Fundo que fez negócios com irmãos de Toffoli transferiu cotas para offshore em paraíso fiscal
O Tayayá Aquaparque, resort de luxo em Ribeirão Claro (PR) - Reprodução
O fundo de investimentos que foi sócio de parentes do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), transferiu seus ativos no fim de 2025 para uma empresa no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. O território controlado pelo Reino Unido é um dos locais em que há mais segredo no mundo em relação a informações empresariais.
A movimentação dos ativos foi noticiada pelo SBT News e foi confirmada com base em documentos da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e da Comissão de Serviços Financeiros das Ilhas Virgens Britânicas.
Durante quatro anos (entre 2021 e 2025), os irmãos de Toffoli José Eugenio Toffoli e José Carlos Toffoli dividiram o controle do resort Tayayá, no Paraná, com o fundo de investimentos Arleen, que faz parte da intrincada rede montada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.
O Arleen entrou na sociedade em 2021, comprando cotas de empresas que pertenciam aos irmãos e a um primo de Toffoli. O Arleen era de propriedade de outro fundo, o Leal, que de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, pertence a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.
No fim do ano passado, o fundo Arleen foi encerrado e transferiu ativos avaliados em R$ 34 milhões para a Égide I Holding, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas.
A defesa de Zettel não quis se pronunciar sobre o assunto. O ministro Dias Toffoli e seus irmãos não comentaram.
Os advogados de Daniel Vorcaro afirmaram que “o Banco Master e seu controlador não têm qualquer conhecimento ou envolvimento com as operações dos fundos mencionados”. “Esta associação citada é falsa”, completaram.
“A defesa permanece colaborando com as autoridades competentes e reitera que associações entre esses fundos e o sr. Vorcaro não correspondem à realidade”, acrescentou a defesa.
O atual proprietário do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), é Paulo Humberto Barbosa, que entrou no negócio em fevereiro do ano passado. Ele comprou a participação que era da Maridt, empresa de José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli.
Mario Umberto Degani, primo do ministro do Supremo, seguiu no negócio até setembro de 2025, quando também vendeu a sua parte para Paulo Humberto Barbosa. Hoje, Barbosa aparece como o dono único do Tayayá. Ele é advogado da JBS em Goiânia.
Barbosa afirmou que desconhece as operações do Arleen e apenas comprou cotas sociais do Tayayá e da DGEP, outra empresa que também faz parte do resort.
Quando o Arleen decidiu encerrar suas atividades, em 5 de novembro do ano passado, foi definido que aconteceria o resgate de todos os ativos detidos pelo fundo, com o pagamento aos cotistas.
Um mês depois, em 4 de dezembro, uma nova assembleia mudou a decisão e definiu que as cotas do Arleen, no valor de quase R$ 34 milhões, seriam transferidas para a Égide I Holding, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas.
A offshore foi criada em 6 de março do ano passado e tem como endereço registrado uma caixa postal em nome de uma administradora especializada na gestão de empresas em paraísos fiscais. O verdadeiro dono não é conhecido.
O Arleen possuía R$ 11,5 milhões em ações da Égide I no último balanço divulgado pelo fundo, de maio de 2025.
Na ocasião, o Arleen possuía também R$ 4,4 milhões em ações do Tayayá e da DGEP, totalizando uma participação de R$ 20,8 milhões.
A entrada do Arleen na DGEP custou R$ 2,5 milhões em março de 2021. Já no Tayayá o preço foi R$ 620 mil. Os valores foram pagos à empresa dos irmãos de Toffoli, a Maridt Participações.
Toffoli é hoje o relator do caso Master no STF, o que significa que as investigações contra a instituição estão sob sua responsabilidade. Vorcaro e o Master são alvo dos investigadores em inquérito que apura a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos sem lastro para o BRB. Vorcaro chegou a ser preso nesse processo, mas foi liberado pouco tempo depois.
Toffoli ficou com o caso após decisão do próprio ministro de que o assunto deveria ser julgado no STF e não mais na Justiça Federal de Brasília, com o argumento de que, entre os achados, havia o nome de um deputado federal (que tem prerrogativa de foro no Supremo).
O ministro não pretende se afastar do caso. A interlocutores, Toffoli afirmou que não existe razão para abdicar do processo, pois não se enquadra nas hipóteses objetivas de impedimento previstas em lei, nem tem qualquer motivo de foro íntimo para se declarar suspeito.