Ex-servidor do BC recebeu R$ 3 mi do Master em 2025, após afastamento do órgão
O ex-chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central João André Calviño Marques Pereira durante evento em 2019 - Raphael Ribeiro/Banco Central do Brasil
por Folha de S.Paulo
O Banco Master declarou à Receita Federal ter pago R$ 3 milhões no ano passado à empresa do ex-chefe de departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central João André Calviño Marques Pereira, a JGM Solutions.
Pereira foi chefe do departamento de abril de 2018 a janeiro de 2024 —período que compreende as presidências de Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto. Ele pediu uma licença do Banco Central em março de 2024 e, por fim, a exoneração do cargo de auditor em junho de 2025.
O pagamento à JGM Solutions consta na DIRF (Declaração do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte) de 2025 do Master, entregue pela Receita Federal à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado do Senado. O documento sigiloso foi obtido pela Folha.
A declaração não diz em que mês ocorreu o pagamento à empresa, apenas a quantia, o valor do imposto retido na fonte (no caso dele, de R$ 45 mil) e o código usado pela Receita Federal, que indica prestação de serviços de pessoa jurídica para pessoa jurídica.
Segundo o ex-servidor do BC, os pagamentos ocorreram a partir de agosto de 2025, quando ele já havia sido exonerado da autarquia.
Ele afirma que, na consultoria prestada ao Master, usou sua experiência em governança e regulação para colaborar na elaboração do plano de reestruturação da instituição junto aos órgãos reguladores.
A JGM Solutions é uma empresa de consultoria financeira. Quando pediu licença do BC, em 2024, João André passou a prestar serviços no ramo de seguros privados. Nessa época, o então servidor fez uma consulta à Comissão de Ética Pública sobre questões relacionadas a conflito de interesses.
Procurado, João André disse em nota que jamais tratou de assuntos pertinentes ao Banco Master durante todo o período em que integrou o Banco Central. Ele afirmou também que nunca realizou reunião com Daniel Vorcaro no BC, “nem participou de qualquer ato deliberativo relacionado à aprovação de aquisição ou transferência de controle de qualquer instituição financeira, incluindo o Banco Máxima.”
Temas como regulação prudencial, captação com garantia do FGC ou supervisão de instituições autorizadas não passam pelo departamento de Regulação do Sistema Financeiro, unidade à qual o ex-servidor estava vinculado até março de 2024.
“Tampouco é atribuição do Denor ou do Chefe do Denor, mesmo que indiretamente, participar da análise ou deliberação sobre autorização para funcionamento, alteração de controle societário ou supervisão de qualquer instituição financeira”, acrescentou em nota.
Ele disse também que, a partir da licença, perdeu acesso a sistemas, processos ou informações sensíveis do Banco Central, deixando de participar de deliberações a cargo da autarquia.
Nas últimas semanas, circularam informações nos bastidores de Brasília e entre banqueiros de que haveria mais técnicos da autoridade monetária envolvidos no esquema de Vorcaro ao lado de Paulo Sérgio de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária.
Uma sindicância aberta pelo Banco Central confirmou indícios de irregularidades e aumento patrimonial suspeito dos dois servidores. Eles foram alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, em janeiro, sendo investigados pela Polícia Federal por suposto favorecimento ao Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, em troca de vantagens indevidas.
O relatório da sindicância foi enviado à CGU (Controladoria-Geral da União), que abriu um PAD (processo administrativo disciplinar). Ao final do PAD, os dois devem ser expulsos do BC.
A investigação interna do BC não encontrou indícios de participação de outros técnicos, além dos dois ex-gestores investigados. A CGU até o momento também não localizou novos integrantes da organização criminosa de Vorcaro no órgão.
Integrantes do BC, que falaram na condição de anonimato à reportagem, negam que o órgão tenha identificado mais suspeitos.
A empresa de João André foi aberta em fevereiro de 2025 junto da esposa, Manuela Bezerra Parques Pereira, com capital social de R$ 10 mil.
No cadastro nacional de pessoa jurídica, a JGM disse prestar serviços de tradução, liquidação, custódia, treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial, desenvolvimento e licenciamento de programas de computador customizáveis, serviços combinados de escritório e apoio administrativo, preparação de documentos e serviços especializados de apoio administrativo.
Colaborou Mateus Vargas, de Brasília