Estudo revela que 90% dos docentes sofreram, presenciaram ou souberam de perseguição e censura
Levantamento realizado pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra que pelo menos 90% dos docentes da rede públicas e privada em todas as regiões do Brasil já sofreram, presenciaram ou souberam de casos de censura nas salas de aula de 2010 a 2024.
Os dados são do relatório “A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática”, produzido a partir de dados coletados com 3.012 educadores de todo o país de maio a setembro de 2024.
Na pesquisa 71% dos educadores dizem que sua vida profissional foi moderadamente, bastante ou extremamente afetada pela censura e perseguição, e 62% relatam o mesmo grau de impacto sobre suas vidas pessoais.
“Até hoje eu vivo com medo de andar na rua, de ser reconhecida e agredida”, diz Juliana Andozio, orientadora educacional na Escola de Educação Básica do Muquém, em Florianópolis (SC).
Ela se tornou alvo em 2022 depois de permitir que uma estudante trans usasse o banheiro feminino, conforme sua identidade de gênero. Começou uma campanha de ódio em redes sociais. “No dia seguinte começaram a me atacar, alguns parlamentares passaram a amplificar essas distorções em redes sociais e até em tribunas públicas.”
A orientadora educacional foi acusada publicamente de “doutrinação”, “ideologia de gênero” e até de “perversão”, em uma escalada de violência que levou pais a invadirem a escola gritando. A intimidação saltou para a violência física: em 28 de abril deste ano, soltaram fogos de artifício dentro da quadra da escola e contra carros no estacionamento e arremessaram lixo pelas grades. Poucos dias depois apedrejaram seu carro e o de outros professores, forçando a orientadora a sair da escola escoltada pela polícia. A unidade de ensino, diz Juliana, não a apoiou.
Os impactos na vida de Juliana refletem a angústia de milhares de docentes entrevistados no relatório do ONVE: 45% dos educadores afirmam se sentir constantemente vigiados e pensam mais sobre o que dizem em sala. Os projetos de inclusão e cidadania que ela desenvolvia com os alunos foram paralisados.
Sua decisão de retirar conteúdos em sala de aula se alinha aos 25% dos participantes que declararam ter tomado tal medida após sofrer ou presenciar atos de censura, evidenciando o processo de autocensura.
Dos respondentes que tiveram experiência direta e/ou indireta com a censura e relataram se sentir impactados por isso, 50% sentiram desconforto com o ambiente de trabalho, 18% já tiveram que mudar de instituição e 3% decidiram efetivamente não permanecer na carreira docente.
O cotidiano tenso na Escola do Muquém culminou com a agressão física ao professor de artes Andrei Pereira Dorneles, na frente da instituição, em junho de 2025. Ele afirma ter sido abordado com ameaças de morte e em seguida agredido por um defensor da transformação da escola em cívico-militar, modelo a que Dorneles se opõe. Além do ataque, passou a ser alvo de campanhas de ódio nas redes sociais.
A violência física aconteceu após um período de intensa pressão: a gestão escolar, hoje já afastada, questionou o professor por usar linguagem inclusiva nas aulas e por sua atuação sindical. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Educação de Santa Catarina (SED-SC) não respondeu as perguntas sobre as agressões sofridas pelos professores.
Os dados do estudo do ONVE mostram que o assédio e a vigilância atingem todos os níveis de ensino, revelando picos de censura em anos eleitorais, especialmente em 2018 e 2022. As proibições e recomendações para evitar temas considerados “polêmicos” são a principal forma de ataque, com 73% das situações envolvendo questões políticas, 53% gênero e sexualidade, 48% questões religiosas, 41% negacionismo científico e 30% questões étnico-raciais.
Fernando Penna, professor da Faculdade de Educação da UFF e um dos autores da pesquisa, destaca que os dados revelam que a violência contra educadores tem uma vinculação direta com o contexto político mais amplo.
Entre aqueles que passaram diretamente por situações de censura, 58% dos educadores relataram tentativas de intimidação, 41% sofreram questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdos.
Para Penna, a dimensão das violências tem impactos profundos na educação dos jovens. “Mesmo aquele professor que não foi vítima direta da violência começa a trabalhar com medo, começa a deixar de trabalhar temas que sabe que são obrigatórios para a formação dos estudantes”, afirma.
O estudo aponta que os principais agentes de censura e perseguições são pessoas internas às comunidades educativas. A reportagem tentou contato com o Ministério da Educação (MEC) por meio da assessoria de imprensa para comentar a pesquisa, encaminhou perguntas e solicitou entrevista com um representante da pasta, mas não obteve respostas até a publicação deste texto.