‘Ele estava inchado, com a boca sangrando e desfalecido. Pensei que estava morto’: diz mãe de entregador intoxicado por ácido em hemodiálise

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O entregador Bruno Rodrigues Ventura dos Santos, de 29 anos — Foto: Arquivo pessoal

O entregador Bruno Rodrigues Ventura dos Santos, de 29 anos, está em coma induzido e internado há uma semana, em estado gravíssimo, após receber, por engano, uma substância usada para limpeza de máquinas de hemodiálise. O caso ocorreu na quarta-feira passada, na clínica Nice Diálise, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RJ), e a família do jovem denuncia que ele foi intoxicado por ácido peracético. O caso foi registrado na Polícia Civil.

​A mãe do jovem, Renata Rodrigues Ventura dos Santos, conta que a família percebeu uma movimentação estranha na Clínica Nice Diálise, conveniada ao SUS, logo após o filho entrar para a sessão de hemodiálise. Segundo ela, Bruno, que tinha doença renal crônica e dialisava três vezes por semana, chegou a dizer que não queria fazer o tratamento naquele dia, mas acabou entrando.

Entregador entra em coma após ser contaminado por ácido durante hemodiálise em São Gonçalo, diz família — Foto: Arquivo pessoal
Entregador entra em coma após ser contaminado por ácido durante hemodiálise em São Gonçalo, diz família — Foto: Arquivo pessoal

​— Ele demorou um pouco para entrar. Não demorou muito tempo, vi uma correria da equipe médica. A enfermeira entrou na sala do médico pedindo ajuda. Eu comentei com meu esposo que tinha alguém passando mal. Ficou um entra e sai da enfermeira, uma movimentação fora do comum — relata Renata.

​Preocupada, a mãe enviou mensagens para o filho, que não respondeu. A situação só ficou clara quando ela viu uma ambulância do Samu e, em seguida, uma dos bombeiros. Ao se aproximar, Renata viu o filho ser levado em uma maca.

​— Eu me desesperei e gritei. Ele estava todo inchado, com a boca sangrando e desfalecido na maca. Pensei que ele estava morto — lembra, emocionada.

Bruno deu entrada na clínica às 6h30, mas só foi socorrido após o incidente por volta das 8h. A família do entregador denuncia a negligência da clínica em prestar socorro e na aplicação do tratamento.

​Substância usada para limpeza causou hemorragia cerebral

​De acordo com a família, o médico da clínica informou ao pai de Bruno, Márcio Luiz Alves dos Santos, que durante a sessão houve um “acidente” e que ácido teria entrado no sangue do paciente. O pai do rapaz, que o descreve como um “jovem ativo”, registrou um boletim de ocorrência por lesão corporal. O documento, obtido pela família, aponta que havia resíduos do ácido na máquina de hemodiálise utilizada pelo entregador.

​Um laudo médico do pronto-socorro para onde Bruno foi levado corrobora a versão da família. O documento aponta que o paciente deu entrada com “rebaixamento do nível de consciência durante a sessão, secundária à infusão acidental de ácido peracético”.

Entregador entra em coma após ser contaminado por ácido durante hemodiálise em São Gonçalo, diz família — Foto: Arquivo pessoal
Entregador entra em coma após ser contaminado por ácido durante hemodiálise em São Gonçalo, diz família — Foto: Arquivo pessoal

​O quadro clínico de Bruno piorou rapidamente. O laudo ainda detalha que ele sofreu “hemorragia com edema cerebral difusa e anemia, além de distúrbios metabólicos e respiratórios”. Ele precisou ser entubado para conter um edema na glote e nas vias aéreas. Atualmente, permanece na UTI, sedado, entubado e em ventilação mecânica.

​A família, revoltada com o que chama de “erro inadmissível”, já procurou uma advogada e pretende processar a clínica.

​O que dizem as autoridades

​O ácido peracético é uma substância de uso comum em clínicas de diálise para desinfetar as máquinas, mas não pode entrar em contato direto com o sangue dos pacientes.

​Em nota, a Polícia Civil informou que o caso foi registrado na 72ª DP (São Gonçalo), e que “diligências estão em andamento para esclarecer os fatos”. A reportagem tentou contato com a Clínica Nice Diálise, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

​O tratamento de Bruno será longo e a família, que se reveza no hospital, afirma manter a esperança de que ele se recuperará.

—É orar e esperar. Tem que ver como ele vai reagir —diz a mãe.

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