Governo Lula não só descartou desculpas, como orientou Brasil a reprovar, em Haia, ocupações israelenses
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: 20/03/2023REUTERS/Adriano Machado
Por Daniela Lima
Além de descartar um pedido de desculpas a Benjamin Netanyahu pela comparação da ação em Gaza com o extermínio de judeus na segunda guerra, o governo brasileiro orientou na terça-feira (20), agora em Haia, que o corpo diplomático reprovasse a política de Israel sobre territórios palestinos.
A corte internacional analisa, a pedido da Organização das Nações Unidas (ONU), a legalidade da ocupação, por meio de assentamentos, de locais como a Cisjordânia. O Brasil se manifestou na terça (20) contra a ocupação desses territórios, tratando-a como ilegal.
“A ocupação de Israel dos Territórios Palestinos, persistente desde 1967 em violação ao direito internacional e a numerosas resoluções da Assembleia Geral da ONU e do Conselho de Segurança, não pode ser aceita, muito menos normalizada pela comunidade internacional”, disse a diplomata Maria Clara de Paula Tusco, representante do governo brasileiro no tribunal.
Segundo fontes que tiveram acesso aos estudos que balizaram a posição da diplomacia brasileira, o entendimento é o de que a política de ocupação israelense impõe uma espécie de apartheid, uma segregação aos palestinos.
Esse novo capítulo no impasse que se instalou desde o fim de semana na relação entre Brasil e Israel precede reunião do presidente Lula com dois agentes importantes nos desdobramentos dos principais conflitos, hoje, no mundo.
Lula deve receber nesta quarta (21) o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, e, na quinta (22), pode ser visitado também pelo ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov. Essa agenda ainda está em suspenso. Ambos, Blinken e Lavrov, virão ao Brasil para a reunião do G20.
“Ocupação de Israel nos territórios palestinos não pode ser aceita nem normalizada pela comunidade internacional”, diz Brasil em Haia

“A ocupação de Israel dos Territórios Palestinos, persistente desde 1967 em violação ao direito internacional e a numerosas resoluções da Assembleia Geral da ONU e do Conselho de Segurança, não pode ser aceita, muito menos normalizada pela comunidade internacional”, disse a diplomata Maria Clara de Paula Tusco, representante do governo brasileiro no tribunal.
Ela prosseguiu:
“Os eventos trágicos dessa data e as operações militares desproporcionais e indiscriminadas que se seguiram, no entanto, deixam claro que a mera gestão do conflito não pode ser considerada uma opção, e uma solução de dois estados, com um Estado palestino economicamente viável convivendo ao lado de Israel, é a única maneira de proporcionar paz e segurança para Israel e os palestinos”, disse a representante brasileira em Haia.
A Corte Internacional realiza há um dia uma série de audiências históricas para que 52 Estados defenderam suas posições sobre os 56 anos de ocupação israelense dos territórios palestinos e sobre as consequências do conflito.
Apesar de ser um evento já aguardado, o discurso do Brasil era esperado, pois, há dois dias, o presidente Lula entrou em conflitos diplomáticos com Israel após comparar ações do país na Faixa de Gaza ao extermínio de judeus na Segunda Guerra.
Palestina X Israel
Na segunda-feira (19), representantes palestinos pediram à mais alta corte da ONU que declarasse ilegal a ocupação de seu território por Israel, dizendo também que o parecer consultivo da corte poderia contribuir para uma solução de paz duradoura.
O chanceler palestino Riyad al-Maliki acusou Israel de submeter os palestinos a décadas de discriminação e apartheid — acusações que Israel rejeita.
“A única solução consistente com a lei internacional é o fim imediato, incondicional e total dessa ocupação ilegal”, disse ele.
Israel não está participando das audiências, mas enviou uma declaração por escrito, dizendo que um parecer consultivo seria prejudicial para a obtenção de um acordo negociado com os palestinos.
Decisões da Corte
A Corte Internacional de Justiça (CIJ) decidiu no final de janeiro que o governo de Israel deveria tomar todas as medidas cabíveis para “prevenir um genocídio” na Faixa de Gaza. A decisão foi o primeiro julgamento internacional sobre a guerra entre Israel e o Hamas.
A sentença foi uma resposta ao processo aberto pela África do Sul acusando Israel de estar cometendo genocídio com os bombardeios na Faixa de Gaza. Mais de 24 mil pessoas já morreram no conflito, que começou no início de outubro de 2023.
Na terça-feira (20), a África do Sul, que abriu o segundo dia de audiência, pediu que a Corte emita um parecer jurídico de que a ocupação israelense nos territórios palestinos é ilegal, argumentando que isso ajudaria nos esforços para chegar a um acordo de trégua.

Desde sua fundação em 1946, a Corte Internacional emitiu 30 pareceres jurídicos e seus juízes discutiram mais de uma vez sobre ocupações territoriais. Por exemplo, entre a República Democrática do Congo (RDC) e Uganda, em 2005.