Instituições que criamos são fortes e STF é livre para julgar Bolsonaro, diz Sarney
Posse do ex-presidente José Sarney completou 40 anos no sábado (15) - Pedro Ladeira - 7.mar.25/Folhapress
O ex-presidente José Sarney disse no sábado (15) que as instituições criadas na transição democrática iniciada após a ditadura militar (1964-1985) são fortes e evitaram um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
“Eu acho que esses acontecimentos foram extremamente danosos e, ao mesmo tempo, repugnados pelo povo brasileiro e todas as classes”, disse Sarney ao ser questionado sobre a denúncia contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outras 33 pessoas.
“Mas temos a certeza que as instituições que foram criadas por nós durante a transição foram tão fortes —já atravessaram dois impeachments, uma tentativa de mudança do Estado de Direito no dia 8 de janeiro— que agora, livremente, nosso Supremo Tribunal Federal está julgando o que ele apurar que seja culpado”, completou.
O ex-presidente deu a declaração à imprensa no início do evento “Democracia 40 anos: Conquistas, Dívidas e Desafios”, promovido pela Fundação Astrojildo Pereira e pelo partido Cidadania em comemoração aos 40 anos da posse de Sarney na Presidência da República.
O evento acontece no Panteão da Pátria, em Brasília, construído na gestão Sarney para homenagear os herois e heroínas do país. Participam lideranças políticas, ex-ministros e o ex-presidente do Uruguai Julio María Sanguinetti.
“[A transição democrática] Tem uma importância muito grande para o Brasil, para o povo brasileiro e faz parte da história brasileira porque é o maior período que o país passou usufruindo de um regime democrático sem nenhum hiato”, disse Sarney.
O ex-presidente discursou por 20 minutos no evento. Ele disse que não gostaria de ter tomado posse como presidente com Tancredo Neves internado no hospital. “Eu não tinha o capital político dele. Ele foi preparado pela história”, afirmou.
O político comentou que o período de transição democrática foi marcado por conturbações. Ele teve de lidar com 12 mil greves no tempo em que ocupou o Palácio do Planalto. Diz que seguiu os conselhos de aliados político de não reprimir os movimentos dos trabalhadores, mas negociar soluções para os dilemas.
Sarney também elogiou a postura dos militares na redemocratização, liderados pelo general e ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves, descrito pelo ex-presidente como o responsável por colocar os fardados de volta aos quartéis.
“Até hoje nós vemos que as Forças Armadas estão fiéis às instituições, como demonstraram nos episódio de 8 de janeiro.”
O ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-chefe dos ministérios da Justiça e Defesa Nelson Jobim disse que Sarney representa uma política democrática que está em falta no país.
“Nós precisamos retomar o diálogo […] Tirar o ódio da política, que hoje inviabiliza o diálogo, e retomarmos aquelas posições dos democratas que não só anunciam que a democracia é grande coisa, que vale a pena, mas os democratas que sabem construir o futuro com desenhos institucionais que viabilizem a liberdade”, disse Jobim.
Por vídeo, a presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministra Cármen Lúcia, defendeu que a democracia brasileira, mesmo após 40 anos, continue se aprimorando para garantir a igualdade entre homens e mulheres na participação política e institucional.
“José Sarney, como grande democrata, com a possibilidade da Constituinte que veio em 1987 e 1988 a traduzir esse anseio por igualdade na população brasileira, é um grande exemplo para que a gente tenha instituições democráticas, dinâmica institucional igualmente democrática e uma sociedade que nos dê a garantia de que a igualdade não é apenas uma determinação constitucional, mas que seja apenas um sinal normal de respeito à vida de todas as pessoas”, afirmou.
Sarney assumiu a Presidência da República em 15 de março de 1985. Ele havia sido eleito vice-presidente de Tancredo Neves —o político mineiro, porém, estava hospitalizado e morreu no mês seguinte.
Em entrevista ao jornal Folha, o ex-presidente disse que manteve todo o ministério escolhido por Tancredo e, após a posse, entendeu que deveria conduzir a transição da ditadura militar para a democracia.
“Fui um presidente marcado para ser deposto, como muitos outros da história do Brasil”, afirmou.
Na entrevista, ele diz se arrepender das críticas feitas a Juscelino Kubitschek, lembra a depressão que teve nos anos 1980 e comenta as acusações de favorecer deputados para que aprovassem seu mandato de cinco anos.
“Eu não queria assumir a Presidência, queria esperar o Tancredo [que estava hospitalizado]. Houve a necessidade de assumir porque todos achavam, inclusive Ulysses e Tancredo, que, depois de uma luta tão grande para chegar àquele momento, se nós tivéssemos qualquer dúvida sobre quem assumiria, corríamos um risco grande de ter problema”, disse.