Generais Heleno e Paulo Sérgio estão presos ao lado de academia onde Moraes treinava
Alexandre de Moraes, Augusto Aras e Hamilton Mourão na cerimônia do Dia do Soldado em 2023 no QG do Exército, em Brasília, vizinho à academia onde ele treinava - Gabriela Biló/Folhapress
Por uma ironia do destino, os generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, presos após condenação no julgamento da trama golpista, estão detidos em Brasília em salas do Comando Militar do Planalto (CMP) vizinhas a uma academia do complexo onde o ministro Alexandre de Moraes treinou até meados de 2022.
Relator no STF do processo por tentativa de golpe de Estado contra Bolsonaro e outros militares, Moraes sempre manteve boa relação com a cúpula do Exército, a ponto de ter sido convidado para usar as instalações do CMP para fazer suas atividades físicas.
Conforme contou em entrevista ao jornal Folha em dezembro de 2023, Moraes chegava diariamente às 6h40 ao complexo, que conta também com uma pista de atletismo, e se exercitava junto com militares. As salas onde estão presos Heleno e Paulo Sérgio estão a uma curta distância a pé da academia.
O CMP fica no Setor Militar Urbano de Brasília, perto do quartel-general do Exército e de onde foi instalado o acampamento que serviu de base para os golpistas do 8 de janeiro.
Em agosto de 2022, em meio à crise entre Bolsonaro e o Judiciário, quando o então presidente e generais aliados faziam campanha contra o sistema eleitoral brasileiro, Moraes recebeu um recado de que teria de interromper as idas à academia, pois o espaço estava passando por reforma.
Desconfiado, o magistrado pediu que seu ajudante de ordens –um capitão da Polícia Militar, intermediário do aviso sobre a “reforma”– tirasse a história a limpo.
“Eu falei, reforma em agosto? Reforma costuma ser em janeiro, agora eles têm todos os testes físicos… E obviamente não estava em reforma, eu é que estava sendo reformado da academia, foi uma forma educada de eu ter sido convidado a me retirar da academia. É uma pena, academia boa, mas são águas passadas já”, contou Moraes ao jornal Folha.
Como parte de um movimento para distensionar as relações entre o Judiciário e a caserna (os integrantes das Forças Armadas são em sua maioria críticos da atuação de Moraes e do STF), o atual comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, convidou o magistrado para voltar a usar a academia.
O ministro agradeceu, mas recusou.
“Eu não voltei porque a partir disso eu já substituí, montei meus treinos, e obviamente agora, se eu voltar, o que vai ter de paparazzi lá tirando foto de eu treinando, vou perder a minha tranquilidade, e mais, eu vou atrapalhar o treino dos demais”, afirmou Moraes em dezembro de 2023.