EUA podem aprofundar instabilidade global com nova tarifa sobre China, avalia autoridade brasileira
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante encontro com o presidente das Filipinas, Ferdinando Marcos, na Casa Branca - Kent Nishimura - 22.jul.2025/Reuters
Os Estados Unidos correm o risco de aprofundar a instabilidade global ao impor uma nova rodada de tarifas sobre a China e intensificar a rivalidade em vez de buscar soluções negociadas com Pequim, avalia uma autoridade brasileira em Washington.
Na avaliação desse representante do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a disputa com Pequim pode trazer impactos duradouros não apenas sobre o comércio e a inovação tecnológica, mas também sobre a base produtiva e a sobrevivência de milhares de agricultores americanos afetados pela guerra comercial.
A análise consta em um documento em que são reportados os impactos da crescente rivalidade entre EUA e China, em especial sobre o setor agrícola.
“A nova rodada de tarifas impostas por Washington representa mais do que um simples instrumento econômico: trata-se de uma demonstração de poder e uma tentativa de redefinir os termos da competição estratégica com a China”, diz trecho do relatório.
Na última sexta (10), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que vai impor tarifas adicionais de 100% sobre produtos da China a partir de 1º de novembro. Hoje, a sobretaxa aplicada pelos EUA a produtos chineses é de 30%.
Em reação, o Ministério do Comércio da China afirmou neste domingo (12), no horário local, que o país não quer lutar com os americanos em relação à guerra comercial, mas não tem medo de aplicar “medidas firmes e correspondentes” caso não voltem atrás da decisão.
Na avaliação dessa autoridade brasileira, os efeitos imediatos da tensão foram sentidos nos mercados financeiros, com quedas expressivas nas principais Bolsas norte-americanas, mas o impacto mais profundo está sendo observado no setor agrícola.
De acordo com o relato, os produtores rurais americanos, especialmente os de soja, estão entre os mais atingidos pela política tarifária de Trump. A China, que era o principal comprador do produto, cortou drasticamente as importações.
A suspensão das compras chinesas transformou-se em uma crise para os agricultores do Meio-Oeste, em estados como Minnesota, Illinois e Missouri, provocando acúmulo recorde de estoques, queda acentuada dos preços e aumento de custos de produção.
“Muitos produtores relatam que a perda do ‘cliente número um’ não pode ser compensada rapidamente por outros mercados, já que alternativas domésticas, como o uso de soja para biocombustíveis, ainda representam uma fração mínima da demanda”, diz o documento.
O setor adverte que a ausência prolongada no mercado chinês pode resultar na consolidação do Brasil e da Argentina como fornecedores preferenciais aos chineses.
Agricultores e especialistas americanos classificam o pacote de auxílio bilionário ao setor anunciado pela administração Trump como um “band-aid”, que não resolve problemas estruturais de competitividade e dependência de mercados externos.
“A prolongada incerteza no campo agrícola ameaça corroer parte do apoio político de Trump em regiões rurais que foram cruciais para sua eleição, uma vez que a renda agrícola está sob forte pressão e a viabilidade econômica de muitas fazendas familiares está em risco”, afirma o representante brasileiro em Washington.
Antes de anunciar a nova rodada de tarifas sobre a China, Trump sugeriu que cancelaria o encontro com Xi Jinping, previsto para ocorrer à margem do fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, na Coreia do Sul, no fim de outubro.
O presidente americano afirmou que não via motivos para se encontrar com Xi. Mais tarde, negou o cancelamento. “Vamos ter que ver o que acontece, por isso marquei para 1º de novembro”, disse. Pequim nunca confirmou o encontro.
Na análise do representante do governo Lula, a declaração de Trump sinaliza que a cooperação bilateral entre EUA e China “pode ceder lugar à confrontação aberta, com consequências que ultrapassam o comércio e afetam áreas como segurança, tecnologia e política internacional.”
Investidores temem a possibilidade de ruptura em cadeias de suprimentos estratégicas. Os setores automotivo e de tecnologia, por exemplo, alertam para possíveis paralisações nos EUA caso o fornecimento de minerais raros chineses (insumos estratégicos para a área de defesa) seja interrompido, evidenciando a interdependência entre as duas potências.
A China é responsável por grande parte do processamento global de minerais essenciais à produção de semicondutores, veículos elétricos e equipamentos militares e tem utilizado a sua posição estratégica como instrumento de pressão.
“Ao restringir a exportação desses insumos, Pequim busca forçar os Estados Unidos a fazer concessões em futuras negociações comerciais”, diz a autoridade brasileira.
A resposta de Trump inclui, além das tarifas, a imposição de controles sobre a exportação de softwares críticos, demonstrando a disposição de retaliação de Washington.