Em última reunião ministerial do ano, Lula cobra ministros a divulgarem resultados do governo, relembra conversas com Trump e fala de possível criação do Ministério da Segurança Pública; saiba mais
O presidente Lula durante reunião ministerial na Granja do Torto - Adriano Machado/Reuters
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou na quarta-feira (17) os ministros a mostrarem à população os resultados obtidos pelo governo nos três anos deste terceiro mandato do petista.
O presidente fez a cobrança durante a última reunião ministerial de 2025, na Residência Oficial da Granja do Torto, em Brasília.
Na conversa com os ministros, Lula disse ter a impressão de que “o povo ainda não sabe o que aconteceu no país”. E lembrou que, em 2026, haverá disputa eleitoral.
“O dado concreto é que o ano eleitoral vai ser o ano da verdade, para mostrar quem é quem neste país, quem faz o que neste país, o que aconteceu antes de nós e o que acontece quando chegamos ao governo. Qual foi a mudança que houve na economia, na educação, na saúde, no transporte, nas políticas de inclusão social, na igualdade racial, na mulher, nos indígenas”, disse Lula.
“É importante que a gente tenha noção que nós precisamos fazer com o que o povo saiba o que aconteceu neste país. Eu tenho a impressão que o povo ainda não sabe. Tenho a impressão que nós ainda não conseguimos a narrativa correta para fazer com que o povo saiba fazer uma avaliação das coisas que aconteceram neste país”, completou o presidente.
Em outro momento da reunião, ainda em tom de cobrança, Lula voltou a dizer que os ministros precisam defender o governo.
“Não é o governo do Lula, às vezes, fico pensando, quando vocês falam: ‘Porque no governo do presidente Lula’. Dá a impressão que vocês não são governo. Vocês estão comigo esse tempo todo comigo. Então, o governo não é do presidente Lula. O governo é nosso. É isso que quero que aconteça a partir de agora”, declarou.
Na sequência, o petista afirmou que não quer ser grosseiro com nenhum dos ministros, mas que a comunicação do governo não é só responsabilidade dele e da Secretaria de Comunicação, chefiada por Sidônio Palmeira, mas de toda a equipe.
Lula também disse que a polarização política no Brasil atrapalha a avaliação do governo em pesquisas de opinião, mas que avalia que conseguiu “terminar o ano em uma situação amplamente favorável”.
“Embora isso não apareça com a força que deveria aparecer nas pesquisas de opinião pública. Não aparece porque existe uma polarização no país, como se fosse Corinthians e Palmeiras, Grêmio e Internacional, Flamengo e Vasco, ou seja, você tem uma realidade em que ninguém muda de posição”, afirmou Lula.
O presidente disse também que, no ano que vem, as pessoas “as pessoas terão a oportunidade de escolherem que tipo de país eles vão querer”.
Lula defende diálogo e diz que afirmou a Trump que ‘é mais barato conversar do que fazer guerra’
Ainda em conversa com os ministros na última reunião ministerial de 2025, na quarta-feira (17), Lula defendeu o diálogo do governo com o Congresso e como ferramenta para obtenção de resultados na política.
Ao falar sobre a importância da capacidade de negociação, o petista citou recentes conversas que teve com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmando que disse ao norte-americano que conversar “é mais barato do que fazer guerra”.
“Eu falei pro Trump: ‘Oh, Trump, fica mais barato conversar e menos sofrível conversar do que [fazer] guerra. Se a gente acreditar no poder do argumento, da palavra, a gente evita muita confusão na vida dos países'”, relatou Lula.
Ao comentar conflitos e tensões no cenário internacional, o presidente disse estar “preocupado com a América Latina”. Ele disse que afirmou a Trump que pode ajudar no diálogo com a Venezuela, mas ressaltou que é preciso “vontade e conversar” e “paciência”.
“Eu falei com o presidente Trump: ‘O poder da palavra pode valer mais do que o poder da arma’. Custa menos e demora menos se a gente tiver disposição de fazer. Eu disse ao Trump: ‘Se você tiver interesse de conversar com a Venezuela corretamente, nós temos como contribuir.’ Agora, é preciso ter vontade de conversar, é preciso ter paciência”, relatou.
O encontro de quarta (17) na Granja do Torto marcou o encerramento da agenda ministerial do ano e inclui uma avaliação dos três anos de governo, além da definição de prioridades para 2026.
No próximo ano, que será eleitoral, a expectativa é que alguns ministros deixem o governo para disputar cargos nas eleições.
Sobre o tema, Lula comentou o resultado de pesquisas de opinião e afirmou que 2026 será o “ano da verdade”.
“Nós conseguimos terminar o ano em uma situação amplamente favorável. Embora isso não apareça com a força que deveria aparecer nas pesquisas de opinião pública. Não aparece porque existe uma polarização no país, como se fosse Corinthians e Palmeiras, Grêmio e Internacional, Flamengo e Vasco, ou seja, você tem uma realidade em que ninguém muda de posição”, declarou Lula.
“No ano que vem, as pessoas terão a oportunidade de escolherem que tipo de país vão querer. Nós começamos o governo falando a palavra reconstrução e união, depois começou a falar que estava plantando e que este ano seria o ano da colheita, já anunciamos todas as políticas sociais que tinha que anunciar. O dado concreto é que o ano eleitoral vai ser o ano da verdade, para mostrar quem é quem neste país, o que aconteceu antes de nós e o que acontece quando chegamos ao governo”, acrescentou.
Juros para compra de caminhões
Também presente à reunião, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que Lula assinou uma medida provisória com o objetivo de baratear os juros para o financiamento de caminhões, uma demanda do setor produtivo do país.
“Estávamos com problema no caminhão, que custa R$ 700, R$ 800 mil. Financiamento de Máquinas e Equipamentos estava em 22%. Lula assinou ontem medida provisória, vamos reduzir esses juros e deve retomar a indústria de caminhões e setores mais pesados”, disse.
Alckmin também lembrou que o acordo Mercosul-União Europeia está próximo de ser concluído e disse que isso abrirá mercados para o Brasil.
Lula diz que vai criar Ministério da Segurança Pública se Congresso aprovar PEC sobre o tema
Ainda durante a última reunião ministerial do ano, o presidente Lula afirmou que vai criar o Ministério da Segurança Pública caso o Congresso Nacional aprove a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) sobre o tema e defina o papel da União na área.
Lula afirmou que hoje a competência da segurança pública é dos governos estaduais e, por isso, defendeu que seja esclarecido, por exemplo, qual é o papel da PF (Polícia Federal).
“Eu nunca quis discutir segurança pública porque não era papel do governo federal. A Constituição não dá ao governo federal o direito de interferir na segurança pública. Por menor que seja, a segurança pública é um problema do governador Renan quando ele assumir. E se a Polícia Federal se meter lá sem conversar com ele, ele vai pegar o telefone e dizer: ‘Presidente, está tendo interferência no meu estado'”, disse.
A criação do novo ministério, que seria desmembrado da Justiça, órgão atualmente comandado por Ricardo Lewandowski, é um reivindicação antiga de especialistas e voltou ao debate depois da operação no Rio de Janeiro que deixou 121 mortos.
Além disso, o peso dado à segurança pública se deve ao fato de o assunto ter virado um mote da direita para a eleição de 2026 e aberto um flanco de desgaste para o governo Lula. A PEC, no entanto, deve ser votada só em 2026, por falta de acordo.
Segundo o petista, “segurança pública significa mais dinheiro”, para investir em estrutura, pessoal e inteligência.
“E aí companheiro [Fernando] Haddad [ministro da Fazenda], companheira Simone [Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento], companheiro Rui [Costa, ministro da Casa Civil], não é com essa merreca de dinheiro que temos hoje que vamos criar a Segurança Pública. Senão, a gente fica desmoralizado”, completou.
Lula chama Motta e Alcolumbre de amigos e diz estar disposto a ‘aparar arestas’ com Congresso
O presidente Lula também defendeu na quarta-feira (17) maior diálogo com o Congresso Nacional e disse “não ter nada contra ninguém” ao citar os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
“Eu não tenho nada contra ninguém. Sou amigo do Hugo Motta, do [Arthur] Lira, do [Rodrigo] Pacheco, do Alcolumbre. Sou grato pelo que fizeram nesses três anos comigo e, na hora que surgir uma divergência, é importante lembrar que a gente precisa conversar mais, aparar as arestas. Estou disposto a fazer isso porque nós somos gratos por tudo que foi aprovado até agora”, afirmou.
“Eu não conheço na história um governo que conseguiu, num Congresso adverso como nós pegamos, aprovar metade do que aprovamos. É a vitória do bilateralismo, da negociação, da paciência, da conversa. É assim que a gente vai conseguir”, completou o petista.
As declarações de Lula são em um contexto de reaproximação entre a cúpula do governo e a cúpula do Legislativo. O petista e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, estão se preparando para retomar o contato depois de semanas de distanciamento, relataram aliados de ambos os políticos ao jornal Folha.
O gesto deverá partir do presidente da República, que já havia admitindo a possibilidade de procurar o senador às vésperas do Natal.
Lula e Alcolumbre estão distantes desde que o petista indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) em vez do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG). A escolha de Lula contrariou Alcolumbre e diversos outros senadores influentes.
A provável conversa entre os dois chefes de Poder deve ser um passo para que o governo federal envie ao Senado a papelada que permite o início formal da avaliação da indicação pelos senadores –Messias só se tornará ministro do STF se for aprovado pelo Senado.
Lula atrasou o envio dos documentos para forçar um adiamento da votação do Senado sobre Messias. O indicado enfrentava resistência e corria o risco de ser rejeitado caso fosse sabatinado e tivesse o nome votado na data inicialmente definida por Alcolumbre, 10 de dezembro.
Além disso, o presidente do Senado se irritou por Lula ter dito que o Congresso teria sequestrado o Orçamento por meio das emendas parlamentares, e reclamou com integrantes do Palácio do Planalto.
O presidente da República, no entanto, fez gestos importantes, como um convite ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação de Messias no Senado, para um almoço. Weverton é amigo de Alcolumbre. Também conversou com outros senadores influentes, como Renan Calheiros (MDB-AL), Eduardo Braga (MDB-AM), Otto Alencar (PSD-BA) e Omar Aziz (PSD-AM).
Alcolumbre, por sua vez, acompanhou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante anúncio de programas sociais no Amapá. Na viagem de Brasília ao Amapá, o senador disse aos demais passageiros do voo que respeita Lula e que é grato ao presidente pelas ações governamentais em seu estado.
Na conversa, o presidente do Senado também se queixou da articulação do governo e ressaltou ter trabalhado, na véspera, por votações de interesse do Executivo no Congresso. Já no palanque repetiu os elogios a Lula.
No Senado, Alcolumbre minimizava qualquer mal-estar com o chefe de governo. Abordado por um ex-governador petista que pregava o fim da tensão, o senador disse que não havia problemas entre os dois.
Lula já havia, em outras oportunidades, minimizado os recentes atritos com Congresso e atribuído à articulação política de seu governo a falta de aprovação de alguns projetos da gestão no Legislativo.
“Eu queria dizer para vocês que eu sou muito grato a tudo que o Congresso tem feito por nós nesses três anos de governo, tanto o Senado como a Câmara”, declarou dias atrás.