Guthierry Sotero diz que não se achava digno de novela das nove: ‘Resolvido com muita terapia’
Guthierry Sotero, que está no elenco de 'Três Graças' - Jorge Bispo/Divulgação
Guthierry Sotero, 23, ainda se vê como um novato —afinal, são só seis anos de carreira—, mas o “peso” que tantos atribuem a estar em uma novela das nove da Globo é encarado por ele com leveza e senso de reconhecimento. O ator conta, com orgulho, que não precisou fazer teste para integrar o elenco de “Três Graças”, de Aguinaldo Silva.
“Um produtor quis saber sobre a minha disponibilidade e fez o convite”, conta em entrevista ao portal F5. “Fiquei surpreso porque sempre imaginei que esse tipo de chamado fosse algo mais voltado para veteranos, e isso me fez entender que estou seguindo o caminho certo.”
Ele admite, porém, que a notícia também trouxe uma série de inseguranças. “Achei que não era digno de ser convidado para uma novela das nove”, afirma. “Isso só foi resolvido com muita terapia, até eu entender que sou digno, sim.”
No folhetim, o ator interpreta Júnior, um personagem atravessado por conflitos morais, que se envolve com o roubo da estátua que dá nome à trama. “Ele acredita que está fazendo tudo apenas pelo bem”, analisa. “É uma confusão muito louca que existe na cabeça dele, mas nasce de um sentimento que ele acredita ser bom.”
Para Sotero, Júnior age movido pela dor, pela revolta e pela sensação constante de injustiça. “Ele perde o pai por causa de remédios falsificados, vê pessoas milionárias lucrando com a morte de gente como ele e ainda é acusado de roubo só por ser um homem negro, morador de favela”, comenta. “Isso vira uma chave.”
Sobre a relação do personagem com Maggie, interpretada por Mell Muzzillo, ele adianta que o romance vai avançar, apesar da pouca iniciativa do rapaz. “Ele é tímido, mas eles vão se envolver, vão construir algo bacana”, adianta. “Só que ela acaba descobrindo a expropriação da estátua, pela qual o pai dela é fascinado, e aí vai dar merda (risos). Temos que esperar os próximos capítulos.”
CRIA DA MARÉ
Nascido e criado na Maré (zona norte do Rio), o ator contou que saiu da comunidade e foi morar perto dos Estúdios Globos para ficar mais próximo das gravações. Antes da carreira artística, sonhou em ser jogador de futebol, como muitos jovens, mas acabou mudando de planos após algumas lesões. “Entendi que aquilo era um aviso de que esse não era o caminho”, diz.
Em 2016, se aproximou do rap e das batalhas culturais, mas a timidez o impediu de mostrar seus textos por muito tempo. “Eu escrevia, mas não mostrava para ninguém. Demorei três anos para fazer algo que eu queria muito”, conta.
Paralelamente, começou a faculdade de direito na Uerj e chegou a estagiar no Ministério Público, planejando uma carreira estável fora dos palcos. A virada aconteceu em 2019, quando decidiu postar uma poesia nas redes sociais. “Ali eu tive um estalo: se eu não corresse atrás do meu sonho, ninguém ia”, lembra.
O vídeo chamou a atenção de um pesquisador de elenco da Globo, que fez contato com ele. “Achei que era trote”, afirma. “Só acreditei quando vi que ele tinha foto com a Viviane Araujo”, comenta, aos risos. A partir daí, voltou ao teatro com o objetivo de perder a timidez, mas acabou se firmando como ator profissional.
Ele também falou abertamente sobre saúde mental e a importância da terapia, iniciada em 2021, após um período de luto e de frustrações profissionais. “Sempre fui muito sensível, mas cresci ouvindo que homem não chora. Isso me retraiu muito”, lamenta.
Para o futuro, Guthierry diz que não tem projetos fechados na dramaturgia, mas quer retomar a música como prioridade. “Eu sempre falo que vou focar na música e, quando vejo, emendo outro trabalho”, lamenta. “Mas agora quero lançar meu EP”, conta ele, que pretende também concluir a faculdade de artes cênicas. “Mas a carreira está aberta. Qualquer convite pode mudar tudo”, afirma.