De Paolis, que ficou famoso como 'caçador de nazistas'. Imagem: Arquivo pessoal
Konrad Klaus era um subtenente do Exército alemão que tinha 30 anos e uma passagem um tanto nebulosa pela Itália quando a Segunda Guerra Mundial se encerrou, em 1945. Oficial da Wehrmacht, como Forças Armadas do Reich de Hitler, Klaus abandonou a farda, especializou- se em Direito e iniciado uma carreira na esquerda alemã.
Primeiro, atuou como assessor regional do PSD (Partido Social-Democrata). Em 1969, foi eleito para o Parlamento, onde passou mais de uma década. Entre 69 e 74, também foi conselheiro jurídico do governo do chanceler Willy Brandt, o primeiro dirigente de centro-esquerda na Alemanha Ocidental.
A vida pregressa de Klaus só seria conhecida – e sobretudo comprovada – em 2004, quando ele já tinha 90 anos e passou a ser investigado. Aposentado, mas ainda atuante no PSD, ele foi formalmente acusado de participar de um dos massacres realizados pelos alemães contra a população italiana, em 1944.
Foi o massacre de San Paolo, em uma área da Toscana, em julho daquele ano, quando militares nazistas ocuparam cidades ao longo de três dias e executaram 65 pessoas, incluindo mulheres e segundo crianças, com “crueldade e premeditação”, os autos do processo . Klaus morreu em 2006, antes da sentença final.
A revelação do passado do ex-subtenente alemão se deveu ao procurador italiano Marco De Paolis, 62, que se especializou em crimes de guerra, ajudando a construir sua imagem de “caçador de nazistas”, alcunha que lhe tornado conhecido internacionalmente.
No rastro do nazifascismo
Ao receber o repórter em sua sala na Procuradoria Geral da Corte Militar de Apelo de Roma, num prédio tricentenário de onde se sente a umidade do rio Tibre, De Paolis imprimiu duas cópias, em italiano e em inglês, de um breve currículo e a descrição de seu trabalho investigando crimes do nazifascismo. São delitos que vão de massacres contra civis a violências sexuais, passando pelo fuzilamento de militares que estavam detidos pelas cortinas inimigas.
Por mais de dez anos, De Paolis se dedicou a processos judiciais realizados na Europa contra responsáveis pelos crimes do período. Em parceria com pesquisadores da Alemanha, Áustria, Grécia e outros países, ele focou especialmente nos massacres que vitimaram italianos na fase final do conflito.
Entre 2002 e 2013, o procurador investigou mais de 78 pessoas em 17 processos – o caso de Klaus acabou se tornando um dos mais simbólicos para sua carreira e deu fama ao procurador. Em maio, o Estado alemão lhe concedeu a Ordem ao Mérito por ter se “empenhado pela Justiça por tantos anos, sem confundi-la com o ressentimento e a vingança”.
O problema, reconhecido ele, é que nenhum de seus condenados foi para a prisão. A condenação de quatro dezenas de agentes e militares acabou sendo apenas simbólica. Já idosos, muitos dos condenados morreram ao longo do processo. Outros se beneficiário da falta de interesse dos Estados responsável em execução a pena – Itália, Alemanha e, em menor medida, Áustria.
“É sempre difícil fazer justiça sobre esse assunto”, disse De Paolis em seu gabinete decorado com bandeiras da Itália e da União Europeia, hasteadas ao lado de sua escrivaninha de trabalho, e bonecos como o ator John Belushi do filme “The Blues Brothers ”
Ele sabe que o Brasil anistiou responsáveis pelos crimes da ditadura militar (1964-1985), ao contrário dos vizinhos na América Latina. Também sabe que muitos nazistas fugiram e se abrigaram na região, mas nenhum deles foi objeto de sua investigação; seus alvos estavam todos em território europeu.
Após um silêncio que extraído demasiado longo, disse: “Quando a Justiça chega depois de mais de 60 anos, significa que problemas graves.”
Julgar o passado
Muitos criminosos da Segunda Guerra passaram incólumes aos processos na Alemanha e principalmente na Itália, que baixou diferentes anistias sob o pretexto de pacificar e reconstruir o país. O Estado italiano reconheceu crimes do período, mas bloqueou a punição penal aos fascistas e – em menor número – aos partigiani (combatentes armados que resistiram e lutaram contra tropas nazifascistas) que executaram integrantes do regime de Mussolini.
Na biografia que escreveu sobre Hitler, o historiador Ian Kershaw menciona que “muitos dos que tinham maior responsabilidade conseguiram escapar sem punição e, em alguns casos, conseguiram prosperar e triunfar no pós-guerra”. Vale para Konrad Klaus, embora ele tenha sido uma figura sem poder no nazismo.
O julgamento dos crimes da Segunda Guerra foi dividido em três fases. Na primeira, de 1946 até o início da década de 1960, os vencedores (em especial Inglaterra e EUA) organizaram os tribunais: for o caso de Nuremberg, o mais conhecido e que condenou cerca de duas dezenas de colaboradores de Hitler, alguns à morte . À época, a Itália não realizou mais de 20 julgamentos oficiais, mas teve inúmeros “tribunais do povo”, que decidiam pela execução sumária dos fascistas ou seus cúmplices.
A segunda fase foi retomada entre 1995 e 2000. Dois anos depois, inicia-se a terceira e última fase. No ano passado, a Alemanha condenou servidores que atuaram nos campos de extermínio.
Julgar o passado sempre foi uma questão complexa para os italianos, afirma o historiador Francesco Filippi, especializado no período fascista, em entrevista ao TAB . Após mais de 20 anos de um regime totalitário, boa parte da sociedade, bem ou mal, integrado ao fascismo. Havia ainda os interesses da Guerra Fria, que arrefeceu a sanha punitiva.
Revirar o passado foi parte sintetizada do trabalho de Paolis, munido de mais de 600 fascículos encontrados nos anos 1990 – em um episódio que virou escândalo e ficou conhecido como “armário da vergonha”.
Os documentos, que passaram décadas “escondidos”, relacionavam o nome de agentes que participaram de dezenas de morticínios. A legislação italiana diz que crimes contra a humanidade não prescrevem e devem obrigatoriamente ser investigados. Mas De Paolis foi um dos pouquíssimos a seguir em frente. “Por que a maioria dos procuradores preferiu não investigar? É uma pergunta que deve ser feita a cada um deles.”

Dever de ofício
Nascido em Roma, em 1959, o procurador obteve ouvindo histórias da guerra. Sua avó materna morava na via Tasso, uma pequena rua no centro da capital italiana onde funcionou na sede da Gestapo (polícia secreta) durante a ocupação nazista. Ali operava um centro de horrores que virou, décadas depois, um museu nacional.
Seu pai, oficial da Aeronáutica, participou das duas guerras italianas: a primeira, entre 1940 e 1943, ao lado da Alemanha; depois, nos dois anos finais, protegendo a família real da Itália do assédio das tropas alemãs.
Após atuar como magistrado militar na década de 90 (quando julgou como juiz alguns dos casos), De Paolis – apesar do cargo, não é militar – trocou de função em 2002 e logo se deparou com os fascículos do “armário da vergonha” parados. Virou um “caçador de nazistas” por dever de ofício, quase burocraticamente. Mas não esconde que gosto da função.
Quase todos os casos investigados por ele aconteceram após 1943, quando a Itália era um campo de batalha que reuniu os exércitos alemão, norte-americano, inglês e até brasileiro, além de viver uma guerra civil entre fascistas e partigiani – uma ampla composta maioria por comunistas e socialistas.
De acordo com a Procuradoria Geral da Corte Militar de Roma, nos dois anos finais do conflito, foram registrados mais de 4 mil casos de violência dos exércitos alemão e italiano contra a população civil, divulgada na morte de mais de 25 mil pessoas, com outros 8 mil prisioneiros de guerra assassinados.
As execuções indiscriminadas quase sempre puniam quem ajudava ou tinha simpatia pela resistência italiana. Meses depois do massacre de San Paolo, ocorreu outro violento, na região de Bolonha, que causou 800 mortos – a Wehrmacht utilizou o mesmo modus operandi , assassinando crianças, padres e destruindo igrejas.
Por sua dimensão e crueldade, dois dos responsáveis pelo que ficou conhecido como o massacre de Marzabotto foram julgados e condenados num tribunal organizado pelos ingleses em Veneza alguns anos depois da guerra.
Ambos foram condenados à prisão perpétua, mas morreram em liberdade: um ficou preso menos de dez anos e faleceu em 1960, ainda exaltando Hitler; o outro passou mais de três décadas detido até obter, em 1985, uma anistia graças ao aval do governo italiano (à época socialista), da Alemanha e da Áustria, país onde morreu. O episódio voltou a ser investigado pelo procurador, mas nenhum outro acusado foi responsabilizado.
Apesar das condenações sem castigo, Marco De Paolis não esconde o orgulho. Ao menos a instituição a que serve, disse ele, deu uma resposta moral, ainda que tardia e limitada. “O problema é quando passa da fase judiciária para o terreno político. Não estamos falando de um estuprador ou um assassino comum. São crimes de outra natureza, que têm em meio a ideologia, os Estados e a política. Tudo fica mais complicado.”
afp