“Globo jogou a criança fora junto com a água da bacia”, diz Antonio Fagundes
Antonio Fagundes
por Mônica Bergamo
Antonio Fagundes está atrasado. Conhecido por sua pontualidade, —quem chega fora do horário não consegue entrar para ver as suas peças— o ator de 76 anos se desculpa (a culpa foi do voo do Rio de Janeiro para São Paulo) e senta para conceder esta entrevista em uma das poltronas da plateia de quase 700 lugares do Teatro Tuca. Espaço que tem lotado desde setembro do ano passado, quando ele estreou “Dois de Nós”, produção escrita por Gustavo Pinheiro e protagonizada também pela sua mulher, Alexandra Martins, além de Christiane Torloni e Thiago Fragoso.
No enredo, uma discussão sobre relacionamentos amorosos, machismo e empoderamento feminino a partir das alegrias e dificuldades de um casal em diferentes fases da vida. Vista por mais de 60 mil espectadores, a peça segue em cartaz em São Paulo até o próximo domingo (27). Depois, fará uma turnê por cidades do Brasil e de Portugal. A ideia é, mais para frente, transformá-la em filme.
Há muitos anos, Fagundes faz, depois dos seus espetáculos, um bate-papo com o público. Nessas conversas, ele tem notado que os homens ficam especialmente mexidos com a montagem e com o seu personagem, um “macho alfa” que vai se desconstruindo ao longo dos anos.
E o fato de ser ele a interpretar esse homem —um ator que fez tantos machões na TV, ainda que essa seja uma visão parcial da carreira de Fagundes— acaba sendo uma forma de identificação. “Porque eles estão vendo no palco esse mesmo cara que eles acham que é ‘o dono do mundo’, falando umas coisas interessantes e que eles nunca tinham pensado antes.”
De forma indireta, a peça mostra como esse homem que foi criado para não chorar ou demonstrar qualquer fragilidade também é vítima. “Ele vê que esse caminho não é bom para ninguém. O ser humano é frágil mesmo. A gente não tem couro, a gente não tem chifre, a gente morre facilmente. E a gente sofre facilmente, porque temos uma cabeça pensante.”
Fagundes diz que nunca foi um “macho alfa”, até mesmo por ter entrado no teatro muito cedo. “Se você não é capaz de se emocionar e chorar com uma música que ouviu ou com um quadro, com uma peça de teatro, com um filme, você não é capaz de subir no palco e fazer isso. Nunca fui muito esse macho alfa, mas eu fiz muitos. Fiz até Deus que, digamos, é o macho alfa maior”, brinca, sobre os dois filmes de Cacá Diegues em que interpreta o Todo Poderoso.
O segundo deles, “Deus Ainda é Brasileiro”, que deve estrear neste ano, foi o último trabalho do cineasta alagoano, morto no início deste ano. Na história, Deus retorna ao Brasil para tentar recuperar a esperança na humanidade. “Era o sonho dele fazer um filme inteiro em Alagoas. E nós fizemos o longa todo sem sair de Alagoas. Foi maravilhoso”, diz o ator.
A pré-produção da película começou em 2022, antes das eleições presidenciais. Fagundes lembra que, em certo momento, eles se questionaram: “Será que [Deus] ainda é brasileiro?. Porque podiam acontecer umas coisas aí.” A coluna questiona se uma dessas “coisas” seria a reeleição de Jair Bolsonaro (PL). O ator dá risada e diz: “Mas [Deus] ainda é brasileiro.”
Conhecido por apoiar, no passado, campanhas eleitorais do PT, o ator não tem se manifestado sobre política nos últimos anos. Ao ser questionado sobre Bolsonaro ser denunciado por uma tentativa de golpe de Estado, ele diz que é importante que todos os processos legais sejam seguidos “para que não se diga lá na frente que ‘deu errado, [porque alguma] prova não valeu’.” “E me parece que está tendo a calma suficiente para isso.”
Ainda sobre o ex-presidente, o ator afirma que a chegada de Bolsonaro ao poder é um sintoma do paradoxo da tolerância, teoria do filósofo austríaco Karl Popper. “Você é tão tolerante que você permite que um cara seja eleito para destruir a tolerância.” Fagundes lembra que, na primeira vez em que foi eleito presidente, em 2018, Bolsonaro já levantou suspeitas sobre a lisura do pleito por não ter vencido no primeiro turno. “Ele já preparou lá atrás um golpe. E foi ele que disse. Não foi inteligência artificial, não foi ninguém. Foi ele.”
Para o ator, o país vive um período preocupante em que há pouco espaço para a escuta. “Mesmo quando a pessoa está dizendo [o que vai fazer], ele [o cidadão] não ouve mais. É só ‘é o mito, é o mito’. O que quer dizer isso? Quer dizer que ele pode falar o que quiser, que eu não estou ouvindo. Estou seguindo palavras de ordem. Isso é ruim para qualquer ideologia.”
Fagundes diz que sempre falou que “artista não pode ter carteirinha”, porque na sua percepção isso é semelhante a torcer para um time de futebol ou fazer parte de uma seita. “Você deixa de pensar. Acho que a gente está vivendo um período em que temos que trazer a inteligência de volta.” Na visão dele, líderes como o presidente americano Donald Trump “são infelizes” e “têm uma tristeza”. “E quem é triste, espalha essa tristeza, né”.
Ele diz acreditar também que, ainda que nos últimos anos um movimento progressista tenha se destacado no mundo, o pensamento conservador e machista nunca deixou de existir. “O que aconteceu é que parte da população, da cultura se voltou para as coisas boas que estavam aparecendo, para a igualdade, para resolver os problemas sociais, para acabar com a desigualdade econômica, para criar amparos, para fortalecer a educação.”
“É que agora eles estão com o poder da palavra. Como diz o Umberto Eco, a internet deu voz aos imbecis. Eles estão aí de novo aparecendo, mas não acredito que sejam a maioria não. Acho que, como está tendo o refluxo para eles, vai ter o refluxo para gente [os progressistas] depois”, afirma, entre risos.
Embora seja conhecido do público pelas mais de 40 novelas em que atuou, Fagundes diz que fez muito mais teatro do que TV aberta. E foi pelos palcos, inclusive, que decidiu em 2020 não renovar o contrato com a Globo, após 44 anos de parceria. “Quando a emissora disse que eu não teria mais esse esquema de gravar segunda, terça e quarta [as produções para a casa] para poder fazer as minhas peças [nos outros dias], eu falei: ‘Não faço mais'”, relembra.
Para o ator, quem sai perdendo é a própria empresa. “Eu levei 44 anos para me especializar. Quando atingi o auge da minha especialização, eles mudaram o processo de produção. Perderam o investimento deles. Perderam o patrimônio deles.” Fagundes afirma que se sentia estimulado pelo ritmo acelerado de fazer novelas, muito diferente do trabalho no teatro, em que é preciso, segundo ele, pisar no freio e se aprofundar no estudo do texto.
“Alguns colegas de teatro reclamavam sobre a TV, dizendo ‘eu não sou máquina’. Eu não. Eu queria ser máquina, queria ser a máquina mais perfeita daquele processo.”
“Saía de uma gravação novo, cheio de adrenalina. Cheguei a um ponto de elaboração do meu processo de trabalho que decorava [o texto] na hora”, afirma. “Vivi o melhor dos mundos, porque não levava trabalho para casa. Enquanto meus colegas estavam todos trancados, decorando [as falas], eu ia passear, ficava com a minha família, tinha fim de semana, podia fazer meu teatro, cinema.”
Agora, segundo ele, o ritmo de gravações está mais lento. “Não sei se gostaria tanto [de voltar a fazer TV]. O que sempre me fascinou foi exatamente o fato de ser industrial.” Fagundes opina que, ao abrir mão de artistas, diretores e autores que estavam há décadas na empresa, a Globo “jogou a criança fora junto com a água da bacia”. “Tem uma turma que está lá agora, de jovens extraordinários, mas que não têm 40 anos de experiência.”
Se o ritmo de produção ficou mais lento, ele avalia, por outro lado, que a TV aberta acabou criando uma crise para ela mesma ao se afastar do que sempre fez e querer imitar o tempo acelerado das redes sociais. “Antigamente você tinha cena de 10 minutos, e o público parava para ver. Hoje, a cena não tem mais de um terço de uma página, isso quer dizer 30 segundos. Só que em 30 segundos, você não aprofunda nada, as relações se esvaem, é tudo muito rápido. E quando não está rápido, explode um avião, capota um automóvel.”
Por outro lado, o sucesso que reprises de novelas de mais de 25 anos, como “Tieta” (1989) e “História de Amor” (1995), têm feito mostram, na visão dele, que o gênero segue vivo e agradando ao público. “A novela é o nosso patrimônio cultural. Por que nós abrimos mão disso?”, indaga.
Questionado sobre o remake de “Vale Tudo”, produção de que ele participou na versão original como o personagem Ivan, Fagundes diz que “é um grande risco”. “É um pecado você fazer o remake de obras que alcançaram muito sucesso e que se tornaram icônicas.” Mas acha acertado que a protagonista Raquel, vivida em 1988 por Regina Duarte, seja hoje interpretada por uma atriz negra, Taís Araujo. “Era um erro nosso, um erro da sociedade como um todo, não pensar sobre isso [a importância de ter diversidade e representatividade na tela] naquela época”.
Fagundes vai estrear no streaming em breve, na série de ficção que a HBO desenvolve sobre a vida e o assassinato da socialite Ângela Diniz. Ele interpretará o advogado criminalista Evandro Lins e Silva, defensor de Doca Street, namorado e assassino de Ângela.
Na hora de escolher o que assistir, porém, ele diz ainda preferir “aquela coisa antiga” chamada DVD. “Tem filmes que os streamings não passam”, afirma o ator, que lamenta que o fim do equipamento esteja próximo. “Acho que será uma pena porque aí, sim, vamos ficar na mão do algoritmo.”
Haaaaaa o bichim não ousou falar do atual governo e nem mesmo do stf. Haaaaaaaa. Quanta hipocrisia.