Europa vê aliança com EUA como edifício em demolição após 1 ano de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, gesticula enquanto discursa durante evento em Gyeongju, na Coreia do Sul - Anthony Wallace - 29.out.2025/AFP
por Folha de S.Paulo
Em fevereiro de 2025, o discurso do vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, na Conferência de Segurança de Munique, serviu como uma espécie de tiro de advertência para as mudanças radicais que Donald Trump pretendia empreender na política externa.
Agora, governantes europeus, diplomatas e militares retornam ao mesmo palco daquele pronunciamento com o diagnóstico de que parte das piores previsões se concretizou.
A avaliação predominante entre diplomatas europeus é que o continente atravessa um de seus momentos mais vulneráveis desde o fim da Guerra Fria. De um lado, segue pressionado pela invasão russa da Ucrânia. De outro, assiste ao questionamento das garantias de segurança que a Europa dava como certas desde o fim da Segunda Guerra Mundial —e que permitiram aos países do bloco investir em Estados de bem-estar social.
Um dos organizadores do fórum resumiu a encruzilhada enfrentada pelo continente: as férias da história terminaram.
Não por acaso, no capítulo dedicado aos EUA no relatório anual da conferência abundam expressões como “destruição”, “demolição”, “política da retroescavadeira”, “ataque frontal” e “desordem” —e o documento não deixa dúvidas sobre a quem atribui esse movimento.
“O mais consequente entre aqueles que deram machadadas nas estruturas e regras existentes é o presidente dos EUA, Donald Trump. Isso não se deve apenas às suas convicções pessoais ou à sua personalidade desmedida, mas ao fato de que os EUA ainda detêm poder político, econômico, militar e tecnológico extraordinário”, diz o relatório, em análise assinada por Tobias Bunde e Sophie Eisentraut.
“Ironicamente, o presidente do país que mais fez para moldar, sustentar e defender a ordem internacional do pós-1945 está agora na linha de frente de seu desmantelamento”, afirmam os autores.
A tradicional conferência diplomática e de defesa, realizada desde 1963 na capital da Baviera, entra agora em território novo. Nos últimos anos, esteve concentrada no que via como ameaças externas à parceria transatlântica entre Europa e EUA, principalmente a Rússia de Vladimir Putin e, cada vez mais, a China.
A percepção mudou no último ano, a julgar pela análise anual publicada pelos organizadores às vésperas do fórum. Apesar do foco na situação da Ucrânia, o relatório identifica na atual política externa americana o principal fator de instabilidade para a Otan, a aliança militar do Ocidente.
Todos os olhos estarão voltados para o secretário de Estado, Marco Rubio, que liderará a delegação americana. No ano passado, os mais otimistas ainda esperavam que Vance renovasse o compromisso dos EUA com a segurança europeia. Neste ano, a expectativa é mais contida.
Vance praticamente ignorou o conflito no Leste Europeu, fez acenos à extrema direita e criticou políticas de regulação das redes sociais na Europa. “A ameaça que me preocupa é a interna”, disse o americano.
No relatório divulgado no início desta semana, outro artigo discute como a Europa tenta se equilibrar entre a Guerra da Ucrânia e o afastamento gradual, e por vezes ambíguo, de Trump. “Essa ambiguidade, em termos psicológicos, deixou os europeus presos entre a negação e a aceitação. Ao se esforçarem para manter os EUA ancorados na ordem de segurança europeia, eles adiaram a tarefa mais difícil: preparar-se para um futuro em que os EUA mudem o foco independentemente disso”, escreve Nicole Koenig.
Apesar das promessas de líderes europeus de investir nas capacidades de defesa do continente para preencher o vácuo deixado pelos EUA, já na última edição da Conferência de Munique havia ceticismo quanto às reais condições militares de uma Otan sem o poderio de Washington.
Um ano depois, a desconfiança permanece, mesmo com o compromisso coletivo da aliança de elevar os gastos militares. “Embora a Europa tenha começado a abandonar a hesitação em relação aos gastos com defesa, as restrições fiscais levantam dúvidas sobre a sustentabilidade dos aumentos atuais”, diz o relatório.
O movimento mais recente que aprofundou o mal-estar europeu foram as novas investidas de Trump em favor do controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.
As declarações se inserem em uma visão de política externa que trata o hemisfério Ocidental —termo usado pelos EUA para se referir às Américas— como zona de influência natural de Washington. Mais uma vez, porém, o episódio expôs a vulnerabilidade da União Europeia e da Otan diante de tensões provocadas por aquele que até recentemente era visto como seu principal aliado.
O presidente da França, Emmanuel Macron, que deve discursar em Munique, antecipou o tom da mensagem que pretende transmitir sobre segurança europeia. Para ele, Trump é antieuropeu e busca “o desmembramento da União Europeia”. A crise em torno da Groenlândia, afirmou o francês, “não acabou”.
No ano passado, quando parte do público em Munique ainda esperava uma mensagem reconfortante de Vance, uma avaliação como a de Macron poderia soar alarmista. Um ano depois, pode não ser consensual, mas tornou-se componente inescapável do diagnóstico que hoje permeia o debate europeu.