Filho de mulher dopada e estuprada pelo marido pede sentenças duras contra o pai

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Gisèle Pelicot chegando ao tribunal em Avignon na terça-feira (17/9)

David, um dos três filhos de Gisèle e Dominique Pelicot, afirmou na segunda-feira (18) que o julgamento realizado na França sobre os estupros que sua mãe sofreu durante décadas, estando drogada pelo então marido, é o julgamento de “toda uma família destruída”. Florian, o caçula, pediu sentenças duras aos réus.

“É muito complicado explicar para seus filhos que não vão mais ver o avô”, disse David, 50, perante o tribunal penal de Avignon, no sul da França.

O caso de Dominique Pelicot, 71, e outros 50 réus, com idades entre 26 e 74 anos, gerou uma onda de indignação na França desde que foi aberto em 2 de setembro.

O acusado admitiu ter estuprado sua agora ex-mulher, Gisèle Pelicot, e recrutado dezenas de homens na internet para fazerem o mesmo entre 2011 e 2020, documentando meticulosamente os abusos com milhares de imagens encontradas pelos investigadores em arquivos digitais.

“Minha família quer lutar e continuará fazendo isso, e acima de tudo esperamos que no futuro possamos apagar da nossa mente o homem que está à minha esquerda”, declarou, referindo-se ao seu pai, Dominique, sentado no banco dos réus. Ao longo de seu depoimento, referiu-se a ele como “aquele senhor”.

Em certo ponto, Dominique interrompeu o depoimento do filho, dizendo que queria se desculpar pelo que havia feito. David respondeu: “Nunca!”

A imagem mostra duas pessoas saindo de um elevador. À frente, um homem com óculos e barba, vestindo um suéter claro e um paletó escuro, parece estar olhando para o lado. Atrás dele, um homem com cabelo escuro e curto, usando um paletó escuro, observa. O fundo é desfocado, mas há outras pessoas visíveis
David (esq.) e Florian (dir.), filhos de Gisèle Pelicot, vítima de estupro coletivo sob submissão química do marido – Manon Cruz/18.nov.24/Reuters

“O que espero deste julgamento é que as decisões que tomem estejam à altura do nosso sofrimento. Que os homens, esses homens atrás de mim [os corréus], esse homem no banco dos réus [seu pai], sejam punidos pelos horrores e atrocidades que cometeram contra minha mãe”, acrescentou David.

Em meio às lágrimas, David disse esperar que o julgamento encoraje outras mulheres a falar sobre estupro, ecoando declarações anteriores de sua mãe, que pediu que o julgamento fosse realizado em público para esclarecer o abuso.

Em seguida, ele se dirigiu diretamente ao pai: “Se ainda te resta algo de humanidade, você me ouve? [Gostaria que] dissesse a verdade sobre o que fez com a minha irmã, que sofre todos os dias e sofrerá o resto da vida, porque acredito que você jamais dirá a verdade.”

A imagem mostra um grupo de quatro pessoas em um ambiente que parece ser um tribunal. À esquerda, uma mulher com cabelo claro e liso, vestindo uma blusa escura. Ao centro, uma mulher de cabelo castanho claro, usando óculos escuros e uma blusa estampada. À direita, um homem com cabelo curto e óculos escuros, vestido com um blazer claro. Na frente, um advogado com cabelo escuro, usando uma gravata branca e um terno escuro, está olhando para baixo
Gisèle Pelicot (centro) sentada ao lado de sua filha, Caroline Darian, e seu filho David Pelicot durante sessão no tribunal penal de Avignon, sul da França – Christophe Simon/2.set.24/AFP

Caroline Darian, também filha dos Pelicot e autora do livro “Et j’ai cessé de t’appeler papa” (parei de te chamar de papai, em tradução livre), está convencida de que “seu progenitor”, como agora se refere a ele, também a violentou. Ela se considerou a “grande esquecida” deste julgamento.

“Gisèle foi estuprada sob submissão química, mas a única diferença entre ela e eu é a falta de provas no que me diz respeito. Para mim, isso é uma tragédia absoluta”, declarou Caroline. Segundo a investigação, foram encontradas fotos dela e de duas noras de Dominique em um computador, em alguns casos, quando as mulheres estavam nuas.

Florian, o caçula de 38 anos, contou ao tribunal sobre o caos que se seguiu às notícias, quatro anos atrás. Ele disse que seu pai estava morto para ele. “Faz quatro anos que perdi meu pai”, disse. “Nossa família foi despedaçada.”

A imagem mostra três advogados em um ambiente de tribunal. Dois homens estão à esquerda, um deles com cabelo castanho claro e barba, e o outro com cabelo escuro. Uma mulher está no centro, usando um casaco preto e um lenço branco. Todos estão vestidos com trajes formais de advogados, incluindo gravatas brancas. O fundo é de um ambiente interno com iluminação suave
Gisèle Pelicot e seus advogados chegam ao tribunal penal de Avignon, no sul da França – Manon Cruz/18.nov.24/Reuters

Ele pediu ao tribunal que imponha sentenças duras, “para que as vítimas não precisem mais ter medo de falar”. “Estou muito agradecido por minha mãe estar viva. Mas ainda não entendo por que ele [Dominique] fez isso”, declarou Florian.

O processo midiático se tornou um símbolo do uso de drogas para cometer agressões sexuais, prática conhecida como submissão química, e reacendeu o debate sobre a questão do consentimento na França.

Alguns dos acusados afirmam que não sabiam que Dominique administrava medicamentos para fazer sua esposa dormir e alegam que pensavam se tratar de um casal libertino, algo que a vítima negou em seu primeiro depoimento perante o tribunal.

O principal réu reiterou que os 50 homens julgados sabiam que sua esposa estava drogada com fortes ansiolíticos. “E eles não podem dizer o contrário”, assegurou.

Com AFP e Reuters

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