Líder do PT admite que houve acordo por vaga no TCU em negociação sobre apoio a Hugo Motta; cadeira negociada só deve ficar livre em 2026
O presidente da Câmara, Hugo Motta (PB) - Mário Agra-9.jul.24/Divulgação Câmara dos Deputados
O líder do PT na Câmara, deputado Odair Cunha (MG), admitiu na sexta-feira (1º/11) em entrevista ao jornal “O Globo” que uma vaga para o partido no Tribunal de Contas da União (TCU) entrou nas negociações para apoio à candidatura do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara.
O apoio do PT a Motta foi oficializado na quarta-feira (30/10). O deputado já conta com o suporte das maiores bancadas da casa. O PT tem o segundo maior número de deputados. Fica atrás do PL, de oposição ao governo Lula, que também fechou com Motta.
As vagas para o TCU têm que ser aprovadas pelo Congresso e são preenchidas a partir de indicações feitas alternadamente por Câmara, Senado e Presidência da República. O acordo para fazer a indicação faria com que a Câmara endossasse o nome do PT para o TCU.
“TCU foi colocado no bojo desse conjunto de preocupações, intenções, que a bancada sente-se no direito de reivindicar. O TCU não foi um elemento central da decisão. A governabilidade e a estabilidade institucional com uma disputa menos acirrada na Casa foram fundamentais”, disse Cunha ao “Globo”.
A fala de Cunha confirmou uma declaração do atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que também anunciou apoio a Motta nesta semana.
“O PT solicitou a indicação da bancada deles. Eles reclamam que politicamente nunca tiveram um representante no TCU. [Há o compromisso] com o PT, sim, de eles indicarem a vaga”, afirmou Lira ao jornal “Folha de S. Paulo”.
Para o deputado Odair Cunha, o acordo respeita o tamanho da bancada do PT.
“O que o PT reivindica é que seu tamanho e seu espaço sejam respeitados. Que nós não sejamos vítimas de um processo de blocagem contra o PT. Porque se as forças se unem contra o PT, pode reduzir o papel e a importância do partido”, justificou.
Cadeira no TCU negociada pelo PT para sucessão na Câmara só deve ficar livre em 2026
A sinalização dada pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de que um nome do PT receberá apoio na disputa pelo cargo de ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) antecipa o debate sobre uma vaga que se abrirá apenas em fevereiro de 2026 na corte.
Em 26 de fevereiro daquele ano, o ministro Aroldo Cedraz completará 75 anos, idade limite para atuação no tribunal, e será substituído por um ministro eleito pelo Congresso Nacional.
Em entrevista ao jornal Folha, Lira disse que há acordo para o PT indicar um nome na disputa ao TCU como moeda de troca para o apoio da legenda à candidatura de Hugo Motta (Republicanos-RR) ao comando da Câmara dos Deputados.
“Eles [PT] reclamam que politicamente nunca tiveram um representante no TCU. [Há o compromisso] com o PT, sim, de eles indicarem a vaga”, afirmou Lira.
É comum que as vagas no TCU entrem nas negociações para as presidências da Câmara e do Senado, também nas composições de governo e alianças eleitorais.
Antes de 2026, uma mudança na cúpula do Tribunal de Contas se daria apenas em casos excepcionais, como algum ministro atual antecipar a aposentadoria. Políticos apostam nos bastidores que Cedraz ou o ministro Augusto Nardes poderiam adiantar a saída do cargo.
O cargo de ministro do TCU é cobiçado, entre outras razões, por avaliar a gestão do presidente da República. Em 2015, o tribunal reprovou as contas de Dilma Rousseff (PT), em razão das chamadas “pedaladas fiscais”, e pavimentou o caminho para o impeachment da ex-presidente.
A corte tem nove ministros, sendo que o Congresso escolhe seis deles. Outros dois são eleitos pelo presidente entre os ministros substitutos e membros do Ministério Público junto ao TCU.
Ainda há uma vaga de escolha do presidente da República. O nome também precisa ser aprovado pelo Senado.
As escolhas que cabem ao Congresso mobilizam deputados e senadores em disputa que se assemelham as eleições, com panfletos, slogans de campanha e apoiadores contratados.
A ideia do PT, porém, é garantir apoio amplo do centrão ao eventual candidato.
Em disputas ao TCU que ocorreram durante gestões passadas de Lula, os deputados José Pimentel (PT-CE) e Paulo Delgado (PT-MG) foram derrotados.
Na terça-feira passada (29/10), em reunião com a bancada do PT, o deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA) lembrou dessas derrotas para afirmar que seria como “vender terreno na lua” prometer a ida de um petista ao TCU. Elmar buscava apoio para a própria candidatura ao comando da Câmara, mas ele já sinalizou que deixará a disputa após o União Brasil abraçar o nome de Hugo Motta.
O trabalho do TCU ainda desperta interesse do Legislativo por causa das fiscalizações feitas pelo órgão a pedido do Congresso ou por iniciativa própria. Em alguns casos, o tribunal gera incômodo entre parlamentares por suspender obras por possíveis irregularidades.
O TCU chegou a travar pavimentações feitas pela estatal Codevasf, bancadas por emendas parlamentares, por questionamentos sobre o modelo de contratação e pela interferência de deputados e senadores até no tipo de asfalto escolhido.
Os ministros, porém, recuaram e permitiram a continuidade das obras após a companhia federal afirmar que corrigiu os procedimentos.
O TCU ainda atua nos processos de privatização e faz a mediação de acordos bilionários em renegociações de contratos entre empresas e o poder público.
Após Cedraz, a aposentadoria seguinte na cúpula do TCU ocorrerá em outubro de 2027, quando Nardes completará 75 anos.
Não seria inédito um ministro antecipar a saída para abrir vaga no tribunal. Em 2021, o ex-governador mineiro Antonio Anastasia foi escolhido para o TCU em articulação relacionada à candidatura vitoriosa de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) à presidência do Senado naquele ano.
A ida de Anastasia ao tribunal ainda permitiu que Alexandre Silveira (PSD-MG), atual ministro de Minas e Energia, assumisse o mandato de senador.
Toda a costura só foi possível por causa da antecipação, em quase dois anos, da saída do ex-ministro Raimundo Carreiro, que deixou o tribunal para assumir a embaixada do Brasil em Portugal, a convite do então presidente Jair Bolsonaro (PL).
A vaga no TCU preenchida em 2023 também foi usada nas negociações a presidente da Câmara. Na primeira eleição de Arthur Lira ao comando da Casa, ele fez um acordo para apoiar o nome de Jhonatan de Jesus, então deputado pelo Republicanos de Roraima, ao tribunal. O apadrinhado de Lira também é filho do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR).