Israel descumpre ultimato dos EUA para amenizar crise humanitária em Gaza, dizem entidades
Palestinos esperam para receber comida preparada por uma cozinha de caridade, em meio a crise de fome no norte da Faixa de Gaza, enquanto Israel segue atacando o território - Mahmoud Issa - 14.ago.24/Reuters
Terminou na terça-feira (12) o prazo de 30 dias que os Estados Unidos deram a Israel para este amenizasse a crise humanitária na Faixa de Gaza.
Organizações humanitárias afirmaram que as diretivas não só foram descumpridas no período, como a situação se agravou de forma dramática, em especial no norte.
Não foi a avaliação dos EUA. Também nesta terça, o Departamento de Estado americano disse que concluiu que Tel Aviv não está impedindo a assistência humanitária em Gaza e, portanto, não está sujeito a uma lei americana que impede o envio de armas a países que impedem a entrega de ajuda a civis em zonas de conflito.
O governo Joe Biden havia enviado em 13 de outubro uma carta a Israel em que advertia sobre a legislação e dava ao Estado judeu 30 dias para tomar uma série de medidas para crise humanitária em Gaza, como o envio de 350 caminhões com mantimentos por dia para lá, o estabelecimento de um novo ponto de entrada e saída do território sob cerco e a limitação das ordens de deslocamento forçado da população ao estritamente necessário.
O porta-voz do Departamento de Estado, Vedant Patel, recusou-se a esclarecer se esses critérios específicos foram cumpridos em um encontro com jornalistas. Em vez disso, afirmou que Israel tomou as medidas necessárias para solucionar essas questões e que os EUA continuariam a avaliar a situação continuamente.
“Vimos alguns progressos”, disse ele, reconhecendo em seguida que os EUA gostariam de ver ainda mais melhorias. “Acreditamos que, se não fosse pela intervenção americana, essas mudanças talvez não tivessem acontecido nunca.”
Na segunda-feira (11), Israel afirmou que tinha cumprido a maioria das demandas dos americanos, e na terça, seu Exército anunciou que havia entregado centenas de pacotes de alimentos em áreas isoladas do norte de Gaza, além de ter reaberto a passagem de Kisufim de modo a permitir a entrada de ajuda humanitária.
No mais, a influência da administração democrata sobre Israel diminuiu consideravelmente quando Donald Trump foi proclamado presidente eleito dos EUA, na semana passada. Aliado do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, ele provavelmente reverteria qualquer sanção militar contra o país no Oriente Médio assim que tomasse posse, no ano que vem.
As forças israelenses voltaram a avançar sobre o norte de Gaza há mais de um mês, cercando hospitais e abrigos para refugiados e exigindo que moradores locais se desloquem para o sul em uma operação que, segundo os militares, busca impedir a reorganização do grupo terrorista Hamas na área.
O objetivo declarado de Tel Aviv na guerra é extinguir completamente a facção, que matou mais de 1.200 pessoas e sequestrou outras 240 ao invadir o sul de Israel em 7 de outubro de 2023 —sua resposta militar em Gaza, por sua vez, já matou de 43 mil pessoas nos cálculos das autoridades de saúde locais, ligadas ao Hamas.
Louise Wateridge, porta-voz da UNRWA, agência da ONU para refugiados palestinos, afirmou a jornalistas em Genebra nesta terça que o número de caminhões de ajuda que adentram o território “não é o suficiente”.
Questionada sobre o que esperava dos EUA em relação ao prazo, respondeu que “qualquer coisa que aconteça agora já é tarde demais”. “Milhares e milhares de pessoas morreram sem motivo, porque falta ajuda, porque as bombas continuam, porque não conseguimos nem ao menos chegar a quem está sob os escombros.”
Joyce Msuya, chefe interina do Ocha, escritório de ajuda humanitária da ONU, foi outra a denunciar a “crueldade rotineira” sofrida pela população de Gaza na terça. “Somos testemunhas de atos que remetem aos mais graves crimes internacionais”, disse ela ao Conselho de Segurança do organismo multilateral.
Na semana passada, o Ocha havia divulgado que quase 70% dos palestinos que morreram em meio aos enfrentamentos e tiveram suas identidades confirmadas eram mulheres e crianças.
O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, tinha dito na véspera que as ações israelenses violam as leis que regem a guerra. “A expressão ‘limpeza étnica’ está sendo cada vez mais usada para descrever o que vem ocorrendo no norte de Gaza”, disse ele em um fio no X na segunda-feira (11).
Israel afirma que, no mês passado, uma média de 57 caminhões entraram em Gaza por dia, e que esta média subiu para 81 na primeira semana de novembro.
A ONU estima que essa cifra seja na verdade de 37 caminhões por dia desde o início de outubro —o número não só é menor do que aquele fornecido por Tel Aviv como do que os 600 exigidos para suprir as necessidades básicas do território.
Projeções do organismo multilateral indicam que 91% da população do território deve enfrentar altos níveis de insegurança alimentar nos próximos meses.
Médicos palestinos afirmam que pelo menos 24 pessoas foram mortas em ataques israelenses em diferentes partes de Gaza entre a noite de segunda e a manhã desta terça, incluindo dez pessoas em uma casa em Beit Hanoun e outras duas na cidade vizinha de Beit Lahiya.
Enquanto isso, quatro soldados israelenses morreram no norte de Gaza, disse o Exército de Tel Aviv.