Lula critica elites e diz que esquerda precisa melhorar discurso para ter maioria no Congresso
O presidente Lula - Reprodução/CanalGov no Youtube
O presidente Lula (PT) participou na quinta-feira (17) da abertura do 60º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) com um discurso em que criticou a elite pelo atraso educacional ao longo dos anos e cobrou o PT e a esquerda por uma melhora de diálogo com a população.
O congresso ocorre em Goiânia (GO) e a abertura foi realizada na UFG (Universidade Federal de Goiás).
Lula falou que a primeira universidade do país só foi criada séculos “depois da descoberta” e mencionou o avanço que houve em outros países nesse tema, diferentemente do Brasil. “A elite achava que índio, escravo, não precisava estudar e não perceberam que levava a um atraso que cobramos o preço até hoje”, disse.
“Agora quando terminar meu mandato em 2026 vamos mais institutos federais espalhados por esse país. Em pouco mais de 15 anos, vamos fazer três vezes mais o que eles fizeram em um século”, disse.
Lula fez um discurso direcionado ao público universitário, com sinalizações aos desafios para as eleições de 2026, sobretudo para o Congresso —o governo enfrenta uma relação de conflitos com o parlamento.
“É preciso o PT se perguntar porque o PT é capaz de eleger um presidente 5 vezes, Lula e Dilma, e só fez 70 deputados federais. Nós achamos que o nosso discurso é o verdadeiro, mas será que o povo está nos compreendendo, nos entendendo?”, questionou. “Porque uma estratégia pra gente poder aprovar tudo que a gente quer é botar mais gente no Congresso Nacional.”
Ele também mencionou a dificuldade de outros partidos de esquerda, como o PC do B (que tem grande influência na UNE), conseguirem eleger representantes no Congresso nacional. Também houve críticas às big techs e ao uso da inteligência artificial na desinformação e nas corridas eleitorais.
“A gente tem que conversar muito com a juventude porque ela é muito vulnerável às chamadas máquinas das empresas digitais. É importante que aprenda a distinguir a mentira da verdade. E se a juventude não tiver ligada nessa luta, e não repassar bobagem, a gente vai fazer uma eleição com base numa guerra na inteligência artificial e a gente sabe que o resultado pode ser nefasto, pode acontecer o que aconteceu nos EUA ou na argentina. Não queremos eleger inteligência artificial, mas inteligência humana. Não quero uma sociedade de algoritmos.”
No auditório da universidade, estudantes entoavam gritos contra Donald Trump e Jair Bolsonaro, além de enaltecimentos da soberania da América Latina. Entre eles, o coro de “sem anistia e sem perdão, eu quero ver Bolsonaro na prisão”.
A edição do Congresso da UNE tem como tema “O Brasil se une pela soberania”. O discurso de reforço pela soberania tem sido adotado pelo governo Lula após ao anúncio de Trump de impor sobretaxas ao Brasil, ao mesmo tempo que acusou o país de perseguir o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), aliado do líder americano.
Essa estratégia se somou a campanha do governo de que é preciso cobrar dos ricos em favor dos pobres, desencadeada após o Congresso ter derrubado decretos do governo federal que tratavam do aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Integrantes do governo afirmaram que a oscilação positiva na avaliação da gestão petista, vista em pesquisa da quarta-feira (16) da Genial/Quaest, pode ser atribuída à campanha de defesa da justiça tributária estimulada pelo Palácio do Planalto nas últimas semanas.
No evento da quinta-feira, estiveram presentes os ministros Rui Costa (Casa Civil), Alexandre Padilha (Saúde), Márcio Macêdo (Secretaria-Geral), Camilo Santana (Educação), Luciana Santos (Ciência e Tecnologia) e Margareth Menezes (Cultura).
Ministros reforçaram o discurso a favor da isenção de imposto para os mais pobres e taxação dos mais ricos, além de menções à defesa da soberania brasileira. Do lado de fora do auditório, houve relatos pontuais de brigas entre os participantes do congresso e apoiadores de Bolsonaro.
Na véspera, cinco pessoas morreram, entre elas três jovens que estavam a caminho do Congresso, em um acidente envolvendo um ônibus e um microônibus que transportavam os estudantes e uma carreta.
As vítimas foram os estudantes Welfesom Campos Alves, Leandro Souza Dias, e Ana Letícia de Araújo Cordeiro, o motorista do ônibus, Ademilson Militão de Oliveira, e o motorista do caminhão, Keyne Laurentino de Oliveira. O nome dos três foi exposto no telão no início do evento, com homenagens
Os dois veículos com estudantes faziam parte de um comboio que saiu da UFPA (Universidade Federal do Pará) em direção a Goiânia para participar do Congresso, segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal).
Antes do evento da UNE, Lula se reuniu com cerca de cinco integrantes da caravana de estudantes do Pará, entre eles o irmão de uma das vítimas. O encontro ocorreu a portas fechadas para prestar solidariedade ao grupo.
Lula já havia manifestado solidariedade ao jovens e suas famílias por meio de nota. “Neste momento de dor, manifesto a solidariedade às famílias e amigos das vítimas e aos colegas, professores e a toda a comunidade universitária atingida. Que as famílias encontrem conforto e amparo para atravessar este momento tão difícil”, diz o texto.
O Congresso ocorre de até dia 20 de julho e tem a expectativa de receber mais de 10 mil estudantes de todo o país. O auditório recebeu cerca de 3.000 pessoas nesta quinta, segundo a UNE.
Goiás é reduto eleitoral de Ronaldo Caiado (União Brasil), governador do estado, que não participou do evento. Apesar de integrar um partido da base de Lula, Caiado é declarado apoiador de Bolsonaro, tendo se manifestado, inclusive, a favor da anistia aos envolvidos no 8 de janeiro.