‘Lamento passarem tantas reprises, e eu não ganhar um tostão’, diz Lucinha Lins
A atriz Lucinha Lins antes da estreia do musical "Palavra de Mulher", em 2019 - Greg Salibian -13.jul.2019/Folhapress
Embora esteja longe de novelas inéditas há sete anos, Lucinha Lins pode ser vista diariamente no canal Viva na reta final da reprise de “A Viagem” (1994). Assim que acabar a trama, ela seguirá no ar no mesmo canal, a partir de 4 de novembro, em outra reexibição: a de “Roque Santeiro”, produção de 1985 que já se tornou um clássico da dramaturgia.
Lucinha acha os dois trabalhos “maravilhosos” e não se opõe à possibilidade de que eles sejam reprisados, mas tem uma reclamação. “O que eu lamento é passarem tantas reprises das quais fiz parte, mas eu não ganhar um tostão”, afirma ela, em mensagem de áudio à coluna Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo.
“É muito feio isso, diante do trabalho de um ator, ser explorado dessa maneira pelas emissoras”, completa.
Lucinha não está sozinha. Ela engrossa uma lista de nomes como o de Mateus Solano e Gloria Pires, que têm se mostrado cada vez mais insatisfeitos com a baixa remuneração paga aos artistas —em alguns casos, ela até é inexistente— por exibições de trabalhos que eles fizeram no passado.
Maria Zilda Bethlem, que fez inúmeras tramas entre os anos 1970 e 2010, chegou a entrar com uma ação na Justiça contra a Globo.
Lucinha não entrou com um processo, mas faz parte da Interartis Brasil, associação que representa os atores e busca uma atualização da Lei de Direitos Autorais, sancionada em 1988. Segundo eles, o problema não é apenas de uma emissora, mas de todo o setor audiovisual do país.
Como a legislação é antiga, ela não previu, por exemplo, a existência das plataformas de streaming, que disponibilizam em seu catálogo novelas, séries e filmes antigos.
“Meu Deus do céu, direito autoral e direito de imagem têm que existir para o resto da vida de um artista, e isso não está acontecendo”, afirma Lucinha.
Procurada, a Globo diz que efetua “todos os pagamentos referentes aos direitos autorais e conexos devidos a autores, diretores e atores, em obras reexibidas na emissora ou nos canais pagos e no Globoplay, de acordo com os contratos celebrados com cada um, reconhecendo a importância da preservação dos direitos de propriedade intelectual, dos quais é uma grande defensora.”
Na conversa com a coluna Mônica Bergamo, a atriz faz ainda outra reclamação: a falta de convites para participar de novas produções.
Lucinha conta que é quase diariamente questionada pelo público sobre quando retornará à TV, seja no supermercado ou na porta do colégio dos netos. “E eu respondo: ‘Não depende de mim, depende de me chamarem’.”
Sua última escalação para o elenco fixo de uma novela foi em “O Rico e Lázaro”, de 2017, na Record. “O tal do etarismo existe? Existe, sim. E eu lamento. Sou mais uma atriz, que está com 71 anos, que tem muita história para contar, experiência, e que está com saudade de fazer novela.”
Lucinha gravou recentemente uma pequena participação de dois capítulos no remake de “Dona Beja”, da plataforma Max, que ainda não tem previsão de estreia. Ela fará a professora do colégio das filhas da personagem-título. “Minha personagem é muito engraçada, e eu adorei fazer. Tenho certeza de que a história vai ser um sucesso, e estou doida para ver.”
Do trabalho em “Roque Santeiro”, Lucinha conta que só tem lembranças positivas. A trama escrita por Dias Gomes foi a sua primeira novela na Globo e, segundo ela, “já um desafio enorme”.
Na história, Lucinha interpretou Mocinha, jovem filha do prefeito Flô (Ary Fontoura) e de Pombinha (Eloísa Mafalda), que vira beata e faz voto de castidade após o sumiço do então namorado Roque (José Wilker).
“Vivi momentos raros nos bastidores, escutando histórias dos atores maravilhosos que trabalharam nessa novela. Eu ficava simplesmente babando e absorvendo tudo o que eu podia aprender com eles. Foi um dos momentos inesquecíveis da minha vida.”