Liderança rebelde afirma que deposição de Assad na Síria ‘não tem volta’
Líder do grupo islâmico sírio (HTS), Abu Mohammed al-Jolani, que agora usa seu nome de batismo, Ahmed al-Sharaa, que liderou uma ofensiva rebelde relâmpago para tirar Damasco do controle do governo, discursa para uma multidão na Mesquita Omíada, em Damasco - AREF TAMMAWI/8.dez.24-AFP
O líder rebelde Abu Mohammad al-Jolani, que comandou o levante contra a ditadura Bashar al-Assad na Síria, afirmou no domingo (8) em um discurso na TV estatal do país que não há espaço para voltar atrás na deposição do regime, e que a da HTS (Organização para a Libertação do Levante, na sigla em árabe) está determinada a continuar a revolta que eles começaram em 2011, na Primavera Árabe.
A facção protagonizou os combates contra o Exército sírio ao longo da última semana, tendo conquistado importantes cidades, e Jolani é visto como o principal candidato ao comando do país —uma perspectiva que preocupa devido à fama autoritária do líder e a ligação do HTS com o grupo terrorista Al Qaeda em sua origem.
Ele, que recentemente passou a usar seu nome verdadeiro, Ahmed al-Sharaa, também visitou a mesquita da Omíadas, a maior de Damasco e o quarto local mais sagrado do mundo para os muçulmanos depois da tomada da capital pelos rebeldes. Foi recebido por uma multidão que celebrava o feito aos gritos de “Deus é grande” em árabe.
Apesar de suas intenções ainda não estarem completamente claras, Sharaa é descrito por analistas como um extremista que, desde 2016, quando rompeu relações com a Al Qaeda, adotou uma postura mais moderada para alcançar seus objetivos.
Ele agiu nas sombras durante anos. Mas agora se posiciona sob os holofotes, dando entrevistas a veículos internacionais e tendo se deixado ver na segunda maior cidade da Síria, Aleppo, após tomá-la completamente do regime cerca de uma semana atrás, na primeira vez em que isso ocorreu desde o início da guerra civil, em 2011.
Com o passar dos anos, ele também parou de usar o turbante típico dos jihadistas e deu preferência à indumentária militar.
“É um radical pragmático. Em 2014, ele estava no auge de sua radicalização”, afirmou à AFP Thomas Pierret, especialista em política islâmica, em alusão ao período da guerra em que o HTP tentou rivalizar com o grupo extremista Estado Islâmico (EI). “Desde então, moderou sua retórica.”
Nascido em 1982, Sharaa cresceu em Mezzeh, um distrito abastado da capital. Sua família era rica e ele foi um bom aluno.
Segundo o portal de notícias Middle East Eye, Sharaa começou a se sentir atraído pela retórica jihadista depois dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, quando começou a “assistir a sermões e debates clandestinos em subúrbios marginais de Damasco”.
Depois da invasão americana ao Iraque, o líder rebelde deixou a Síria para participar dos combates. Ali, uniu-se à Al Qaeda no Iraque, liderada por Abu Musab al-Zarqawi, e passou cinco anos preso, o que o impediu de galgar posições na organização jihadista.
Em março de 2011, quando explodiu a revolta contra Bashar al-Assad, voltou para casa e fundou a Jabhat al-Nusra, braço sírio da Al Qaeda.
Apesar do aparente sucesso do levante liderado por Sharaa, o futuro da Síria sob seu comando é incerto. A HTS não é um grupo homogêneo, mas uma coalizão de cinco milícias principais e seis secundárias, que têm desavenças entre si. A cidade de Daraa, simbólica por ter sido o berço da revolta síria em meio à Primavera Árabe, foi tomada por um grupo que só se juntou aos enfrentamentos contra o regime na sexta-feira, por exemplo.
Além disso, o nordeste da Síria hoje é controlado por um outro grupo, associado aos curdos, uma minoria étnica com um longo histórico de inimizades com a Turquia —que, por sua vez, apoiou o levante da HTS. Recep Tayyip Erdogan acusa a facção de ser ligada ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), organização separatista que seu governo classifica de terrorista.
Com informações de Reuters e AFP